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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Malin Persson Giolito - Areias Movediças [Opinião]


Sinopse: AQUI

Opinião: A estreia da série baseada no livro homónimo no catálogo da Netflix foi determinante para que iniciasse a leitura desta obra que já habitava nas minhas estantes há cerca de um ano, quando foi publicada. Na altura, este título despertou-me muito interesse pois pensei que fosse uma abordagem aos massacres nas escolas, um tema que me impressiona muito.

Trata-se de um invulgar thriller que poderia muito bem ser catalogado como jurídico. Contudo, ainda que se passe maioritariamente entre julgamentos de uma jovem, Maja, acusada de ter morto o namorado, a amiga, alguns colegas e um professor, a história assume contornos ainda mais profundos, dando-me a sensação que estamos perante um poderoso thriller psicológico.

O que mais me agradou na história foi, sem dúvida, a minha percepção sobre a protagonista que mudou de forma drástica, atribuindo, evidentemente, esta sensação à profundidade dos acontecimentos descritos.
A minha primeira impressão sobre Maja situava-se algures entre a incredulidade e a incompreensão pelo que não gostei imediatamente da protagonista. Contudo, à medida que a trama se desenvolve, a autora recorre a flahsbacks para relatar alguns factos do passado de Maja e a pouco e pouco, as peças do puzzle começam a fazer sentido e os sentimentos que se instalaram nas primeiras páginas, modificaram-se.
É, portanto, uma obra com um grande enfoque na componente psicológica, apesar de, como referi anteriormente, me ter parecido um thriller jurídico. 

Confesso que a obra demorou a conquistar-me. Escrito num ritmo moroso e, por conseguinte, tendo levado algum tempo a cativar-me, este título prima pelo desconforto e inquietação que transmite. Por mim falo que me senti constantemente inquieta e questionava-me em que circunstâncias Maja teria morto o namorado e amiga, dúvidas estas que vão sendo respondidas através de pequenas pistas na interacção de Maja com o namorado, Sebastian, a amiga, Amanda e restante comunidade escolar.

Apesar da autora se debruçar sobre o quotidiano da juventude que, eventualmente, poderia ser um aspecto com o qual já não me identifico tanto, confesso que não me senti descontextualizada, antes pelo contrário, estava cada vez mais surpreendida com o crescendo de relações abusivas de Maja. Creio que a abordagem do tema de relações disfuncionais está bastante credível e, pessoalmente, deixou-me muito incomodada. Acredito que informação como a que está relatada na trama, ainda que esta seja ficcionada, possa servir de alerta aos jovens que sofrem subjugados a comportamentos de manipulação.
A narrativa é complementada com o trato de outros temas como, por exemplo, um bastante actual, a emigração crescente e consequente fenómeno de xenofobia. Consubstancia-se, portanto, como um livro propenso à reflexão sobre questões sociais na Europa.

Em suma, ainda que estejamos perante uma trama arrastada, Areias Movediças é um livro interessante na medida em que aborda uma série de temas sobre os quais devemos estar alerta. Fica, portanto, a vontade em ver a série e estabelecer um paralelismo entre a obra e sua adaptação. Estou curiosa!


Catherine Steadman - Há Algo Estranho na Água [Opinião]


Sinopse: AQUI

Opinião: O presente título não poderia começar de melhor forma! No prólogo, é relatado que Erin, a protagonista, está a escavar uma sepultura. No meio de considerações repletas de sarcasmo e humor negro, instala-se no leitor uma inquietação e a dúvida da identidade da vítima que Erin tem que "despachar" e como é que escalou àquela situação.

A acção recua alguns meses. Erin, realizadora de documentários, está noiva. Encontra-se numa excelente fase da vida tanto no nível profissional como pessoal, uma situação que não se aplica a Mark, o seu noivo, uma vez que está desempregado.

Confesso que, após um prólogo tão bombástico, esperava que os capítulos seguintes me tirassem o chão. Fiquei um pouco decepcionada pois, a meu ver, toda a organização do casamento de Erin foi demasiado exaustiva e eu simplesmente queria chegar à situação que despoletara o acontecimento das páginas iniciais.
Apesar de considerar que a trama se tornara, de certa forma, algo maçuda, devo reconhecer que a autora estruturou a história de uma forma extremamente inteligente. Não há como não ficar indiferente ao primeiro capítulo, aquela informação inicial é tão importante que estamos expectantes com o culminar daquele acontecimento.
Também os detalhes sobre a actividade profissional de Erin me deixaram um pouco entediada, contudo, finda a leitura, reconheço que estes foram importantes para atar algumas pontas soltas da narrativa.

É na lua de mel de Erin e Mark que a acção toma fôlego e eu rendi-me, finalmente, à história. O que mais apreciei nesta obra foi a complexidade da trama e a forma como esta me surpreendeu. Os twists mantiveram-me em suspense no decorrer da leitura.
Ainda que seja um thriller, penso que este é um livro propenso à reflexão sobre os valores morais e éticos. Também fiz o exercício de me colocar na pele de Erin e pensar como agiria numa situação semelhante. Creio que a história acaba por funcionar, desta forma, como um desafio ao leitor convidando-o a priorizar e pesar certos aspectos na vida.
Apesar do casal ser, claramente, a força motriz da história, sem dúvida de que Erin se destacou mais pela sua forma de ser tão eufórica e plena em tiradas de humor negro. Ainda que discorde de algumas acções desta personagem, é impossível não gostar de Erin. A leveza da protagonista foi também um aspecto muito positivo e afigura-se uma característica pouco usual se tivermos em conta que este título é um thriller.

Apesar de ter alguns capítulos detalhando pormenores que, a meu ver, seriam dispensáveis para a trama, Há Algo Estranho na Água acabou por me cativar muito. Como referi, esta minha percepção prende-se essencialmente com o efeito surpresa sobre a natureza do achado na água bem como o desenvolvimento a partir deste acontecimento.
Por motivos óbvios, omitir-vos-ei este elemento para que possam desfrutar da obra tanto quanto eu. Recomendo!

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sexta-feira, 5 de julho de 2019

Iain Reid - Intruso [Opinião]

Sinopse: AQUI

Opinião: No ano passado li I´m Thinking Of Ending Things da autoria do canadiano Iain Reid, um livro que considerei algo bizarro. Com grande surpresa minha, o autor foi publicado em Portugal e a estreia do mesmo por cá é feita através da edição do seu segundo romance, Intruso.

Apesar dos dois livros supra referidos do autor se debruçarem sobre tramas completamente diferentes, há um denominador comum a ambas: dissecam o comportamento humano.
Junior e Henrietta vivem numa pacata quinta longe da cidade até ao dia em que recebem a visita de um homem, Terrance, alegando que o marido foi destacado para uma viagem longínqua de colonização espacial. A trama adensa-se quando Terrance assegura a Henrietta que não ficará sozinha durante o período de ausência de Junior.

A premissa é, no mínimo, intrigante e tal como acontecera na leitura do livro antecessor do autor, logo nas primeiras páginas, inexplicavelmente, instalou-se um sentimento de desconforto. 
À medida que a história se desenvolvia, expondo possíveis fragilidades da relação entre Junior e Henrietta face à eminente partida do marido, mais considerava a história bizarra e mais se entranhava uma estranha necessidade de reflectir sobre a minha própria relação e de me colocar na pele dos protagonistas.

Apesar de Intruso ser claramente um livro de scy-fy, ocorrendo num cenário futurista não muito longínquo, com alguns elementos de terror, muitas passagens conduzem a uma reavaliação sobre os valores numa relação de compromisso. Ainda que os thrillers tenham o propósito de nos apoquentar, pessoalmente, gosto do exercício de ponderação que muitos nos propõem como aconteceu com este título.
Mencionei anteriormente que existem uns laivos de terror e, a meu ver, os elementos mais tenebrosos da trama residem no ambiente de isolamento da quinta bem como a natureza dúbia desta viagem, que me deixou algo inquieta e um pouco receosa. O desenvolvimento da trama é imprevisível e apresenta contornos originais, facto que talvez possa atribuir ao parco consumo de literatura de ficção científica.

É um livro pequeno com pouco mais de 200 páginas, estruturado em capítulos curtos, convidando a uma rápida leitura. Aliando-se a este facto, senti-me sugada pela história, de tal forma que terminei a leitura em poucas horas. 

Como ponto negativo, e como já pude verificar no primeiro livro, este autor regista algumas mensagens com cariz metafórico, consubstanciando um elemento que, pessoalmente, não me seduz. 
Falo em particular de uns escaravelhos que aparecem pela casa e cujo significado tive que investigar, lendo algumas interpretações de leitores, afim de aferir a sua importância na trama. Para mim, um escaravelho é pura e simplesmente um insecto.

Em suma, Intruso é um livro que transmite, genuinamente, sensações de paranóia e desconforto. Embora seja uma história de ficção científica, creio que se destinará a todos que procurem um livro intenso e out of the box mas que, ainda assim, vos convide a reflectir em concreto sobre questões de foro mais pessoal.


quarta-feira, 19 de junho de 2019

Caroline Kepnes - Tu [Opinião]


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Opinião: No ano passado foi lançada na Netflix a série televisiva You, baseada na obra homónima de Caroline Kepnes e que chega hoje, dia 19 de Junho, às livrarias portuguesas.
Confesso que vi os dez episódios avidamente, o que me entusiasmou ao ponto de ler o livro em inglês no início deste ano, sempre expectante que fosse publicado em Portugal.

A trama tem início quando o narrador, Joe, conhece Guinevere Beck, conhecida apenas pelo apelido, na livraria onde ele trabalha e interpreta de forma errada a breve conversa entabulada entre o próprio e a cliente.

Tu é uma história de stalking com a particularidade de ser narrada pelo próprio vilão, Joe, oferecendo-nos toda uma perspectiva, sem filtros, de uma mente distorcida, toldada por uma obsessão desmesurada. A história também é contada de uma forma invulgar, alicerçando-se num monólogo em que Joe expressa os seus desejos, muitas vezes contrapostos pelos factos reais.
Tenho para mim que este é o factor que mais se realça na obra e decerto a que mais incomoda o leitor na medida em que o mesmo é confrontado pelos impulsos obsessivos de Joe resultando em atitudes maquiavélicas.

Sendo entusiasta da série torna-se, para mim, inevitável estabelecer um paralelismo entre esta e a obra, podendo desde já afiançar que considerei o livro superior à sua adaptação.

Na série de TV, Joe comporta-se como um anti-herói, fazendo com que, estranhamente, por mais que considerasse imorais as várias atitudes do narrador, acabei por torcer por ele e pelo sucesso da sua relação com Beck, tendo-me lembrado, de certa forma, da personagem de Dexter criada por Jeff Lindsay e igualmente adaptada ao pequeno écran.
No livro, a personagem Joe é mais execrável, uma personalidade que se manifesta através de um discurso de cariz ordinário e monólogos maléficos, pelo que, pessoalmente, considerei-a mais sombria do que na série. Os acontecimentos e o próprio desenvolvimento da acção está fielmente adaptado. 

Devo mencionar, a título de curiosidade, que agradaram-me as referências a alguns livros, em particular a do lançamento de Doutor Sono de Stephen King e o fenómeno que o autor americano representa. Na série o livro destacado foi o Sleeping Beauties e, pessoalmente, não senti tanta euforia como a que senti aquando a leitura da obra. 

Se o facto da história ser narrada pelo antagonista, um elemento sui generis foi o que mais me cativou nesta obra, posso afiançar que não fiquei propriamente surpreendida com o rumo da trama, tendo-a considerado relativamente linear. Sem dúvida que é uma trama parca em reviravoltas todavia plena no que concerne à complexidade das personagens.
Também devo confessar que esperava um desfecho com um maior impacto mas o que a autora nos propõe era o mais lógico tendo em conta que o segundo livro da autora, Hidden Bodies, é uma sequela deste título.

Embora tenha presente que existem várias tramas debruçadas sobre o tema da obsessão, a meu ver, Tu destaca-se dos demais por conseguirmos entrar no íntimo da mente de uma pessoa verdadeiramente perturbada. Por esta razão, é um título que não hesito em recomendar.

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terça-feira, 18 de junho de 2019

Melanie Golding - A Mãe [Opinião]


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Opinião: Se acham que a maternidade é um mar de rosas, garanto-vos que vão mudar de ideias após a leitura deste livro.

O que destaca esta obra dos demais thrillers psicológicos, género actualmente em voga, é, indubitavelmente, a temática. Que tenha conhecimento, exceptuando uma obra recentemente publicada por cá, creio que este subgénero se debruça mais sobre relacionamentos amorosos, na sua grande maioria, disfuncionais ou relações de amizade. Contudo, este título prende-se com a condição de maternidade associado a uma bênção ou estado de graça, sentimentos antagónicos aos que são transmitidos pelo género de thriller.

Lauren Tranter acabou de dar à luz dois gémeos, Morgan e Riley. Após o parto, na sua primeira noite no hospital, ela começa a acreditar que alguém que lhe quer trocar os bebés.
Estamos, portanto, perante uma narradora não confiável, um elemento importante no subgénero de thriller psicológico, uma vez que fomenta alguma dúvida sobre a veracidade dos acontecimentos, ainda que a história seja narrada na primeira pessoa. Podemos, de facto, atribuir a percepção de Lauren como sendo algo resultante do cansaço, da tensão ou mesmo de uma eventual situação de depressão pós-parto ou, em alternativa, podemos dar por nós a acreditar, juntamente com a personagem, que alguém lhe quer trocar o Riley ou o Morgan.

As primeiras linhas sugeriram-me uma trama linear, assente numa tentativa de rapto dos bebés, contudo, acabei por ser surpreendida pois a história vai muito além. Devo dizer que ainda bem que a minha impressão inicial se revelou infundada.

Os capítulos são introduzidos por excertos de contos sinistros, algo que, a meu ver, nos instiga à leitura dos clássicos contos de terror, como as obras dos irmãos Grimm. Pelo que pude apurar, algumas das suas histórias apresentam um cariz mais tenebroso do que as narrativas infantis mais conhecidas.
O folclore assume assim uma especial relevância, enriquecendo a narrativa com uns toques de sobrenatural e fazendo com que o género deste título oscile entre o thriller psicológico e o terror, o que pessoalmente me agradou. Por norma não aprecio tramas exclusivamente sobrenaturais pois, para mim, as mesmas revestem-se de contornos inverosímeis, todavia A Mãe consegue interligar todos esses elementos numa história que poderia ser real.

Por ser uma trama fortemente relacionada com crianças, neste particular caso, bebés, a mesma acabou por me trazer uma sensação de desconforto acrescida. Durante a leitura senti-me ansiosa, temi pelos gémeos mas, simultaneamente, receei pelas atitudes da mãe que ora mostrava lucidez, ora tinha actos que me pareceram insanos. 

É uma obra que, por estas características, creio que vá mexer com a grande maioria das mulheres, em particular com aquelas que sejam mães ou mesmo aquelas que não o sendo desejam sê-lo.

Em suma, estamos perante um thriller que vai muito além da função de entretenimento. Dentro do género é um título que se consubstancia como verdadeiramente tenebroso e propenso à reflexão sobre as questões relacionadas com a maternidade. 


segunda-feira, 10 de junho de 2019

Viveca Sten - Nas Águas Mais Calmas [Opinião]


Opinião: Antes de mais, gostaria de mencionar que no que concerne ao título em apreço, tentei estabelecer uma equidistância entre a qualidade do livro e o sentimento especial que este me desperta por ter estado nos locais onde decorre a acção, bem como o facto de ter conhecido a autora.

Como sabeis, sou fascinada pelos policiais nórdicos, principalmente porque sempre que leio um, deparo-me com um ambiente e uma cultura diametralmente diferentes da nossa. Nas Águas Mais Calmas de Viveca Sten acaba por se destacar, dentro do próprio subgénero, devido ao cenário onde a trama se desenrola, a ilha de Sandhamn. Por norma, os homicídios decorrem em territórios mais urbanos ao passo que o presente título tem como cenário uma ilha maravilhosa que tive o prazer de visitar na semana passada. Obviamente que, por este motivo, consegui visualizar com maior clareza os locais mencionados, algo que tornou a leitura da obra ainda mais espectacular!

Devo dizer que considero a leitura deste livro deveras sensorial. Antes de visitar a ilha, consegui deslocar-me até aquele idílico cenário, ainda que entre páginas, deslumbrando-me com a gastronomia local e deixando-me conquistar pelas personagens. Pessoalmente acredito que Sandhamn, pelas razões que mencionei acima, será um local que, certamente, arrebatará o leitor.

Por entre as maravilhosas descrições do local são-nos dadas a conhecer as personagens principais. A forma como estas são desenvolvidas, naquela pitoresca comunidade de ilhéus (que é geralmente procurada como destino de Verão) levou-me, inevitavelmente, a estabelecer uma comparação entre esta obra, a primeira de uma série, e os livros de uma outra série que têm como cenário a cidade costeira de Fjallbacka, série essa da autoria da escritora sueca Camilla Lackberg, 

Agradou-me muito que, à semelhança da série supra-referida, as personagens principais, designadamente Thomas e Nora, apresentem verdadeiros problemas e dilemas reais, sabendo já de antemão que as vidas destes protagonistas irão ter novos desenvolvimentos nos próximos volumes da série. Assim sendo, instalou-se em mim, naturalmente, uma enorme vontade em prosseguir com a leitura dos livros seguintes, uma percepção que relaciono com o desejo de querer conhecer a evolução daquela pequena comunidade.
Assinalo como curioso o facto de a autora não ter criado um casal de protagonistas mas sim duas personagens amigas que colaboram no processo de investigação. 

Thomas é o inspector detective da polícia destacado para investigar o caso de um cadáver que deu à costa, enrolado numa rede de pesca já em avançado estado de decomposição. Nora, advogada e amiga de longa data de Thomas, acaba por colaborar com o inspector no esclarecimento do mistério e no apuramento da verdade. 

Tal como nos livros de Camilla Lackberg, a investigação policial é tão relevante quanto a vida pessoal dos protagonistas, levando o leitor a identificar-se tanto com os dramas de Thomas e Nora ao ponto de se sentir tão curioso com os seus problemas pessoais, como com o progresso do inquérito criminal. 

É ainda de salientar o facto de a descrição dos crimes ser feita numa linguagem polida, fazendo-me recordar, inevitavelmente, os policiais da escola clássica de Agatha Christie. É um estilo que se coaduna na perfeição com a apresentação da maravilhosa ilha de Sandhamn.

A tranquilidade da ilha, os costumes locais e a comunidade fechada, repleta de personagens com segredos foram factores que me fizeram considerar este policial como uma obra indispensável em qualquer estante de literatura escandinava. É um livro que se afigura essencial para aqueles fãs que não dispensam um cosy mystery oriundo da Escandinava, desta feita, isento de neve, pois devo dizer que não é usual ver retratado um clima tão ameno e marítimo nos policiais nórdicos. 

Em jeito de conclusão, gostaria de expressar que gostaria imenso de ver a série de TV adaptada dos livros e, desta forma, matar as saudades daquele local tão mágico. 

Pessoalmente, espero que se apaixonem pelas personagens e pelo bucólico cenário da ilha tanto como eu. Este título estará nas livrarias a partir de 4 de Julho. 


sexta-feira, 31 de maio de 2019

Stephen King - Fim de Turno [Opinião]


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Opinião: Este livro encerra a trilogia protagonizada por Bill Hodges. Embora seja o último de uma série, na minha opinião, este não está na mesma linha que os livros antecessores. Esta minha percepção prende-se com o facto de Sr. Mercedes e Perdido e Achado pertencerem assumidamente à categoria de thriller policial ao passo que o presente título inclui aspectos sobrenaturais, tornando a trama inverosímil, ao contrário das outras obras mencionadas.
Apesar do aspecto pouco realista da trama, confesso que gostei muito da forma como a trama fluiu e fez-me lembrar as demais obras de terror em que o autor recorre frequentemente ao sobrenatural para intensificar a história.

Estranhamente preferi esta obra à antecessora, Perdido e Achado, e atrevo-me a dizer que, desta trilogia, Fim de Turno reflecte com mais clareza o estilo do autor, essencialmente através do desenvolvimento de habilidades psíquicas. O tema do paranormal é, indubitavelmente, uma das temáticas que Stephen King aborda de forma exímia.

O final do livro anterior deixara-me a equacionar como seria o regresso de Brady, afinal de contas, este foi a força motriz do primeiro livro da trilogia e a sua situação nunca ficou devidamente resolvida mas nada nos prepara para o desenvolvimento da trama de Fim de Turno.
Não consigo eleger um antagonista favorito no universo de Stephen King mas este estará, certamente, como um dos mais perturbados que eu alguma vez me deparei na vasta literatura que leio. 

Bill e Holly, responsáveis pela empresa de investigação por conta própria, Finders Keepers, são envolvidos num estranho caso: ocorrem uma série de suicídios. Desconhecemos se estes são coagidos ou se as vítimas teriam tirado as suas próprias vidas de livre vontade. A forma como estes suicídios são levados a cabo são, para mim, bastante desconfortáveis e acima de tudo, bizarros. Esse terá sido o principal motivo porque considerei a trama tão viciante. Além disso, estava constantemente expectante com o confronto final entre Bill e Brady. Achei bastante curiosa a forma como o autor conseguiu recuperar o antagonista de Sr. Mercedes quando este estava num estado vegetativo.

Estamos perante uma história bastante intensa pois esta é uma caça ao homem com contornos bastante invulgares. Além disso, Bill Hodges está um pouco mais fragilizado, dando por mim a torcer pelo ex-polícia, mais do que por Holly, personagem que também acariciei desde o primeiro volume da série. 

Apesar de, em termos gerais, esta trilogia ser um pouco diferente das obras que o autor nos apresenta, foi um deleite ter conhecido Bill Hodges e, acima de tudo, Brady Hartsfield, provando que o autor Stephen King é versátil e conta histórias de thriller com a mesma mestria que apresenta relativamente às tramas de terror. 


segunda-feira, 20 de maio de 2019

Alex Michaelides - A Paciente Silenciosa [Opinião]


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Opinião: Antes de mais devo dizer que fiquei genuinamente impressionada com o romance de estreia do autor Alex Michaelides. Que livro fantástico! Li-o avidamente em pouco mais de dois dias, tal era o meu interesse nesta história com contornos invulgares.
Confesso que num primeiro momento, para mim, foi difícil compreender as motivações de Alicia para matar o seu marido de uma forma brutal e sem que, aparentemente, nada justificasse o móbil do crime, sendo esse o acto no qual assenta toda a trama.
A protagonista, que aparenta ter uma condição de profundo mutismo, é internada num hospital psiquiátrico e começa a ser acompanhada pelo recente psiquiatra da unidade, Theo Faber. 

Para além da minha incredulidade logo nos primeiros instantes da narrativa, há inúmeros factores intrínsecos à obra que me deslumbraram e que vou tentar enumerar.

Em primeiro lugar e antes de qualquer outro aspecto, devo salientar o cenário onde decorre a maior parte da acção, num hospital psiquiatrico, um local que considero intimidante pelas sensações de desconforto e claustrofobia que se foram apoderando de mim e que contribuíram para que, desta forma, a tensão da trama se fosse intensificando. Ainda neste prisma, achei que a abordagem ao tema da saúde mental foi deveras cativante. 

Uma vez que Alicia deixou de falar seria, à priori, difícil de compreender a essência da protagonista, não obstante o autor aprofunda-a de uma forma inteligente, através de entradas de diário. Simultâneamente, é aprofundada também a vida familiar de Theo Faber facto que leva a que nos apercebamos que até o profissional de saúde mental tem questões pessoais mal resolvidas.
A interacção entre o psiquiatra e paciente é muito interessante. 

O desenrolar da trama, oscilando entre as histórias pessoais das personagens principais e o desenvolvimento da situação clínica de Alicia é suportada por algumas alusões à mitologia grega, o que me fascinou e impeliu a conhecer a figura de Alceste. Considero que este elemento, embora de cariz mais metafórico, contribuiu para o enriquecimento da narrativa. 

Se já estava agradada com a progressão da história, esta minha sensação intensificou-se ainda mais no final com um plot twist inacreditável que me deixou sem chão. Ainda que inesperada, foi uma reviravolta lógica e verossímil e fez com que me sentisse enganada pelo autor o tempo todo.

Poderão deduzir, pelos pontos que mencionei, que esta obra será certamente uma das melhores neste ano de 2019. Extremamente bem escrito e bem executado, A Paciente Silenciosa surpreende até à última página pelo que recomendo sem reservas!

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terça-feira, 14 de maio de 2019

M.J. Arlidge - A Floresta do Mal [Opinião]


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Opinião: Este livro, o oitavo da serie protagonizada por Helen Grace, foi extremamente aguardado por mim e demais fãs do autor. Neste momento podemo-nos regozijar com o facto da a série completa já estar publicada em Portugal, uma vez que A Floresta do Mal foi o último livro de M.J. Arlidge a ser lançado mundialmente.

Por diversas vezes mencionei que esta é uma das minhas séries de eleição e, como tal, fiquei extasiada quando soube que este título iria ser publicado por cá. Sou uma fã atenta, confesso, e tinha conhecimento que, lá fora, esta obra saíra no final do ano passado pelo que congratulo a TopSeller pela célere publicação em terras lusas.
E claro, como tem vindo a ser habitual com as obras deste autor, as minhas expectativas foram largamente superadas!

Desta vez, o cenário dos brutais crimes é uma floresta o que, para mim, conferiu, quase de imediato, um efeito mais sombrio que os vulgares ambientes urbanos das anteriores narrativas.
Continuo a apreciar a maneira como o autor descreve os homicídios, de uma forma bastante explícita. ainda que estes sejam, na minha opinião, menos chocantes do que os modus operandi de outros antagonistas desta mesma série.

A trama é viciante, estruturada em capítulos curtos, terminando, muitos deles, em cliff hanger, incentivando a uma rápida e voraz leitura. E, como é hábito do autor, o desenvolvimento da investigação policial tem uns contornos inesperados como falsas pistas que conduzem, consequentemente, a hipóteses infundadas. Senti-me, por isso, constantemente expectante e em suspenso à medida que me aproximava do desfecho da narrativa.

Um dos elementos de sucesso da série é, indubitavelmente, a protagonista, Helen Grace. A personagem feminina, de extrema complexidade, tem vindo a surpreender pela capacidade de resolução dos casos e simultaneamente lidar com a sua atribulada vida pessoal. Muito sinceramente, não considerei que este título trouxesse novos desenvolvimentos para esta protagonista que tanto admiro, todavia, não poderei dizer o mesmo relativamente a Charlie que vive ainda ensombrada pelos eventos decorridos do livro antecessor, facto que se reflecte na presente trama.

Apesar da obra em apreço nos apresentar um caso independente dos demais resolvidos por Helen ou Charlie, fazendo apenas algumas alusões a acontecimentos anteriores, creio ser pertinente ler os livros da série cronologicamente, a fim de tirar maior proveito da série.

Em suma, embora A Floresta do Mal não seja o livro mais macabro da série, proporcionou-me uma leitura verdadeiramente emocionante. Difícil será mesmo aguardar pelo próximo livro protagonizado por Helen Grace.


terça-feira, 30 de abril de 2019

B.A. Paris - Traz-me de Volta [Opinião]


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Opinião: Traz-me de Volta é o terceiro livro de B.A. Paris, autora que me deixou rendida após a leitura de Ao Fechar A Porta, um dos thrillers psicológicos mais desconcertantes que li até à data. Escusado será dizer que me encontrava, portanto, demasiado expectante com a publicação deste livro. 
Devido à fasquia tão elevada com que fiquei, finda a leitura do primeiro livro da autora, devo confessar que nem o segundo livro, À Beira do Colapso, nem o presente título me deixaram tão extasiada quanto a obra de estreia. 

A trama centra-se em Finn, um jovem cuja namorada, Layla, desaparecera em Paris há 12 anos. Sabemos que aquando deste acontecimento, o protagonista deu parte às autoridades locais, todavia a investigação revela-se infrutífera. Volvidos 12 anos, quando Finn decide casar com a actual parceira, Ellen, a irmã de Layla, começam a surgir pequenas pistas que desencadeiam nele algumas reacções levando-o a reviver os acontecimentos do passado.

A par da história, que me deixou extremamente curiosa, sobretudo quando ao destino de Layla, o que mais apreciei foi a construção da narrativa. 
Esta é feita não só sob a perspectiva de Finn como também de Layla, sobretudo a partir de uma determinada fase da narrativa, alternando ainda entre dois momentos temporais: o passado e o presente. Devo dizer que gosto das histórias contadas nesta forma pois permitem-nos saber, regra geral, os pensamentos mais íntimos das personagens sendo que, no caso em apreço, achei que o estilo estava bastante semelhante ao de Gone Girl por nos fazer duvidar o carácter da personagem feminina.

A história é pautada por alguns momentos tensos, sobretudo quando Finn recebe alguns emails sinistros, ao mesmo tempo que começam a aparecer alguns objectos simbólicos, factos que contribuem para o instalar de um clima de paranóia, transportando o sentimento de angústia para o leitor, por outro lado, estes acontecimentos abalam também a relação de Finn com Ellen.

Portanto, considerei toda a história bastante viciante e devo confessar-vos que li o livro, quase na sua totalidade, numa só noite, tal a curiosidade com que estava face ao rumo da narrativa, sem que o meu interesse na trama esmorecesse um segundo que fosse. Porém, pessoalmente, devo dizer que não fiquei satisfeita com o desfecho da história, embora compreenda que a autora tenha sentido necessidade de criar um clímax inesperado, no entanto, considerei que a reviravolta final foi altamente inverossímil. 

Em suma, continuarei a recomendar o grandioso livro de estreia de B.A. Paris. Ao Fechar A Porta é uma obra que tenho em tão grande consideração que, mesmo pondo um pouco de parte qualquer paralelismo entre as obras, é inevitável considerar as duas seguintes um pouco inferiores.

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domingo, 28 de abril de 2019

Stephen King - Perdido e Achado [Opinião]


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Opinião: Este é então o segundo livro da trilogia protagonizada por Bill Hodges, iniciada com Sr. Mercedes, livro que, como sabeis, me deixou bastante impressionada. Apesar de ter gostado também desta continuação tenho para mim que a mesma não superou o primeiro da trilogia. Explicar-vos-ei as razões desta minha percepção, recorrendo a algumas inevitáveis comparações com o Sr. Mercedes.

A história lembrou-me, nos primeiros instantes, uma outra história do autor, Misery, na medida em que se debruça sobre um fã de um determinado escritor que, inconformado com o desfecho do protagonista de uma série que aprecia, acaba por matar o autor da mesma. Esta relação entre escritor e leitor fez-me lembrar, automaticamente, a que é estabelecida entre as afamadas personagens criadas por Stephen King, Paul Sheldon e Annie Wilkes, uma das minhas vilãs preferidas!
No caso da obra em apreço surge-nos a personagem Bellamy, um oportunista que rouba o cofre do autor, levando o conteúdo com dinheiro e manuscritos por publicar e escondendo-os num certo local, não acabando, contudo, por usufruir do feito uma vez que é preso. Acaba por ser um menino, Peter Saubers, a descobrir o cofre e, trinta e cinco anos depois, quando Bellamy é solto, vai ter que ajustar contas com o autor do crime.

Como é hábito nas obras de King o título debruça-se, nas primeiras páginas, numa exaustiva caracterização das personagens, uma circunstância que aprecio pois facilita a conexão do leitor com todos os protagonistas. A ponte com o livro anterior é feita através da profundidade da personagem do pai de Peter que se viu envolvido no acidente do Mercedes contudo e tirando esse facto não vislumbrei mais nenhuma ligação ao livro antecessor da trilogia até porque a presença do protagonista, Bill Hodges, é ínfima. Para quem ficou fã do detective devo dizer que este surge somente numa fase tardia da trama, envolvendo-se no caso, devo dizer que, com muita pena minha, pois confesso que esperava que o mesmo tivesse uma participação mais activa na obra.
No entanto gostei de o "rever" assim como Holly, uma personagem que transitou igualmente de Sr. Mercedes e que teve uma grande evolução.

A par das personagens, agradou-me a subtil reflexão que é feita em torno dos livros raros, do coleccionismo destes objectos e mesmo da relação que os leitores estabelecem com os autores uma vez eu própria sou fascinada pelo mundo da literatura.

A meu ver, na presente obra, o confronto entre herói/vilão poderia ter sido muito mais emocionante do que no livro antecessor na medida em que Peter parece alguém inofensivo face à perseguição que lhe é movida. Além disso, apesar de considerar Perdido e Achado uma obra desafiante, confesso que esperava mais reviravoltas. A partir de um certo ponto, o presente título acaba por se tornar previsível e creio ser esse o ingrediente que mais se destacou em Sr. Mercedes e, por conseguinte, ter-me-à feito com que apreciasse mais o primeiro livro da trilogia do que o segundo. 

Ainda que tenha gostado da caracterização do presente antagonista, Morris Bellamy, este não tira o destaque ao malévolo Brady Hartsfield que não teve mais do que uma alusão já no final da obra, com grande pena minha. Achei este antagonista tão interessante na primeira obra que esperava revê-lo no segundo livro da trilogia. Aparentemente, este só voltará no terceiro título. 

O desfecho da obra deixou-me deveras entusiasmada por terminar em jeito de cliffhanger, uma situação que terá maior desenvolvimento no último livro da trilogia, O Fim de Turno, cuja leitura será iniciada já no próximo mês de Maio. Estou ansiosa!


quarta-feira, 10 de abril de 2019

Camilla Läckberg - Uma Gaiola de Ouro [Opinião]

Sinopse: AQUI

Opinião: Há muito que sou grande fã da autora Camilla Läckberg devido à sua série protagonizada por Erica Falck e Patrik Hedström, motivo que me levou a ficar extremamente curiosa com a publicação de Uma Gaiola de Ouro, um título que, pelo que pude apurar, será lançado a nível mundial. Sendo, portanto, uma fã acérrima da autora, afigurou-se inevitável estabelecer uma comparação da presente obra com as demais da mesma autora, um paralelismo que, na minha opinião, se revelou infundado dado que Uma Gaiola de Ouro encontra-se num registo de thriller psicológico ao passo que a referida série pertence claramente ao género policial.

A par do género, existe uma grande diferença que se prende com a forte mensagem feminista, relembrando que, na série de Fjällbacka, o protagonismo era dividido pelo casal, todavia, na presente obra, as atenções centram-se em personagens femininas: Faye, a protagonista, bem como para Chris, a amiga e ainda Kerstin.

Quem é fã da autora estranhará, certamente, a linguagem utilizada que frequentemente alude a situações de cariz sexual, algo que, a meu ver, visa dar um toque mais cru à história e, por conseguinte, impressionar os leitores.  Esta linguagem mais uma vez destoa do tom mais polido ao qual me habituei nos restantes livros da autora.

Confesso que nem li a sinopse, algo que consubstancia um caso flagrante de confiança numa escritora, uma vez que Läckberg é uma das autoras que mais admiro e, como tal, enveredei pela leitura um pouco às cegas. Não querendo desvendar muito sobre a história, esta centra-se em Faye, uma mulher com um passado misterioso, casada actualmente com Jack, um homem de negócios bem sucedido. Não obstante o que aparenta ser um conto de fadas é, na realidade, uma relação disfuncional. 
Numa primeira fase considerei a trama um pouco previsível, pois na mesma proliferavam sinais que justificavam a razão pela qual o casamento deles estava em declínio sendo que, na realidade, basta atentar no nome do perfume da capa para deduzir o resto. 

Contudo, a nova obra da autora sugou-me de tal forma que li ávida e interessadamente em menos de 24 horas! As primeiras páginas são excruciantes e levam-nos a supor imediatamente como será o desfecho, algo que me surpreendeu pois a trama não é tão linear como imaginei a priori
Considerei algumas passagens referentes a Faye um pouco irrealistas mas, no fim de contas, a autora quer apelar aos sentimentos de vontade e determinação para alcançar um sonho, secundarizando as dificuldades que daí possam advir. Por este motivo, a caracterização da personagem da amiga de Faye, Chris, surpreendeu-me de sobremaneira.

O ponto forte de Läckberg é, indubitavelmente, a forma cativante como apresenta os seus enredos e Uma Gaiola de Ouro manteve a mesma fórmula, desenvolvendo duas subnarrativas, uma relativa ao passado de Faye, constituindo um dos mistérios que a história tem para nos oferecer e a outra respeitante à actualidade, conduzindo-nos ao plano de Faye para reorganizar a sua vida.  

Como referi, apesar da história aparentar ser bastante linear, cingindo-se a um plano de vingança por parte da protagonista, acabei por me sentir assoberbada em diversas situações, percepção que se intensificou no final. E dei por mim a pensar nas primeiras páginas que tanto me incomodaram...

Se, tal como eu, são fãs da autora, considero que a mudança do seu registo no presente título face às demais obras não interfere com a qualidade da mesma. Caso não conheçam o cânone de Camilla Läckberg, eis uma excelente oportunidade com este livro.


segunda-feira, 8 de abril de 2019

Søren Sveistrup - O Homem das Castanhas [Opinião]


Sinopse: AQUI

Opinião: O Homem das Castanhas é o thriller de estreia do argumentista da série The Killing, uma das melhores séries do género que vi e, por este motivo, tinha grandes expectativas com esta obra. Posso desde já dizer que estas foram largamente superadas. 
Diria que este título é uma combinação ardilosa de investigação criminal e drama familiar  com uma pitada de intriga política. 

A história desenrola-se a partir de uma premissa assaz interessante: num espaço de recreio de um colégio, uma jovem é encontrada brutalmente assassinada e perto do corpo está um sinistro boneco feito com castanhas. A trama adensa-se quando são descobertas impressões digitais nas castanhas, pertencentes à filha da primeira-ministra que se encontra desaparecida há 1 ano.

Devo referir que, sendo eu uma entusiasta de romances policiais que não se coíbem no que concerne a pormenores gráficos, fiquei bastante impressionada com a descrição dos crimes, não sendo, portanto, no meu ponto de vista, um livro que me pareça adequado a leitores mais susceptíveis.
Crimes com estes contornos mais sádicos despertam-me um especial interesse, sobretudo nas motivações do serial killer que, juntamente com a sua identidade, constituem o principal mistério da trama.

Naia Thulin é a detective que será responsável pela investigação deste caso juntamente com Mark Hess que foi afastado da Europol. Achei curioso o facto de haver um agente policial que, numa primeira análise, pontuasse na trama sob uma capa de mistério, motivo pelo qual, me fui deixando levar, gradualmente, pela interacção entre os dois. Ao contrário dos demais livros do género, nos quais o protagonismo era detido pelo detective, em O Homem das Castanhas há uma rede de personagens credíveis que se desdobram em múltiplas subtramas e que, directa ou indirectamente, estão ligadas aos crimes. Gostaria igualmente de referir que os temas intrínsecos à sociedade escandinava são tão fascinantes quanto a própria investigação criminal. Esta será uma percepção muito pessoal uma vez que certos aspectos dessa mesma cultura nórdica me despertam um especial interesse. Tocaram-me, em especial, as abordagens à institucionalização da criança e a violência contra as mulheres, algo que me levou a fazer constantemente um exercício de paralelismo com a nossa realidade no decorrer da leitura.

Se os temas, bem como a agilidade dos acontecimentos e consequentes reviravoltas me entusiasmaram, creio que a minha voracidade em ler esta obra também se deve à própria organização da narrativa, em capítulos curtos. Um claro incentivo à leitura rápida e entusiasmante.

Se poucas dúvidas restavam quanto à eleição do meu subgénero de ficção policial favorito, O Homem das Castanhas veio reforçar que são os thrillers oriundos da Escandinávia. Decididamente esta obra é uma das melhores dentro do género de ficção policial nórdica. Ficarei, portanto, a aguardar por mais trabalhos do autor. 

 

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Jo Nesbø - O Sol da Meia - Noite [Opinião]

Sinopse: AQUI

Opinião: Sou fã acérrima de Jo Nesbø e não perco nenhuma obra sua publicada por cá. Como tal, não hesito em declarar que os meus livros favoritos deste autor são os protagonizados por Harry Hole.
O Sol da Meia - Noite, com sensivelmente 200 páginas, é o segundo livro de uma série bastante peculiar, na medida em que os protagonistas são diferentes de livro para livro, embora tenham, como denominador comum, o facto de serem assumidamente criminosos e que procuram, de certa forma, a respectiva redenção.

Apesar de considerar os títulos desta série um pouco subdesenvolvidos, percepção que atribuo ao facto de gostar do autor e me deliciar com as suas longas tramas, devo confessar que gostei da primeira obra desta nova série, Sangue na Neve. Tal ter-se-á devido ao facto da personagem Olav ser munida de um humor negro que me cativou. Porém, o protagonista da presente obra, Jon, já não me seduziu tanto quanto esperava.

O que mais apreciei na obra foi, sem dúvida, o facto da trama ocorrer na região da Lapónia, uma zona que não conheço tanto nem tão pouco é abordada frequentemente na literatura (apenas me recordo do livro de Olivier Truc cuja acção decorre naquele local). Devo dizer que considero a cultura lapã fascinante e agradou-me muito que Nesbø tivesse usado como cenário esta região menos conhecida da Escandinávia.

A trama alicerça-se então no protgonista Jon que procura um refúgio a fim de não detectado por um mafioso conhecido como o Pescador. Não sabemos, numa primeira fase, as razões pelas quais ele se esconde, motivo pelo qual somos remetidos para o grande mistério da narrativa que vemos agudizar à medida que Jon estabelece relações com os locais. Considerei, contudo, estas personagens um pouco estereotipadas, embora ajustadas àquela região cujos costumes são muito diferentes dos de uma grande cidade como Oslo. A meu ver, acaba por ser previsível não só a interacção de Jon com Lea, como a própria evolução da trama.

Como referi, esta nova série, que conta até então com dois livros, centra-se no desenvolvimento dos protagonistas e, de certa forma, a componente de thriller passa para um segundo plano que é, precisamente, a que mais me alicia nas tramas protagonizadas por Harry Hole (para além, evidentemente, da complexidade da própria personagem).

O Sol da Meia - Noite não é das tramas mais complexas do autor, o que francamente me desagradou, no entanto, creio que vale a pena ter este título em consideração, quanto mais não seja para conhecer o exótico cenário da Lapónia ou, para os fãs matarem saudades da escrita daquele que é, para mim, um dos melhores autores nórdicos contemporâneos.


quinta-feira, 28 de março de 2019

C.J. Tudor - Levaram Annie Thorne [Opinião]


Dia 2 de Abril será publicada a segunda obra da autora britânica C.J. Tudor, que se estreou nas lides literárias com O Homem de Giz, para mim, um dos melhores thrillers de 2018.
Antes de tecer as minhas considerações sobre o livro, gostaria de ressalvar o magnífico trabalho de marketing da editora Planeta, que me fez chegar um exemplar de avanço acompanhado de uma boneca, um elemento assaz importante no livro.


Devo dizer que detectei um denominador comum entre as duas obras da autora: a construção de um ambiente sinistro, alicerçado num ambiente que decorre numa cidade pejada de moradores com esqueletos no armário. O protagonista, Joe Thorne, é pois um homem atormentado pelos fantasmas do passado e que se vê agora de regresso à sua terra natal a fim de descobrir o que aconteceu à sua irmã, Annie, há 25 anos atrás. Nessa época a menina desaparecera por dois dias e, uma vez regressada a casa, o seu comportamento mostrara-se completamente diferente como se de outra pessoa se tratasse.

Confesso que a partir da premissa fiquei bastante expectante com o desenrolar da trama, a qual, a meu ver, se desenvolve morosamente. Diria que este é um livro escrito em estilo slow burn uma vez que o início da trama tem um ritmo arrastado, debruçando-se essencialmente na caracterização das personagens já adultas. Confesso que, devido a este facto, senti-me impaciente algumas vezes até ao ponto em que a autora nos transporta para os eventos ocorridos nos anos 90, altura em que nos apercebemos da profundidade da relação fraternal e o quão a mesma fica abalada após o desaparecimento da criança.

Voltei a sentir um certo paralelismo com a escrita de Stephen King. No livro antecessor, O Homem de Giz, atribuí essa percepção aos contornos da história, mais concretamente às interacções do grupo de crianças. Nesta história em particular, apesar da autora se debruçar novamente sobre as dinâmicas estabelecidas em grupos de crianças, senti que toda a trama foi escrita num tom mais sombrio. Creio que atribuo esta minha percepção ao estilo da própria autora. Considerei certas passagens ainda mais gráficas do que as do livro precedente e, pessoalmente, agrada-me que a autora não se tenha coibido de descrever os pormenores macabros para detalhar algumas cenas. Esta mesma percepção intensificou-se nas últimas páginas, altura em que me senti assoberbada, pois devo dizer que não esperava que a resolução do puzzle fosse a que a autora nos apresentou, resolução essa que, dentro das tramas do género, que se alicerçam sobre desaparecimentos de crianças, sem dúvida que acaba por se destacar entre as demais.

Assim, se não fiquei imediatamente rendida logo nas primeiras páginas, a minha impaciência inicial acabou por se reverter, numa fase posterior do livro, num misto de sentimentos que foram desde a ansiedade até ao entusiasmo, passando pela estupefacção com especial ênfase no final. Psicologicamente devastador, Levaram Annie Thorne afigura-se como um thriller que poderá ser confundido com um livro de terror. Este segundo livro de C.J. Tudor traz uma constatação óbvia: esta é uma autora a seguir e irei aguardar, com grande ansiedade, por mais trabalhos seus. 


quinta-feira, 21 de março de 2019

Stephen King - Sr. Mercedes [Opinião]


Sinopse: AQUI

Opinião: Stephen King, que já me deslumbrou com as suas assombrosas histórias, na sua maioria de terror, enveredou pelo género thriller com este Sr. Mercedes, mostrando, desta forma, que é um autor extremamente versátil, como já todos sabemos. Bastará, para tal, atentar em obras tão díspares como The Shining, Os Condenados de Shawshank ou a saga A Torre Negra

Sr. Mercedes é o cartão de visita de uma trilogia protagonizada pelo polícia reformado Bill Hodges e é, a meu ver, um romance policial muito bem conseguido. Confesso pois que fiquei com enormes expectativas para os dois livros seguintes.

A história começa com uma ocorrência aterradora que, inevitavelmente, me fez recordar o atentado terrorista que ocorreu em Berlim em 2016 numa feira de Natal. O mais chocante é que o livro data de 2013, antecedendo, portanto, o atropelamento mortal de doze pessoas na Alemanha atribuído, como decerto se lembrarão, a um simpatizante do auto-proclamado Estado Islâmico. 

A fórmula deste thriller é peculiar na medida em que, contrariamente à maioria dos livros do género, que desvenda a identidade do homicida numa fase final da trama, sabemos, logo numa fase precoce, quem é este homem que, de pronto, é alcunhado de Sr. Mercedes. Ainda assim, a revelação não atenua o interesse na leitura, antes pelo contrário, pois considero que um dos pontos fortes da trama reside precisamente na caracterização do vilão. À medida que esta personagem é esmiuçada, instala-se no leitor um forte sentimento de desconforto em resposta à forma doentia como pensa e age. 

Gera-se um jogo do gato e do rato entre este e o herói, Bill Hodges, a partir do momento em que o antagonista se vangloria do massacre perpetrado com um veículo da marca Mercedes, entrando em contacto electronicamente com o ex-polícia.

Considerei que a história é plena em tensão psicológica; pois parece ponto assente que um homem que se orgulha de ter cometido um atentado é capaz de muito mais. O autor formulou esta personagem de forma exímia; apesar de ter tido uma nítida percepção de como era entrar na mente de um psicopata, não consegui prever os seus passos seguintes, deixando-me um pouco na dúvida as verdadeiras dimensões dos seus actos, parecendo não haver quaisquer limites para a sua perversidade. 
A trama é pautada por alguns episódios desconcertantes que me deixaram sem chão, fazendo com que a obra fosse, para mim, um livro de leitura voraz, viciante e impressionante. O desfecho achei que estava em concordância com o desenvolvimento da trama não perdendo qualquer fulgor. 

Anseio, por isso, que Abril chegue rapidamente para iniciar o segundo livro da trilogia, Perdido e Achado, e reencontrar Bill Hodges com mais um caso que, a avaliar por Sr. Mercedes, será imperdível.
De facto, ainda que se associe o nome Stephen King ao género de terror, o autor propõe-nos um thriller intenso e empolgante que não hesito em recomendar.


quarta-feira, 20 de março de 2019

Shari Lapena - Um Estranho Dentro de Casa [Opinião]


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Opinião: Foi com grande satisfação que tive conhecimento da publicação do livro Um Estranho Dentro de Casa, o segundo título da autora de O Casal do Lado. Afinal de contas, este foi um thriller psicológico que me proporcionou uma leitura bastante aprazível, uma vez que, após a leitura da primeira obra, dei por mim genuinamente expectante com a evolução da escrita de Shari Lapena.

Ainda que as histórias sejam independentes, reconheço um denominador comum entre os dois títulos: a forma como Lapena é capaz de manipular uma situação familiar confortável ao ponto de a tornar um pesadelo, não olvidando, ainda, a forma frenética com que as acções se desenrolaram, envolvendo o leitor na trama desde a primeira até à última página.
Os livros partem de premissas completamente distintas: enquanto O Casal do Lado se debruça sobre o desaparecimento de um bebé, Um Estranho Dentro de Casa, por seu turno, centra-se num inusitado acidente de uma mulher.

Karen, casada com Tom, sai subitamente de casa e tem um acidente de viação numa zona perigosa da cidade. Já no hospital, a protagonista revela não se recordar dos contornos do acidente, começando então a cair um véu de interrogações sobre os motivos que a levaram a despistar-se com o automóvel, bem como a relação desse acidente com o assassinato de um homem cujo corpo é encontrado na mesma zona da cidade onde decorreu o despiste. 

Conforme já referi, considerei o prólogo bastante ágil, pelo que, rapidamente, nos vemos envolvidos na trama. Confesso que, à medida que avançava na leitura, também comecei a tirar as minhas próprias conclusões, tendo dado por mim a considerar suspeito que a mulher saísse de casa daquela forma, deixando todos os seus pertences para trás, sem haver uma clara intenção da fuga.
Apesar deste ser, claramente, o principal mistério da história, esta vai tendo algumas ramificações igualmente intrigantes: estaria Karen verdadeiramente amnésica? Será que a personagem conhecia, efectivamente, a vítima de homicídio? E qual será o papel que a vizinha e amiga Brigid tem nesta história, tendo em conta que esta transpunha regularmente a barreira da privacidade do casal?
Devo dizer que, por esta razão, esta mulher me deixou irada diversas vezes.

Ainda que tenha reconhecido alguns clichés na história, nunca perdi o interesse pela mesma. Gradualmente são desvendados alguns segredos sobre a protagonista à medida que vemos a relação, aparentemente, idílica do casal metamorfosear-se em algo totalmente diferente. 
Além das várias situações em catadupa, a leitura é voraz, a meu ver, devido aos capítulos curtos e instigantes. Contudo, não posso afirmar o mesmo relativamente ao final pois achei-o bastante previsível e no que concerne ao pequeno twist nas últimas páginas, confesso que já o havia equacionado. Por essa razão, infelizmente, posso afirmar que o desfecho não me ludibriou como teria gostado. 

Se tiver que eleger um livro preferido da autora Shari Lapena, a minha preferência recai sobre a obra de estreia, O Casal do Lado (ainda me estão na retina os contornos do rapto daquele bebé). Contudo, Um Estranho Dentro de Casa oferece-nos uma leitura frenética e de puro entretetimento. 


domingo, 17 de março de 2019

Nikola Scott - A Sombra do Passado [Opinião]


Sinopse: AQUI

Opinião: Começo por confessar que A Sombra do Passado não é o meu estilo de livro (como provavelmente terão depreendido), contudo, ao saber que a trama se baseava em segredos do passado, um ingrediente que me desperta sempre a atenção e que alio frequentemente a tramas de mistério e suspense, facto que me levou a não hesitar um segundo que fosse quando fui convidada a ler a obra em apreço, tendo posteriormente, participado num debate sobre a mesma num clube de leitura organizado pela editora Circulo de Leitores.

A acção debruça-se então sobre Addie, uma mulher que vê a sua vida dar uma volta de 180 graus quando uma estranha aparece à sua porta, dizendo-lhe que é sua irmã. Esta revelação faz com que a protagonista se envolva nos meandros do passado da sua mãe e se depare com uma realidade que não conhecia sobre a progenitora.

A narrativa é feita em dois momentos temporais distintos tornando, a meu ver, a história ainda mais cativante: uma subtrama, desenvolvida sob a forma de entradas de um diário que remotam a 1958, permitem-nos conhecer, com bastante clareza, quem era Elizabeth, a mãe de Addie. Essas passagens intercalam com uma segunda subtrama, que se desenrola na actualidade, que se foca na protagonista Addie, bem como na forma como ela e a restante família reagem ao aparecimento de Phoebe a suposta irmã.

A minha percepção leva-me a considerar que esta obra foi escrita com uma enorme sensibilidade, destacando-se as maravilhosas descrições das paisagens dos locais onde a acção decorre, fazendo-nos viajar até aos vários cenários ingleses. Além disso, denotei que a autora escreve, de forma exímia, sobre a intensidade dos sentimentos. É inevitável que nos comovamos com esta história que nos convida a uma reflexão sobre o papel da mulher nos anos 50 e actualmente. Não querendo desvendar em demasia as temáticas abordadas, gostaria de referir que considerei chocante a forma como uma década, não muito distante, tratava a gravidez na adolescência. 

A mulher é, desta forma, o tema central da trama sendo as personagens femininas quem se destaca nesta história. É pois impossível não sentir uma empatia com as mulheres presentes na narrativa.

Apesar de, como já salientei, a presente obra não se enquadrar nos meus géneros literários de eleição, confesso que a mesma consubstanciou uma experiência positiva por me ter desafiado a sair da minha zona de conforto. Para além do mais devo dizer que raramente me deparo com livros escritos de forma tão graciosa, conforme também já referi, algo que considero extremamente positivo quando uma obra me surpreende desta forma. Ainda assim prefiro o género thriller mesmo que contenha uma escrita mais crua.

Em suma, A Sombra do Passado é um livro imprescindível para os fãs de dramas familiares. Para mim, valeu pela experiência de ler uma obra completamente fora da minha zona de conforto, proporcionando-me uma percepção muito diferente daquela que sinto aquando a leitura dos thrillers, um género que tanto adoro.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Stephen King - Doutor Sono [Opinião]


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Opinião: O projecto "Um Ano com Stephen King" prosseguiu em Fevereiro com Doutor Sono, que é geralmente referido como a sequela de The Shining. Devo dizer que, pessoalmente, não concordo com este rótulo, pois a história apenas tem como denominador comum a personagem de Danny Torrance (que entretanto já adulto, é tratado por Dan).
Uma vez que a trama se desenvolve a partir das suas habilidades psíquicas, aludindo apenas esporadicamente aos acontecimentos de The Shining, não creio que seja obrigatória a leitura prévia desta afamada obra, não obstante recomendá-la afim de compreender melhor a essência da personagem de Dan.
A título de curiosidade devo dizer que na presente obra o próprio Stephen King sugere a leitura da verdadeira história da família Torrance, a que ele imaginou e escreveu em The Shining em vez do filme.

A narrativa desenrola-se em três frentes: primeiramente, o autor confronta-nos com o homem que Dan se tornou após uma vida corrompida pelo vício do álcool, tal como acontecera a seu pai, Jack Torrance; posteriormente conhecemos Rose, uma personagem que é levada à força para se juntar a um grupo de nómadas e, por último, somos apresentados a uma criança muito especial, Abra Stone, também ela pertencente ao grupo dos que "brilham" alguém que, portanto, tem capacidades similares às de Dan. Escusado será dizer que os destinos destas três personagens se cruzam ao longo do enredo.

Numa primeira fase do livro, considerei a trama algo morosa, centrando-se na caracterização destas personagens sendo que, devo confessar, fiquei bastante agradada com a profundidade que o autor conferiu às mesmas, especialmente a pequena Abra por quem nutri uma enorme empatia. Desde o seu nascimento, a menina demonstra ter habilidades fora do comum, sendo que me surpreenderam alguns episódios protagonizados por ela, sobretudo tratando-se de uma criança pequena.

Confesso, no entanto, ter sentido algo entediada quando a narrativa se debruçava sobre uma comunidade de errantes, que se autoproclamava como o Verdadeiro Nó. Tal como em romances anteriores do autor, em que é notória a distinção entre o bem e o mal, em Doutor Sono, esta comunidade consubstancia, claramente, o papel de antagonista da trama, apresentando então uma missão muito peculiar: a de sugar o vapor de crianças que, tal como Dan, apresentam as habilidades psíquicas de O Brilho.
Depara-mo-nos, nesse contexto, com uma narrativa com um teor mais fantástico e terror, como o autor já nos habituou. 

Depois da extensa caracterização das personagens, devo afirmar que a trama se torna bem mais ágil e emocionante, sobretudo a partir do momento em que as subtramas se interligam.
Uma vez que o autor investiu na minha empatia pela Abra, temi várias vezes por ela, pois sendo uma criança, creio que poderia estar mais vulnerável a esse intemporal conflito entre o Bem e o Mal.

Considerei que a trama era intrincada e o conceito do Verdadeiro Nó, os sugadores de vapor das crianças com brilho, como se vampiros se tratassem, bastante inovador. De certa forma, era previsível que a trama se encaminhasse para um confronto entre as três personagens: Dan, Abra e os constituintes do grupo nómada.

Doutor Sono afigura-se pois como um livro muitíssimo bem conseguido. Resgatar a personagem Danny de um livro de 1977 parecia-me um enorme desafio que, creio, o autor superou. Apesar de haver algum estigma concernente a uma eventual quebra de qualidade das sequelas face às obras originais, a meu ver, tal não se verificou em Doutor Sono.
Senti igualmente entusiasmo na leitura de The Shining e Doutor Sono. Entre as duas obras, chego a sentir bastante dificuldade em eleger uma favorita.

Mesmo que sejam cépticos relativamente a sequelas, a meu ver, Doutor Sono é pois uma obra que merece ser apreciada.



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

J. L. Butler - Tu És Meu! [Opinião]


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Opinião: O mais recente thriller psicológico da Planeta lança as suas bases no lado mais obsessivo do amor. A protagonista, Francine Day, é advogada e tem entre mãos um complexo caso de divórcio, processo esse que se torna ainda mais desafiante a partir do momento em que ela se envolve com o seu cliente, Martin. Esta situação, no mínimo imoral, tornar-se-á mais intensa quando a ex-mulher de Martin, Donna, desaparece.

Poder-se-ia catalogar este livro como thriller erótico uma vez que o mesmo se alicerça numa paixão tórrida e, por conseguinte, existem várias cenas com conteúdo sexual explícito. Reconheço que, apesar de considerar que, regra geral, os thrillers eróticos são menos desafiantes que os demais, agradam-me obras deste subgénero precisamente por aliarem à componente de mistério, alguns episódios de maior sensualidade e sedução. 

Confesso que a trama não me cativou nos primeiros momentos. Francine Day é uma mulher muito dedicada ao trabalho e, como tal, encontramos explanadas neste título toda uma série de detalhes concernentes ao mundo do Direito, área que, sinceramente, não me desperta grande curiosidade. Compreendo que a autora J. L. Butler, pseudónimo de Tasmina Perry, advogada de profissão, tenha querido conferir uma maior profundidade à protagonista, depreendendo-se desse modo, a utilização exaustiva de terminologia jurídica. 

Ainda que Francine Day possa suscitar um sentimento de admiração pela sua dedicação profissional, a meu ver, essa percepção cai por terra a partir do momento que a mesma se envolve com Martin, uma opção nada ética para uma advogada. E é nestas circunstâncias que se instala alguma incredulidade relativamente a Francine. Martin, a meu ver, também não é convincente no que concerne aos seus sentimentos pela advogada, pois um homem que envia uma mensagem escrita com expressões de teor escatológico em forte calão não está, creio eu, a expressar o seu amor mas sim um sentimento mais próximo da luxúria ou mera atracção física.
Cria-se assim uma espécie de isenção de empatia pelos protagonistas da história. Martin apresenta argumentos pouco credíveis até ao dia em que a ex-mulher desaparece. Nesta altura da história é impossível não desenvolver um paralelismo com outras obras como Gone Girl, A Simple Favor ou mesmo outras narrativas cuja trama assente na seguinte premissa: o desaparecimento de uma mulher com um papel preponderante na narrativa.

Reconheço em Tu És Meu! alguns clichés que funcionam bem no contexto desta nova vaga de thrillers, tais como: o episódio de amnésia aquando o desaparecimento de Donna, os avanços e recuos da investigação policial e a caracterização duvidosa dos protagonistas. Ainda que Francine seja uma advogada de renome, ela é uma personagem não fiável, bem como Martin. 
A haver verdadeiramente uma inovação, creio que a mesma se terá prendido com a abordagem do tema saúde mental, embora sinta que nem mesmo esta condição terá sido credível. Além disso, confesso que me desagradou a interacção de Francine com o vizinho, algo que considerei, no mínimo, constrangedor e que terá tido apenas como propósito avolumar o dramatismo do contexto pelo qual a protagonista passa.

Todavia devo dizer que li a obra com interesse até porque a história é intrigante (estive sempre na expectativa de encontrar uma razão lógica para o desaparecimento de Donna) mas confesso, infelizmente, que não me arrebatou como teria gostado. 
Reflicto sobre as razões pelas quais este livro não teve um grande impacto em mim e creio que estas se prendem essencialmente com a história e a caracterização das personagens que me foram indiferentes.
Gostei, no entanto, do desfecho, tendo-o considerado bem intenso e com uma explicação convincente e surpreendente sobre o caso de Donna Day.

Em suma, é um thriller que recomendo a todos os que apreciem tramas com personagens dúbias e pontuadas por episódios de romances tórridos e relacionamentos obsessivos.