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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Michael Connelly - Lua Vazia [Opinião]


Sinopse: Cassie Black nunca olhou para trás. Afastou-se da sua vida de ladra de jogadores milionários de Las Vegas depois de uma noite de pesadelo em que o homem que amava morreu e a sua vida ficou destruída. Agora trabalha num stand de automóveis a vender Porsches aos novos-ricos de Hollywood. Apesar de tudo foi sempre capaz de seguir em frente, apoiando-se na única coisa boa que lhe restava, o seu maior segredo, mais importante para ele do que a própria vida.

Opinião: Astrologicamente falando, a Lua Vazia corresponde ao momento em que a lua se move de uma casa para outra. Com algumas alusões à astrologia, é certo, mas Lua Vazia é um thriller espectacular. 
Este foi um dos últimos livros que li no ano transacto. Outros se seguiram mas ainda me recordo tão bem da história que me deixou empolgada e resultou numa leitura ávida!
Este é um thriller diferente do que tenho lido. E bom, muito até! Ao ponto de estar republicado, desta feita pela Editorial Presença sob o título de A Sombra da Lua.
Apesar de Michael Connelly ser conhecido pela série de thrillers judiciais protagonizados por Mickey Haller, Lua Vazia é um stand alone, relacionando-se com um grande golpe a um casino. É neste ponto que a história se distancia dos livros que tenho lido: a acção, descrita ao pormenor, debruça-se sobre esta falcatrua levada a cabo por Cassie Black.

Confesso que estava muito céptica ao iniciar a leitura deste livro: a sinopse é algo vaga e achei que a história estaria muito em torno da vida loca tão característica de Las Vegas. Como estava errada! O ambiente da jogatina dos casinos é propício para a história de ambição e vingança que se segue.

É com um flashback que esta começa, sem que percebamos a ligação desta com a história actual. O presente debruça-se sobre um novo golpe por parte de Cassie, uma personagem do tipo anti-herói. Ela já esteve presa por um assalto mal sucedido e que custou a vida do amor da sua vida, Max. Após ter cumprido a sua pena, Cassie é liberta sob condicional e tenta organizar a sua vida. Mas Leo persuade-a numa tentativa de um novo golpe. É preciso bastante coragem, não?
No entanto e na minha opinião, algumas das suas acções não foram coerentes. Não querendo entrar muito em pormenor, para uma ladra tão experiente, houve momentos em que a personagem esteve menos bem. Terão sido nervos? Provações para deixar o leitor ainda mais tenso?

Se este golpe é já algo arriscado, então a tensão intensifica-se quando entra em cena Jack Karch. Uma personagem dúbia, a quem foi pedido para investigar o roubo de um quarto no casino, a mando do gerente. Karch identifica Cassie como a ladra e inicia-se então uma perseguição cerrada. 
Extremamente descritivo, este é um livro que funcionaria na perfeição se houvesse uma adaptação cinematográfica. O nível de pormenorização debruça-se essencialmente sobre a premissa do livro, o golpe que é efectuado no casino. 
É portanto um livro muito tenso, dadas as provações a que Cassie é submetida para ser bem sucedida aliado a uma acção frenética consequente do conflito entre esta e Karch. A trama torna-se mais emocionante quando o leitor finalmente percebe a motivação de Cassie, explicado em grande parte pelo flashback inicial, como se tratasse da peça do puzzle final. 
Ainda bem que a Editorial Presença republicou este livro. Proporcionou-me uma excelente leitura e não duvido que gostareis também.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Richard Zimler - À Procura de Sana [Opinião]


Sinopse: Em Fevereiro de 2000, Richard Zimler foi à Austrália para participar no Encontro de Escritores de Perth. No dia da sua chegada, conheceu uma talentosa bailarina brasileira que lhe contou o muito que o seu romance O Último Cabalista de Lisboa tinha significado para ela. O trágico passo que ela daria no dia seguinte mudou para sempre a vida de Zimler, lançando-o numa intensa investigação de três anos sobre o passado dela.
O escritor descobre então uma infância vivida à sombra do Monte Carmelo na década de 1950, uma época de tolerância entre comunidades vizinhas de árabes e de judeus nos velhos bairros de Haifa. À medida que esta paz se vai fragilizando, duas raparigas - uma palestiniana, outra israelita - tecem entre si laços que as ligam para sempre. A demanda de Zimler desvenda a história desta amizade extraordinária, apesar de o conduzir através de uma teia de ilusão, crueldade e enganos e, finalmente, ao 11 de Setembro de 2001, quando a tragédia que testemunhou em Perth surge à luz do mais extremado contexto político.
À Procura de Sana apaga as fronteiras convencionais entre realidade e ficção, ao analisar a natureza da verdadeira amizade, e o germinar de um crime impensável. Escrito pelo autor de alguns best-sellers sobre a cultura e a história judaicas, é ao mesmo tempo uma emocionante digressão sobre questões que nos afectam a todos.

Opinião: Apesar de ler muitos policiais e Richard Zimler ter obras do género, confesso que nunca li nada do mesmo. Comprei À Procura de Sana, pois já tinha ouvido boas críticas sobre o livro e gostei bastante da sinopse. Abri o 2014 com este livro e finda esta leitura, ficou a curiosidade em enveredar por mais obras do autor.

À procura de Sana é narrado pelo próprio Zimler, que conhece em Perth uma mulher enigmática, Sana. Sem querer desvendar mais do que a sinopse, posso adiantar que esta mulher por quem Zimler sente uma empatia imediata após ela ter desvendado que adorou o livro O Último Cabalista de Lisboa, suicida-se. O autor, perturbado com a situação, dá inicio a uma investigação afim de averiguar as causas deste estranho suicídio.

A premissa da narrativa é algo simples mas origina algo complexo. As pistas sucedem-se sem desvendar algo em concreto, através de inúmeros inquéritos que Zimler faz às personagens. A mais misteriosa é sem dúvida Helena, a amiga de longa data de Sana, que nos faz questionar sobre a veracidade das suas afirmações.
Ao longo dos inúmeros diálogos, Zimler dispersa-se do contexto da investigação para relatar o ambiente hostil entre israelitas e palestinianos. Na minha perspectiva, esta dispersão enriquece muito a narrativa, uma vez que o leitor, conduzido pelas descrições cruas, não consegue ser indiferente a esse choque de culturas.

O facto de o autor surgir como personagem reforça a verosimilhança de toda a narrativa, ficando o leitor sempre na dúvida se o episódio narrado terá sido verídico. Tal facto associado a um pano de fundo factual, leia-se o eterno conflito israelo-palestiniano, torna a história extremamente envolvente, enredando o leitor numa espiral de emoções ao ponto de o mesmo questionar o local de fronteira entre a história factual e a narrativa ficcional. 

Ao longo desde livro são várias as referências à obra O Último Cabalista de Lisboa, também da autoria de Richard Zimler, facto que não será de estranhar uma vez que, como já referido, o autor surge como personagem, sendo notória a presença de alguns excertos auto-biográficos. Independentemente disso, essas várias referências aguçaram-me a curiosidade relativamente à referida obra O Último Cabalista de Lisboa recentemente reeditado pela Porto Editora.

Embora tenha lido esta edição da Gótica, editora que, como sabéis está actualmente extinta, este livro foi reeditado pela Dom Quixote, e na minha opinião, com uma capa bem mais apelativa. Portanto fica feito o convite para ler esta obra, sem se depararem com a dificuldade na sua aquisição.

domingo, 25 de agosto de 2013

Laura Lippman - Só os Mortos Sabem [Opinião]


Sinopse: Trinta anos atrás, duas irmãs desapareceram de um centro comercial. Os seus corpos nunca foram encontrados.
Agora uma mulher manifestamente desorientada, envolvida num acidente de viação em hora de ponta, afirma ser a mais nova das irmãs Bethany há muito tempo desaparecidas. Mas a sua admissão involuntária e subsequente esforço para alienar os investigadores adensam ainda mais o mistério. Onde esteve ela todo este tempo? Porque esperou tanto para reaparecer? Poderá o seu raptor ser um estimado polícia de Baltimore? Não existem quaisquer provas que validem a sua história e cada pista que fornece à polícia parece conduzir a mais um beco sem saída - um moribundo incoerente, uma casa arrasada, uma campa inexistente e uma família há muito desfeita, destroçada não so pelo crime mas também pelas fissuras reveladas pela tragédia num lar aparentemente perfeito. 
Numa história que recua e avança por várias décadas, somente uma pessoa ousa mostrar-se céptica em relação à mulher que pretende reivindicar a identidade de uma das irmãs Bethany sem, no entanto, revelar o destino da outra. Será ela capaz de descobrir a verdade?

Opinião: Sempre que leio um livro da colecção Nocturnos da Gótica, fico revoltada com o facto da editora não existir actualmente. Por norma, os livro da colecção são policiais bastante bons e este não foi excepção.

Embora tenha que confessar que Só os Mortos Sabem não foi um livro que me arrebatasse por completo, reconheço que é uma boa história. A altura em que o li não foi a mais conveniente: o trabalho era muito e mal me conseguia concentrar na leitura devido ao cansaço. Atribuo a este factor, o não ter apreciado tanto este livro como queria, por isso este será um livro a reler, daqui a uns tempos.

O que cativa no livro, logo nas primeiras páginas, é a forma como a mulher envolvida no acidente de carro assume ser uma das irmãs Bethany, uma revelação bizarra uma vez que Sunny e Heather Bethany estão desaparecidas à vinte e cinco anos. A mulher sabe muito acerca de Heather, o que corrobora as suas declarações sobre a sua identidade. No entanto, e simultâneamente, há algo que faz com que o leitor desconfie desta personagem.

Só os Mortos Sabem começa assim na actualidade, aquando o acidente, e retrocede aos anos 70, acompanhando um pouco da rotina das meninas e a sua dinâmica familiar, relatando o pré e pós desaparecimento de Heather e Sunny. A autora recorre a contínuos flashbacks, numa estrutura que resulta muito bem particularmente neste caso, uma vez que Lippman dispensa as informações com alguma moderação, mantendo constante o nível de suspense. Fiquei bastante intrigada durante toda a trama pois apesar da consistência das alegações de Heather, conjugando com os factos que passaram na sua infância, algo não estava certo.
A estrutura acaba por fugir ao convencional, uma vez que não se cinge a um narrador, sendo contada a partir de múltiplos pontos de vista que alternam entre a mulher misteriosa, os pais das irmãs, a assistente social Kay e o polícia Infante. Desta forma, o leitor percepciona diferentes considerações das demais personagens, ponto importante para acentuar o efeito de mistério.

Daí que a protagonista, a suposta ou verdadeira Heather, mantém uma certa empatia quase proporcional à desconfiança para com o leitor. Denote-se que as personagens estão, em geral, bem conseguidas, com particular destaque para Miriam e Dave, os pais, que conseguiram transmitir a dor da perda das filhas à medida que os vários segredos que assombram a sua relação vão sendo progressivamente revelados, mostrando todo uma rede de complexidades que poderá existir num casamento. E sob este prisma, são várias as reviravoltas que acabam por ser tão surpreendentes quanto a explicação do motivo de desaparecimento das irmãs.

A história é de facto interessante mas houve aspectos que gostaria de ter visto mais aprofundados. Certos pormenores, os quais não vou citar para não desvendar pitada da história, não me convenceram por completo.

Intrigante e comovente, Só os Mortos Sabem é um livro que, estando actualmente esgotado vale a pena o esforço para se encontrar!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sophie Hannah - Intimidade Perigosa [Opinião]

Intimidade Perigosa é o segundo livro publicado em português da britânica Sophie Hannah. Sucede a O Pesadelo de Alice, que tive oportunidade de ler à uns anos (ainda o blog não existia), tendo sido uma leitura até bastante agradável no que concerne ao género de thriller psicológico.

Intimidade Perigosa é a história de Naomi Jenkins. Ela tem como actividade profissional, a criação de relógios de sol mas no campo pessoal é menos sucedida. Afinal de contas, Naomi tem um amante, Robert Haworth, um homem casado que se encontra com ela apenas às quintas feiras, três horas.
Uma certa quinta feira, Robert não aparece e Naomi fica apoquentada, recorrendo à polícia, dizendo que algo de mal aconteceu ao amante. Afinal de contas, na pior das hipóteses, este terá sido morto... pela própria mulher.

Este é um típico pesado thriller psicológico, onde é debatido uma temática difícil de digerir: a violação. E se por si, a violação já é algo traumático, a autora intensifica o acontecimento com pormenores macabros quase como a tão conhecida cena do filme Eyes Wide Shut, focando-se em violações em grupo, homens com mascarilha, cenários incomuns. E como dar um toque ainda mais dramático? Através da dupla narração do livro, em que há um narrador directamente participante, a própria da Naomi, em contraponto com um narrador na terceira pessoa.
Mas Intimidade Perigosa vai além disso. É uma verdadeira reflexão sobre as várias relações humanas e a dissecação da complexidade das mesmas.

Particularmente gostei da história mas a autora prende-se com pormenores que pouco adiantam ao enredo, explicando as extensas 400 e poucas páginas do romance psicológico. Salvam-se as constantes reviravoltas e a brilhante caracterização das personagens, embora claramente Naomi não tenha um perfil de quem tenha sido violada. É demasiado forte e resiliente face ao meio que se encontra, o que se torna invulgar. 
Logo por aí desconfio. Aliás, não seja este um thriller psicológico, onde cada segredo é dissecado com algumas revelações surpreendentes à mistura num timing adequado. 

Devo confessar que o primeiro contacto que tive com este livro não foi o melhor. Achei o início do livro demasiado parado e só após algumas recomendações é que voltei a insistir no mesmo.
Embora tenha achado que o livro tem muitos momentos mortos, não desgostei da história de todo. É uma história com potencial e tem todos os ingredientes necessários para que o leitor se deixe levar, nomeadamente mistério e revelações surpreendentes. E claro, a carga emocional das personagens. Afinal de contas, estamos assombrados com algumas dúvidas: estará Naomi a mentir? O que terá de facto acontecido a Robert? E porque Juliet, a esposa de Robert, conhece tão bem Naomi se ninguém sabia do caso? E todas as pontas soltas são explicadas num desfecho lógico. Sim, lógico. Não diria surpreendente pois à medida que a narrativa toma forma, é quase expectável o que acontece nas páginas finais do livro.

Por ter lido o romance anterior da autora à uns tempos, também não me recordo exactamente se tem algum fio condutor, nomeadamente nas personagens das entidades policiais. No Goodreads, Intimidade Perigosa é catalogado como o segundo da saga Spilling CID, o que remete para a grande probabilidade de haver um encadeamento (pelo menos das personagens).
É certo que a autora elabora um grande perfil, com grande foco em Charlie Zalier. Esta mostra uma preocupação desmesurada com Olivia, a sua irmã, sentimento que terá quase certamente explicação em O Pesadelo de Alice.
Ainda assim, as histórias são perfeitamente independentes, podendo-se ler Intimidade Perigosa sem se ter lido previamente O Pesadelo de Alice.

Para me certificar se gosto realmente da autora precisaria possivelmente de ler um terceiro livro da autora, o que infelizmente, penso que não será possível, pelo menos a curto prazo. É que Sophie Hannah é mais uma das publicadas pela extinta GÓTICA e até à data desconheço se as actuais editoras apostarão na autora.
Apesar de não me ter enchido as medidas por completo, Intimidade Perigosa é um livro interessante que recomendo aos fãs do género.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Yrsa Sigurðardóttir - Ladrão de Almas [Opinião]


Este é o segundo livro da islandesa Yrsa Sigurdardóttir, que muito aguardava a sua vez na estante, depois da leitura de O Último Ritual, como podem ver aqui. Pessoalmente, achei que este Ladrão de Almas está melhor conseguido do que o 1º livro e passo desde já a explicar porquê.

A narrativa ocorre em 2006, embora a introdução recue ao ano de 1945, relatando um estranho e soturno incidente a uma menina, que será a força motriz de toda a acção. Terminada esta cena perturbadora, a narrativa imediatamente salta para o ano de 2006 e Póra é contratada por Jonas Júlíusson, numa avaliação de um terreno onde se localiza uma estância de spa/new age supostamente assombrada. A protagonista não acredita em fantasmas, mas Jonas convence-a levar o seu caso avante, e oferece uma estadia grátis no hotel.
No meio de tal cenário paradisíaco, onde a terapia sexual, a leitura da aura e massagens imperam, ocorre um homicídio brutal. Após a macabra morte de Birna, a arquitecta responsável pela estância, a investigação do crime é levada a cabo por Póra e Matthew e irá conduzi-los a uma realidade completamente devastadora! Mas é preciso resolver os mistérios do passado para desvendar os crimes do presente...

Neste livro contamos com alguns personagens em comum com o Último Ritual, nomeadamente a advogada e mãe solteira Póra (e os seus dois filhos, com uma participação secundária) e o ex-policia alemão Matthew. Voltei a sentir uma enorme empatia com estes dois e a torcer para que a relação deles seja frutífera! Gostei daquele pequeno choque cultural (Matthew não percebe patavina de islandês!), considerei um toque bastante discreto de humor.
Já a relação familiar de Póra com os filhos e ex-marido é deixada um pouco mais à margem, comparando com o Último Ritual, para que o leitor se foque essencialmente na resolução do crime e nas interligações dos acontecimentos. No entanto é interessante acompanhar a evolução da situação do filho mais velho de Póra, Gylfi, cujo desfecho será conhecido no capítulo final do livro.

À semelhança do livro anterior da autora, Póra volta a demonstrar que tem todas as qualidades de uma investigadora. Ela é "desenrascada" e curiosa, mas ainda mostra alguns sinais de inexperiência, facilmente expectável dado que Póra não pertence a nenhuma força policial. No entanto estas vulnerabilidades são complementadas por Matthew, mais habituado a estas andanças. Juntos, fazem uma dupla sensacional: ela tem o dom da perspicácia e ele, o da experiência.

Não quero estabelecer comparações mas achei que a autora opta por aplicar uma fórmula já usada em livros da Camilla Lackberg: a referência de um acontecimento passado que implicitamente, pode ser explicativa de toda uma conjuntura actual.
Sigurdardóttir estabelece assim uma trama, extremamente bem arquitectada, onde liga de uma forma inteligente, os acontecimentos ocorridos em 1945 com o que se passou em 2006. É sobre este facto que reside a maior diferença (e a progressão da autora a nível de enredo) entre o Último Ritual e o Ladrão de Almas: o primeiro livro segue uma trama mais linear, enquanto que o último livro a narrativa é mais complexa, conduzindo o leitor a momentos mais longos de reflexão.

A autora consegue criar um naipe de pontas soltas, que se mantêm em suspense até ao desfecho. Afinal quem será Kirstín? O que aconteceu a Birna antes de morrer? Porquê a presença de artigos eróticos junto ao cadáver? Quem matou afinal a arquitecta e quem é responsável pela segunda morte? O que tem de importante a menção ao nazismo e a presença de suásticas? O local estará mesmo assombrado?

A inclusão de elementos sobrenaturais na narrativa pode dispersar o leitor da verdadeira natureza do livro. Afinal que significam as aparições de uma menina num espelho ou os choros de bebé que se difundem através do denso nevoeiro, num livro dito policial?

Gostei principalmente da maneira como as várias linhas de acção da trama se reuniram um final elegante e bastante imprevisível. Estava longe de imaginar esta dita ligação bem como a identidade do assassino.

Uma leitura fluída pautada em momentos de verdadeiro suspense, outros de cariz perturbador e arrepiante mas com a inclusão de alguns momentos descontraídos é o que este livro promete! É também uma incursão à Islândia moderna, com uma pitada de factos históricos...
Este livro está publicado pela GÓTICA, a editora que infelizmente se dissolveu, fazendo com que a colecção NOCTURNOS se tornasse quase como uma espécie em extinção no reino da literatura. Findada esta leitura, ficou a enorme vontade de ler Cinzas e Poeira, o terceiro livro da autora, editado pela Quetzal Editores.


sexta-feira, 6 de maio de 2011

Yrsa Sigurðardóttir - O Último Ritual [Opinião]

Mais uma vez ingresso no fantástico mundo dos policiais nórdicos, desta feita, escolhendo um livro de autora islandesa. E a Yrsa é minha colega de formação pois é engenheira!!! Não poderia estar mais contente com esta opção para leitura!

Gostei da escrita da autora. Bastante fluída, não se prende exaustivamente a descrições, cingindo-se apenas à narrativa. Talvez este pormenor tenha sido responsável por não me sentir num ambiente rodeado por neve (como me senti quando li Stieg Larsson, Asa Larsson, Karin Fossum...). No entanto há uma exposição lógica e ordenada de ideias, que resulta num elo com o leitor, que anseia por ler mais.

Póra Gudmundsdóttir (e como sugerido numa nota de rodapé, lê-se Zóura, uma vez que no alfabeto islandês há uma particularidade com a letra P) é a protagonista da história. Tem 36 anos, é advogada, divorciada, mãe de dois filhos e interessa-se pela resolução do caso de homicídio de Harald Guntlieb, um jovem alemão que se encontrava na Islândia a fazer a sua tese de mestrado.

Não poderia ter escolhido ler este livro em melhor altura, visto que, como alguns de vós sabeis, estou na fase dos últimos pormenores da entrega da minha dissertação e consegui entender o que Harald sentiu nos seus últimos dias de vida, sobre a escolha do orientador, a investigação do tema...etc (foi realmente uma grande coincidência!)

Ora o livro gira em torno da investigação do crime, estruturado desde o dia 6 até 13 de Dezembro. Descobrem-se alguns pormenores algo surpreendentes em relação a Harald e relativamente ao próprio crime. Não conhecia o famigerado Malleus Maleficarum, extremamente bem retratado neste livro. Para quem desconhece, este é um manual sobre caça às bruxas, datado de 1487 e originário da Alemanha. Penso que foi interessante e trouxe algo de novo, a introdução deste tema no livro. Também são relatadas algumas conjurações sobre as bruxas, que achei interessante e até parecidas com algumas descrições no nosso livro de S. Cipriano. Algumas descrições mais gore sobre torturas e castigos ritualistas compõem o ramalhete.

Uma das vantagens em ler um livro nórdico, como venho a realçar a cada leitura que faço, é o estabelecimento de um paralelismo entre a cultura escandinava e a mediterrânica. Vim a conhecer com esta leitura, aspectos muito curiosos como por exemplo, a idade em que se atinge a maioridade na Islândia além de outros apontamentos interessantes referentes a uma cultura tão diferente da nossa.

Gostei das personagens. O pior, como em qualquer livro escandinavo, são os nomes das personagens e dos locais. Mas achei curioso em como muitos deles terminam da mesma forma: -dóttir, o patronímico referente ao género feminino. Outro facto curioso: Gunnar ser um nome masculino e Gunnur ser feminino, por exemplo.

Póra é sensacional, além de uma boa mãe, dedicada aos seus filhos, é também bastante profissional na forma de lidar com a resolução do caso. Talvez um pouco "naif" em relações interpessoais. Também existe alguma empatia com Matthew, o advogado alemão, mas penso que este deixa o leitor mais de pé atrás. Ainda assim achei que fizeram uma boa dupla, tiveram cenas que resultaram muitíssimo bem. Adorei as cenas hilariantes protagonizadas por Bela, a rapariga "destrambelhada" que trabalha no escritório de Póra.

Em relação ao desfecho surpreenderam-me dois aspectos: em primeiro o assassino, que sempre esteve um pouco à margem, acabou por ser imprevisível. Mas mais do que o antagonista, foi a explicação do crime, que esteve sempre encoberto por um véu de aspectos simbólicos e ritualistas.

Recomendo a quem se interesse pela temática, aos curiosos do livro de S. Cipriano e até aos mais cépticos, o livro constitui um bom momento de leitura.


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Nick Stone - Mr. Clarinet [Opinião]

Um verdadeiro achado na Feira de Alfarrabistas! Depois de me terem falado tão bem deste livro, comecei a procura-lo (e desde já chamo a atenção de livros da Difel/GOTICA, estarem em vias de extinção), encontrei e passei-o imediatamente para leitura seguinte.

Max Mingus, ex-polícia, foi recentemente libertado da prisão depois de cumprir 8 anos por homicídio. Incapaz de voltar a trabalhar como polícia em Miami, Max é persuadido a investigar o caso do desaparecimento de Charlie Carver, filho de uma das famílias mais ricas no Haiti e desaparecido à alguns anos. Mas em Haiti há uma lenda...a de Mr. Clarinet, o monstro que toca clarinete e hipnotiza crianças, raptando-as em seguida...

Um arranque lento marca o início desta história. Há todo um enquadramento em torno da vida de Max, antes e durante a prisão, a sua vida sentimental com Sandra e acima de tudo, o dilema em aceitar a missão e as consequências que isso poderá acarretar.

Assim que o cenário alterna de Miami para o Haiti, conseguimos "viajar" até lá e sentir a corrupção, a pobreza , os costumes ritualistas em vudu dos habitantes. e um descontentamento geral com a política de Bill Clinton (sim, aqui ainda não existe Barack Obama :))

Com cenas chocantes é certo, na medida certa, uma vez que considero que o autor peca pelo excesso de descrição. Denotam-se cenas de teor mais gráfico nos rituais de vudu e em torturas violentas aplicadas aos estrangeiros. No entanto penso que consegue manter o nível de suspense constante em todo o livro, havendo cenas em que o nível de adrenalina do autor dispara consideravelmente!
Por isso o livro teve um misto de sensações em mim, de curiosidade, de entusiasmo e às vezes de tédio...:(
No entanto devo dizer que as últimas 200 páginas se lêem a um ritmo vertiginoso, a acção começa a desenvolver-se e começam a surgir os contornos da resolução do mistério de Charlie.

O que me chocou foram as condições da ilha, a extrema pobreza e as condições em que vivem os habitantes, dá que pensar... E a ditadura de Papa Doc, ainda aprendi uns factos sobre o governo baseado no terror dos tontons macoutes (os nossos bichos-papões).

O que dizer em relação às personagens? Gostei acima de tudo do protagonista, Max Mingus. Verdadeiro, não escondeu o facto de ser presidiário, nem nunca se vitimou por causa disso. Corajoso, foi determinado até ao final em descobrir o que aconteceu à criança.

De forma geral, gostei do resto das personagens, desde os habitantes da ilha, um pouco mais submissas, como o típico pensar condicionado pelos costumes e vulneráveis a qualquer tipo de abusos até Vincent Paul, o barão da droga que procura incansavelmente uma forma de se vingar.

É uma leitura interessante e didáctica é certo, mas fica um pouco aquém de um bom thriller, como os que já foram editados através da colecção Nocturnos da GOTICA.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sebastian Fitzek - Sequestro em Directo


Num registo bastante diferente do "Terapia de Choque", o autor volta a surpreender com a sua mestria de contar histórias de verdadeiro suspense.

Pois este livro eu não li...devorei! Li-o apenas em dois dias e achei-o muitíssimo bom!

Então este livro tem um prólogo bastante interessante: Um senhor chamado Jan recebe uma chamada telefónica muito misteriosa da sua cara metade. E momentos após a chamada, a polícia vai a sua casa dizer que ela está morta! Estranho não?
Em seguida é abordado o estúdio de rádio, com as suas demais personagens e eis que ocorre um sequestro!

Assim, é chamada a psicóloga Ira ao local, para mediar o sequestro. Mas também Ira é uma personagem conturbada. Será que ela consegue impedir as mortes que estavam planeadas?

A partir daí a acção desenrola-se como um puro thriller, logo desde o início bastante intrigante até ao fim. Com o decorrer do enredo são desvendadas as motivações do sequestro e a cada página que passa entramos num plot, onde nada é o que parece.

À semelhança do livro anterior, o autor apresenta as personagens, de modo a sentir uma empatia com as mesmas. O leitor não fica indiferente à psicóloga Ira, que no inicio do livro estava prestes a suicidar-se, nem ao sequestrador Jan, sentindo revolta e pena destas personagens.

Gostei das várias referências sobre Coca Cola Light Limão...nunca li um livro com tanta publicidade a uma bebida :P Adorei a forma como o sequestrador jogava Cash Call com os cidadãos de Berlim. Muito emocionantes os momentos da ligação telefónica e o desfecho dos mesmos!

O desenlace final está fantástico e responde, de forma inteligente e de certo modo surpreendente, aos mistérios que foram surgindo ao longo do livro (nem digo quais para evitar spoilers :P). Recomendo!


domingo, 28 de novembro de 2010

Peter James - As Pegadas do Morto


O que têm a ver estas situações? O 11 de Setembro, uma mulher que vive em fuga, atormentada pelo seu passado e um cadáver descoberto num esgoto de águas pluviais. Pois, em princípio nada relaciona estas factos, mas este brilhante autor conseguiu desenvolver um plot inteligentíssimo que interliga estas acções!

A quarta história protagonizada pelo detective Roy Grace, ainda amargurado pelo desaparecimento da sua mulher Sandy, encontra-se presenteada com grande mistério, acção e complexidade que prende o leitor até à última página.

A fórmula dos capítulos pequenos, dedicados a cada personagem e deixados em aberto torna a acção bastante fluída, quase como uma novela, onde somos testemunhas dos acontecimentos das personagens em simultâneo.
Apenas um senão! Estas acções também têm acções temporais diferentes, o que pode confundir de início mas com o decorrer do livro, são desvendados os elos entre as personagens e o porquê deste mistério. Este é talvez o ponto fraco a apontar, é um livro onde o leitor não se consegue "infiltrar" imediatamente na acção, pelas razões anteriormente apontadas.

Como pontos fortes aponto desde já a personagem Roy Grace, que já me tinha cativado desde o livro "Despedida de Solteiro". Qualquer leitor sente uma empatia com o detective e com a sua história de vida.

Também quero referir o realismo do cenário construído para o acontecimento do 11 de Setembro. O livro transporta-nos para lá, tendo o leitor uma sensação de terror e angústia sentida por milhares de americanos nessa data.

Embora aquém do melhor livro deste autor, que na minha opinião é "Morte à Primeira Vista", adorei o desenlace de "As Pegadas do Morto"! É desvendado um elemento que remete para a continuação da saga de Roy Grace. Fico a aguardar o próximo livro de Peter James!


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O Canto das Sereias - Val McDermid


Terminei de ler este livro fantástico ontem. Tinha tanto tanto sono mas a curiosidade foi mais forte!
Eu já tinha lido 2 livros desta autora (Um Eco Distante e Assassino de Sombras), mas sem sombra de dúvidas este é o melhor, tanto que ganhou, em 2002, um prémio para melhor policial do ano.

Visto não ter encontrado opiniões na internet aqui registo o meu ponto de vista sobre o livro, para os demais curiosos na escrita de ValMcDermid.

No início da acção, o plot é de incerteza e medo uma vez que foram encontrados 4 cadáveres mutilados, e pela natureza da violência, as vítimas seriam homossexuais. Entram então em cena Carol Jordan e o psicólogo clínico Tony Hill. Ambas as personagens têm fantasmas do passado e o leitor rapidamente cria uma empatia com as mesmas. Em particular Tony Hill tem uma série de problemas sexuais, o que, encarar crimes com cariz sexual, deixa o leitor com a seguinte dúvida: estará ele à altura para investigar estes crimes?

Os primeiros capítulos são na minha opinião, um pouco parados, tanto que pousei o livro e só peguei nele mais tarde (facto que pode ser explicado também com o interesse de ler o Assassino do Laser).

Mas assim que peguei no livro, a acção começou a desenrolar-se de uma forma intrigante, não só para saber quem seriam o assassino ou outras vítimas seguintes mas também para ler os conteúdos das disquetes com os registos escritos do psicopata.

Aqui devo apontar duas coisas: primeiro a maneira como a autora se põe na pele de um assassino e que está brilhante! Conseguimos perceber os motivos que levam um serial killer a comportar-se desta forma. Também devo alertar aqui para o elevado teor de violência descritos no processo de tortura das vítimas, estes requintes de malvadez vão além do pior que possam ter lido.

O culminar da acção para mim foi uma surpresa...Li duas vezes aquele twist! Nem podia acreditar no que estava a ler. é brilhante a maneira como o livro termina e o deslindar do assassino!

Aconselho vivamente e estou curiosíssima em ler a sequela : Compulsão.