quarta-feira, 29 de junho de 2022

Tarryn Fisher - Três Mulheres [Opinião]

 

Sou assumidamente fã de Margo, a protagonista do primeiro livro publicado em Portugal por Tarryn Fisher, razão que explica o meu entusiasmo inicial assim que vi que iria ser editada esta obra no nosso país. Não tardou muito para que as minhas expectativas fossem defraudadas. 

O mote da história é uma relação polígama que poderia dar azo às maiores narrativas de thriller, não obstante considerar que a opção de história sugerida por Fisher não foi a mais inteligente. Note-se que é uma perspectiva altamente pessoal. Creio que há inúmeros fãs da obra mas sinto-me compelida a dar a minha opinião mais sincera quanto possível.

Thursday é casada com Seth que tem outras duas esposas: Monday e Tuesday. Ela sabe muito pouco sobre estas mas um dia, ao descobrir um papel, sente-se impelida a conhecer as outras duas mulheres mais em detalhe. E tudo parte daqui: da curiosidade desta esposa em saber mais sobre as outras duas. Uma mulher que, até então, até era bastante passiva neste assunto, aceitando a condição em que vivia e tentando ser a melhor no dia que lhe era destinado estar com o marido. Nos outros dias da semana ora o marido estava com as outras mulheres ora estava em viagem. Basicamente parece-me que a protagonista estava feliz com uma relação a part-time (ou melhor a 1/7 do tempo) e não vou tecer considerações sobre isto, são altamente pessoais. Contudo esta personagem esforçava-se por ser a melhor esposa a nível sexual (estou a revirar os olhos enquanto penso nisto porque nem sequer acredito que bom sexo unicamente seja sinónimo de um casamento pleno e feliz). Mas vá, sou open minded e aceito as mais variadas suposições que a autora me apresenta.

Apesar da narrativa apresentar um ritmo bastante viciante - senti-me extremamente curiosa sobre o desenrolar da história e a obra até se lê muito bem em pouco tempo - no meu íntimo já considerava tonta a premissa pelo que o desenrolar acaba por ser um sucedâneo de situações também estas pouco néscias. Até que, sensivelmente a meio do livro, a autora nos presenteia com um twist. Uma reviravolta pouco verosímil, diria eu, porque quem abraça esta leitura e é como eu que desata a lançar teorias, esta é uma delas. Até percebo que a autora queira investir no plano de thriller psicológico, mas infelizmente acho que este volte-face não foi completamente satisfatório/convincente.

A partir daqui continua a saga da Thursday a consolidar informações sobre as outras mulheres - às páginas tantas esta personagem pareceu-me mesmo uma bola de ping pong, desorientada que está aqui e acolá e torna-se tudo tão inepto que senti que acabara de ler qualquer coisa menos um thriller, ainda para mais da autora do Margo. Note-se que tive sempre esta obra na retina, um livro negro, pesado que me fez sentir desconfortável no decorrer da leitura - creio que as maiores sensações que o género nos traz - mas o presente título... não sei. Nada me convenceu: nem as personagens - até sinto um fascínio por personagens não confáveis mas estas, honestamente, primam pelas mais duvidosas acções e formas de pensar - nem a própria trama que poderia ter dado um thriller de excelência. No seu cômputo, é um livro que fica muito aquém. Estava, sinceramente, com grandes expectativas de encontrar uma história que me tirasse o chão. E infelizmente, isso não aconteceu.

Por aqui alguém já leu? Gostaram? Fico apreensiva por me ter escapado a magia deste livro mas isto é sempre assim. Partilhem comigo nos comentários as vossas opiniões.

terça-feira, 28 de junho de 2022

Horror novellas em inglês

A minha busca incessante por literatura que seja, realmente, perturbadora e que me deixe estupefacta, conduziu-me a algumas obras e escolhi ler duas. São novellas, o que são mais curtas e merecem ser mencionadas por aqui: 

Things Have Gotten Worse Since We Last Spoke tem uma capa fascinante (foi o que captou a minha atenção de imediato). Soube também que este livro foi sensação na rede social TikTok e fiquei mesmo muito curiosa com o mesmo. Não querendo entregar muito sobre a história, esta é sobre duas mulheres que se encontram num chat e desenvolvem uma relação que vai assumindo contornos sombrios e obsessivos. Este tipo de tramas, alicerçadas sobre relacionamentos disfuncionais, interessam-me muito apesar de, regra geral, não ser a maior entusiasta do estilo epistolar, forma como a história se desenrola. Como foi um livro lido em inglês, estranhamente a narrativa em forma de entradas de um chat ou variados e-mails trocados pelas protagonistas, tornou-se mais dinâmica e, juntando ao reduzido número de páginas, fez com que tivesse lido esta obra em cerca de 24 horas. 
Considero que o autor conduziu esta trama de forma intrigante: nas páginas iniciais menciona que o leitor irá ler informações da polícia que está a investigar a morte de uma das personagens. OK, parece-me que estamos perante um spoiler logo no início, porém, este warning torna a narrativa muito viciante e quase como apanha o leitor para, ele próprio, participar nesta investigação policial. A relação entre as duas personagens tornou-se muito intensa em poucas páginas, parecendo-me a mim, que Eric LaRocca se quis precipitar para "aquecer" os acontecimentos - o que também compreendo se tiver em atenção que estamos perante uma novella. Muito honestamente há ali uma ou outra situação que considero tola como um contrato semelhante ao que Anastacia Steele assinou em firmar a relação com o afamado sr. Grey. À medida que a história se encaminha para o final, a situação começa a ser desconfortável. E sim, incomodou-me a última provação apesar do autor desvendar imediatamente qual seria o desfecho de uma personagem. Se é um bom conto de terror? Sem dúvida, mas indicado àqueles que apreciam um bom body horror. Contudo, esta história carecia de menor cadência. Creio que daria um melhor livro do que é em conto. Agora que penso nisto, não sei se gostei da obra mas o certo é que não me sai da retina.
 
Num registo completamente diferente, Comfort Me With Apples estava também em listas de novellas de terror. Contudo, para mim, não é uma obra que satisfaça em pleno os fãs do género. Atentei muito no título quando iniciei a leitura e as primeiras alusões ao local onde ocorre a narrativa, Arcadia, tiraram-me as dúvidas para o que aí viria. Portanto não tive qualquer factor surpresa: o afamado twist está já no título do conto. Não há qualquer dúvida que o estilo de escrita deste seja mais elaborada, parecendo que estamos perante um conto de fadas, porém, não me cativou. Não creio que estivesse perto de um thriller ou um terror. Temos a personagem principal, Sophia, que vive num sítio lindíssimo e paradisíaco. É casada e tem como mantra dizer a si mesma que foi feita para o seu marido e que é muito feliz. O local onde habita é muito à Stepford Wives e poderia mesmo ter potencial mas, lá está, creio que a autora quis, acima de tudo, recontar um episódio bíblico. A meu ver, acresce uma dificuldade em colocar elementos de terror que sejam convincentes e que seja sinónimo de algo verdadeiramente assustador. Apesar de ter gostado imenso da escrita da autora, esta história, lamentavelmente, não me cativou.
 

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Catriona Ward - A Última Casa em Needless Street [Opinião]

Sinopse: AQUI

Opinião: Escrever sobre este livro sem revelar nada sobre o que nele encerra é uma tarefa deveras difícil. Ainda assim, aceito o desafio. Afinal de contas, estamos perante um livro único e que oferece uma experiência de leitura bastante peculiar.

Antes de mais, gostaria de endereçar um agradecimento à Porto Editora por me ter enviado a obra - ainda que esteja num período de maior inactividade aqui no blogue - com uma jacket personalizada. A campanha de marketing em apreço suscitou-me curiosidade de imediato contudo, lamentavelmente, não tive grande disponibilidade em iniciar a leitura mais cedo.

Pode ser uma imagem de livro 

Terminei ontem de madrugada esta história que tem tanto de perturbadora como original. Sou honesta: não foi a primeira vez que me deparei com uma trama deste género na literatura pois esta encontra-se na linha de um livro que nunca foi publicado por cá, embora tenha ouvido o audiobook - I´m thinking of ending things - e, após a revelação final, recordei-me imediatamente de dois filmes (os leitores que sentirem curiosidade poderão enviar-me mensagem que informar-vos-ei sobre os mesmos).

Deverei continuar a ser sincera convosco: esta é uma obra que devem ler sem saber nada sobre a mesma - bem, isto provavelmente quererá dizer que apenas os leitores que já terão lido o livro irão, à partida, ler a minha opinião. Por ter esta percepção, também não vos quero entregar muito sobre a história que é narrada sob quatro vozes, sendo que, para mim, a mais fascinante foi a de Olivia. Creio que esta minha sensação dever-se-à ao facto desta personagem ser um gato o que torna bastante incomum ter a perspectiva de um animal doméstico num thriller. Associamos os animais de estimação a sensações de conforto e carinho, sentimentos bastante antagónicos àqueles que este género deve despertar. Por isso, também os estranhos testemunhos de Olivia me deixaram, de certa forma, algo inquieta, sensação que se intensificou aquando lia os pontos de vista de Ted. Não vou mentir: esta personagem, aparentemente oligofrénica, também me deixou bastante intrigada. É na perspectiva da figura masculina que a história ganha mais corpo e, curiosamente, estive sempre a oscilar se esta personagem seria confiável ou não, o que conduziu a ter sentimentos ambíguos por ele na grande maioria do tempo de leitura. Há aqui um ponto bastante curioso, não sei se terei sido a única a percepcionar: considerei a primeira revelação algo previsível tendo ficado um pouco decepcionada. Perguntei-me se a restante obra iria gravitar sobre aquele twist. Em caso afirmativo, seria uma enorme pena. Contudo, à medida que me embrenhei na leitura, fui sendo apanhada numa teia de surpresas. Lá está, eu não pesquisei nada sobre a obra e conhecia apenas a sinopse por isso a minha noção sobre esta era muito limitada e consegui ter mais prazer com a leitura em apreço.

Este é um livro estranho. Ainda que esteja numa fase de parcas leituras, não o caracterizaria como um page turner - carece das características do mesmo. É uma obra exigente que convida a uma leitura mais pausada, mais atenta aos pormenores. A forma como está estruturado assim o exige: subtramas narradas no presente ainda que possam ter ocorrido no passado e episódios algo excêntricos que nos obrigam a reflectir sobre o que acabámos de ler. Ainda assim, é um livro que é muito difícil de pousar e interromper a leitura sem que fiquemos a cogitar sobre a mesma. 

Devo mencionar uma nota bastante positiva para o posfácio enriquecedor que encerra o livro. Achei-o tão satisfatório quanto a história em si e motivou-me a ler mais sobre esta narrativa. Assim que terminar esta recensão crítica vou também averiguar o que outros leitores pensam sobre esta obra. Confesso que o livro não me tem saído da retina desde que acordei.

Em jeito de conclusão, não posso dizer mais nada a não ser que A Última Casa em Needless Street oferece uma experiência única de leitura que vale a pena ser atentada. Reconheço, no entanto, que devido à forma tão peculiar com que esta história é apresentada, poderá não deslumbrar uma fracção de leitores. 


sábado, 3 de abril de 2021

Ashley Audrain - Instinto [Opinião]

   

Sinopse: AQUI

Opinião: Instinto é a nova aposta da editora Suma de Letras em termos de thriller. Poder-se-ia dizer que não é um título totalmente inovador na medida em que segue a linha de obras como The Bad Seed de William March, We Need to Talk About Kevin de Lionel Shriver ou Baby Teeth de Zoje Stage. Ao revelar este facto não creio, de todo, que esteja a cometer algum tipo de inconfidência similar a um spoiler. Afinal de contas, a psicopatia revela-se num espectro de acções e actos diferentes, tendo apenas como denominador comum, o efeito de choque, mais acentuado sobretudo naqueles que experienciam a maternidade.

Começo a minha opinião por confidenciar que já não leio avidamente um livro desde Novembro do ano passado. Contudo, esta obra fez-me redescobrir a emoção que sinto quando leio um livro, e, nesta altura da minha vida, posso assegurar-vos que a minha incredulidade se fez sentir mais do que nunca. Não creio que o impacto da obra dever-se-á apenas ao meu estado de espírito actual. Estamos perante um livro que, penso ser consensual, irá consubstanciar um verdadeiro impacto emocional na medida em que disseca, sem grandes floreados, uma relação entre mãe e filha altamente disfuncional. Levanta muitas questões do foro psicológico, nomeadamente onde começa este vínculo e a partir de que acções este começa a assumir contornos mais desviantes. Sim, minhas amigas mães, vós ireis reflectir muito sobre este assunto, não tenho qualquer dúvida.

Não obstante, por apresentar um conteúdo tão polémico, Instinto também dará azo a uma larga panóplia de ilações, crendo eu que não conseguirá deixar ninguém indiferente. Ainda que se consiga encarar esta obra como uma mera história de ficção, penso que a mesma é chocante o suficiente para sugerir uma reflexão, como referi, por diversos momentos, mesmo quando não estamos a ler. É, indubitavelmente, uma obra que nunca sairá da retina. 

Escrito sob o ponto de vista da progenitora, Blythe, conseguimos ter a perspectiva em primeira mão, de uma mãe que se debate com alguns desafios próprios da maternidade. Poderá ser um ponto positivo uma vez que a informação chega ao leitor de forma madura e sincera, não obstante considerar que a perspectiva da criança poderia acrescer de um maior impacto. A acção retrocede até ao passado para que possamos perceber o panorama familiar da protagonista. Pessoalmente, considerei que esta subtrama não trouxe grande importância, no entanto reconheço que o título, Instinto, poderá ser alusivo de algum traço psicológico que passo passar, eventualmente, de geração para geração. 

Alguns episódios são, naturalmente, de difícil digestão e creio que o mais impactante ocorreu sensivelmente a meio da trama, pelo que, devo confessar, esmoreceu um pouco o meu entusiasmo. Tinha em mente, como paralelismo, a obra de Lionel Shriver e, inconscientemente, fui estabelecendo uma comparação entre as duas histórias. Ainda assim, foi com bastante alento que prossegui a leitura, sempre na expectativa sobre como seria o percurso da história. E realmente, esta conseguiu sustentar um ambiente de tensão até ao final, altura em que, a meu ver, poderia ter sido mais emocionante. Atenção que esta é uma percepção altamente pessoal pois, por norma, não aprecio desfechos que apelam ao poder de sugestão. E sim, aceito que este terá um efeito mais ou menos intenso consoante o leitor. 

Mesmo assim, no seu cômputo, estamos perante uma obra muitíssimo bem conseguida que irá mortificar aqueles que são pais ou os que pretendem sê-lo. É uma obra que, por me ter chocado várias vezes no decorrer da leitura, não hesito em recomendar! 



quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Lars Kepler - O Homem - Espelho [Divulgação Porto Editora]


 Data de publicação: 5 Novembro 2020

               Título Original:
               Tradução: Ivan Figueiras 
               Preço com IVA: 18,80€
               Páginas: 488
               ISBN: 9789720033840

O Homem-Espelho marca o regresso de Lars Kepler. No seu país de origem, o novo thriller da dupla sueca vendeu mais de 100 mil exemplares em apenas uma semana     
      No mundo, mais de mil milhões de mulheres estão sujeitas a violência sexual, mais de 50 milhões vivem como escravas e, anualmente, cerca de 85 mil são assassinadas. Porque «a literatura policial pode funcionar simultaneamente como uma plataforma de discussão sobre o ser humano e o nosso tempo», no seu novo thriller, a dupla sueca Lars Kepler decidiu abordar um problema global e inseri-lo numa situação com limites definidos e possível de solucionar: o desaparecimento e homicídio de jovens em Estocolmo. 

Ao comando da equipa que tenta desvendar o tenebroso caso apresentado em O Homem-Espelho está o comissário Joona Linna, naquela que é já a sua oitava aventura.

Sinopse: Jenny Lind é raptada quando regressa a casa depois de um dia de aulas. Cinco anos mais tarde, é assassinada e o seu corpo aparece num parque infantil de Estocolmo. Através das imagens captadas pelas câmaras de videovigilância, o comissário Joona Linna consegue identificar uma testemunha ocular que pode ser decisiva para a investigação. Porém, trata-se de um homem com distúrbios mentais, incapaz de recordar o violento crime a que assistiu. Para conseguir resolver o caso sem que novas mortes ocorram, Joona entra em contacto com Erik Maria Bark, o hipnotista que conhecemos no início da saga, a única pessoa capaz de ajudar Martin a recordar o que viu.

Sobre o autor: Lars Kepler é o pseudónimo de uma dupla de escritores de sucesso na Suécia: Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril. O Hipnotista, primeiro volume da saga, alcançou um enorme sucesso internacional e foi adaptado ao cinema pela mão do realizador Lasse Hallström. Depois de seis volumes, chega agora Lazarus.
Mais informações em www.larskepler.com


quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Cara Hunter - Sem Saída [Opinião]

Sinopse: AQUI

Opinião: Terceiro livro protagonizado por Adam Fawley e devo dizer que está à altura dos antecessores que, a meu ver, denotam uma originalidade ímpar. Isto porque a fórmula da autora prende-se com a narrativa, nas mais diversas perspectivas temporais imiscuída em excertos de relatórios ou páginas de internet em que até podemos ler os comentários dos internautas. Indubitavelmente que esta estrutura incomum e dinâmica torna a obra mais célere, voraz e, de certa forma, algo convincente. 

O caso em apreço é chocante: estamos perante a investigação de um incêndio que vitimou uma família e cujos contornos são, no mínimo, impactantes. Afinal de contas, este incidente provocou a morte de uma criança de 3 anos e a possibilidade de uma outra, de 10, poder não sobreviver. O caso adensa-se quando o paradeiro dos pais é desconhecido e o leitor leva a equacionar uma situação de negligência. Casos relacionados com crianças são, a meu ver, de dificil compreensão e, por este motivo, creio que a presente trama poderá trazer um impacto maior comparativamente com alguns livros policiais publicados por cá nos últimos tempos. 

A trama propriamente dita é repleta de reviravoltas. Apesar de confessar que esta leitura foi um pouco arrastada, percepção que terá sido pessoal uma vez que se deve apenas ao cansaço de trabalho, foi um livro que me entreteve, acima de tudo, e me manteve interessada na resolução do caso.

Como referi anteriormente, a narrativa acompanha a investigação deste caso ao mesmo que retrocede na acção e permite-nos conhecer a vida daquela família antes da tragédia. As tramas que dissecam os segredos de um núcleo familiar interessam-me muito. Atrai-me a ideia de uma família aparentemente perfeita que encerra alguns esqueletos no armário.

Apesar de não ser estritamente necessária a leitura das duas obras antecessoras, até porque a presente trama contextualiza, de forma bastante sintetizada, os acontecimentos mais flagrantes da vida do protagonista, creio que será interessante o conhecimento das histórias anteriores para averiguar a evolução da autora. A meu ver, ela manteve o mesmo registo. Contrariamente à grande maioria dos leitores, não creio que este título tenha ficado aquém dos demais. Afinal de contas, o desfecho acabou por me surpreender como já acontecera nas ocasiões anteriores e, mais uma vez, fica o sentimento de "leria concerteza o livro seguinte da autora caso o tivesse imediatamente disponível".

Em suma, estamos perante um livro, ou se quiser ser abrangente, uma série que se prima pela capacidade única de colocar o leitor literalmente na história através da estrutura única da obra. Cara Hunter é, desta forma, uma autora a manter debaixo de mira. 


 

domingo, 11 de outubro de 2020

Samuel Bjørk - Viajo Sozinha [Opinião]

Sinopse: AQUI

Opinião: Tenho para mim que este livro terá uma opinião consensual à grande maioria dos leitores. Posto isto, como entusiasta de um bom policial nórdico que sou, ia já preparada para me deparar com uma história que, a avaliar pela premissa, prometia ser bastante pesada. Os crimes contra as crianças são, indubitavelmente, aqueles que mais me chocam. Na obra em epígrafe, deparamo-nos com um espectro de atentados a crianças, passando pela negligência, culminando no de maior gravidade, o homicídio. As vítimas são crianças em idade pré escolar, o que pode acentuar os contornos impressionantes dos assassinatos e, pessoalmente, considero que os pormenores relativos ao modus operandi torna-os ainda mais difíceis de digerir. 

Contudo, Viajo Sozinha não se cinge apenas a esta premissa. A história é enriquecida com uma subtrama, alusiva à comunidade religiosa do local e, desde cedo, o leitor é incitado a estabelecer uma relação entre as duas histórias aparentemente desvinculadas, tendo apenas como denominador comum o papel da criança como vítima.

Uma narrativa com esta complexidade carecia de dois protagonistas que lhe fizessem jus: Holger Munch e Mia Kruger. O protagonista masculino, um polícia bastante experiente, já com uma neta com idade pré escolar é, talvez, o aspecto mais previsível da história. Afinal de contas, a pequena Marion tendo a idade das vítimas do serial killer, poderá, eventualmente, constituir mais uma vítima do antagonista. Por outro lado, Mia, tem sérios problemas familiares que a afectaram drasticamente. É uma mulher que inspira grande compaixão, por isso. É notório que estas histórias de vida tão sobredesenvolvidas, uma característica por vezes incomum no livro de estreia de uma série, conduzem a uma familiaridade entre o leitor e a obra, pelo que, inevitavelmente, finda a leitura, fica o desejo de ler, quanto antes, a continuação desta história. 

Uma vez que a acção é repartida em duas subtramas, além das histórias pessoais dos protagonistas, creio que a obra é bastante envolvente, estimulante e complexa, razão pela qual devo mencionar o único aspecto menos positivo e que considero pertinente ser referido: Viajo Sozinha é uma obra extensa, ascendendo a mais de 500 páginas, pelo que poderão contar com uma história cativante sensação que se deve sobretudo aos pormenores que enriquecem a trama. Porém, o mesmo não se verificou com o desfecho. Tive uma sensação que este foi demasiado apressado e, para a história que Bjørk arquitectou, pessoalmente teria gostado que o final fosse mais explorado e, acima de tudo, que o epílogo fosse um pouco mais animador. Ainda assim, desperta um imediato interesse pelas obras que sucederão a esta. 

O balanço final de Viajo Sozinha superou largamente as minhas expectactivas. Estamos perante uma trama complexa e verdadeiramente emocionante com um extra: Samuel Bjørk ficará na lista de autores a manter debaixo de mira. 


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Jo Nesbø - A Faca [Divulgação Dom Quixote]

 

Data de publicação: 22 Setembro 2020

               Título Original: Kniv
               Tradução: C.S.C. Marques
               Preço com IVA: 22,20€
               Páginas: 584
               ISBN: 9789722070768

Sinopse: Harry Hole está em maus lençóis. Rakel, a única mulher que algum dia amou, deixou-o de vez. A Polícia de Oslo ofereceu-lhe uma nova oportunidade, mas para resolver casos menores, quando na realidade o que ele pretendia era investigar Svein Finne, o violador e assassino em série que, em tempos, pusera atrás das grades. E agora, Finne está livre depois de mais de uma década na prisão, e Harry determinado a investigar todas as suspeitas que continuam a recair sobre ele.
Mas nada lhe corre como gostaria e a cada dia que passa só vê piorar a sua situação. Quando, depois de uma noite de embriaguez total, Harry acorda de manhã completamente desmemoriado e com sangue nas mãos, percebe que algo de estranho se passou. Porém, o que nessa altura Harry ainda não sabe, é que acordou apenas para viver o pior pesadelo de toda a sua vida.
Em A FACA, Jo Nesbø faz-nos entrar numa montanha-russa de emoções em que o medo, o suspense, a morte, a vingança, mas também a força redentora do amor, se entrelaçam para nos deixar arrepiados da primeira à última página.

Sobre o autor: Jo Nesbø nasceu na Noruega em 1960. É músico, compositor, e um dos escritores de policiais mais elogiados e bem-sucedidos da Europa. Com os livros da série protagonizada pelo inspetor Harry Hole conseguiu um sucesso invejável quer no seu país de origem quer a nível internacional, recebendo elogios da crítica e do público. É traduzido em mais de 40 línguas, recebeu vários prémios literários e muitos dos seus livros atingiram os tops de vendas. Em Fevereiro de 2013 o Parlamento norueguês atribuiu-lhe o Peer Gynt Prize, que premeia uma personalidade ou instituição que se tenha distinguido na sociedade e tenha contribuído para valorizar a reputação da Noruega a nível internacional.

Anders Roslund - A Aniversariante [Divulgação Porto Editora]

 Data de publicação: 24 Setembro 2020

               Título Original:
               Tradução: Artur Lopes
               Preço com IVA: 18,80€ 
               Páginas: 456
               ISBN: 9789720033833

Bastam seis páginas para não conseguirmos largar o novo livro do sueco Anders Roslund, autor com mais de 5 milhões de exemplares vendidos mundialmente e que no verão passado voltou a obter sucesso no seu país natal com o thriller A Aniversariante. Trata-se do primeiro título do díptico «As Raparigas Sem Nome», uma história já com direitos cinematográficos vendidos à Thunder Road, a mesma produtora do filme oscarizado Assim Nasce uma Estrela.

O livro estará disponível nas livrarias a 24 de setembro.

Nesta intriga internacional que assenta numa teia de várias investigações policiais e muitos outros dramas pessoais, a intuição e a coragem são tão importantes quanto a alta tecnologia à C.S.I. no desvendar dos factos. A sede de vingança, o dever da responsabilidade e a necessidade de mudar de vida alimentam as más e as boas ações dos personagens que, entre si, têm algo em comum, não obstante o lado da lei em que se encontram: carregam o fardo de um passado que tentam reescrever. Tudo isto nos diz a escrita veloz, repleta de suspense e de reviravoltas, de Anders Roslund, num dos melhores thrillers que a literatura escandinava alguma vez nos deu a saborear. Um desassossego verdadeiramente viciante em todas as suas 456 páginas.

Sinopse: Atrás de uma porta fechada, há um bolo de aniversário com cinco velas. E uma criança num vestido vermelho que canta sem parar: Parabéns a você, antecipando uma celebração… que nunca chegará a acontecer.
Passaram-se entretanto dezassete anos. O superintendente Ewert Grens, agora à beira da reforma, é chamado novamente ao local de um crime atroz que ainda lhe assombra os sonhos. No decurso desta nova investigação, Grens percebe que deixou escapar algo da primeira vez e suspeita de que alguém regressou com o objetivo de silenciar a única testemunha sobrevivente.
Enquanto isso, há quem tente por todos os meios recrutar os serviços pouco convencionais de Piet Hoffmann, ex-informador da polícia. No entanto, a recusa de Hoffmann em vestir de novo a pele de vilão coloca toda a sua família em grande perigo. Tentando perceber quem está por detrás de um plano maquiavélico para literalmente fazer implodir o submundo do crime na Suécia, Hoffmann alia-se a Grens. Ao longo de três vertiginosos dias, os dois terão de salvar mais do que um inocente, numa corrida trepidante contra o tempo.

Sobre o autor: É um jornalista premiado e um dos mais bem-sucedidos escritores escandinavos de thrillers. Com Börge Hellström, escreveu vários bestsellers do The New York Times, com vendas superiores a cinco milhões de exemplares, incluindo Três Segundos, que serviu de inspiração ao filme O Informador (2019). Foi galardoado com o CWA International Dagger, The Glass Key e o Prémio da Academia Sueca de Escritores de Policiais, entre outros

Imprensa
«Uma obra-prima do género. Brutal, emocionante, inteligente.»
Liza Marklund, autora de Lobo Vermelho

«Roslund sabe escrever uma história fantástica, de tirar o fôlego, entre o noir nórdico e o thriller político. Ele consegue também apresentar personagens fascinantes […] A Aniversariante é um dos melhores romances policiais que já li.»
Jyllands-Posten

«Há [romances] que chamam a nossa atenção na primeira página, ao ponto de desejarmos lê-los de uma assentada. O policial de Anders Roslund, A Aniversariante, é o exemplo perfeito disso.»
Kristeligt Dagblad



 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Helene Flood - O Olhar Que Me Persegue [Opinião]

Sinopse: AQUI

Opinião: Confesso que fiquei fascinada assim que vi esta capa pela primeira vez. Não me informei devidamente sobre a autora, desconhecendo, portanto, que a mesma é norueguesa. Da vasta literatura nórdica que tenho consumido, tenho verificado um denominador comum: uma fórmula que se resume a um romance policial alicerçando-se sobre um ou mais homicídios e sua investigação.

Tendo então este aspecto em consideração, O Olhar que Me Persegue afigura-se como uma obra bastante inovadora na medida em que se desenrola sob um cenário de cariz mais psicológico.

O acontecimento que precipita esta história é o desaparecimento do marido de Sara. Poder-se-ia pensar, inicialmente, que esta trama pudesse ser uma versão masculina do livro Em Parte Incerta de Gillian Flynn, Contudo, esta hipótese é rapidamente descartada pois temos conhecimento, numa fase relativamente precoce da trama, da verdadeira dimensão da premissa da história. A trama assume um carácter mais psicológico: à medida que vamos descobrindo alguns pormenores sobre a relação do casal, começam a acontecer alguns episódios estranhos na casa do casal, fomentando uma certa dúvida no leitor sobre a própria sanidade mental da personagem principal.

Gostei que a protagonista, Sara cuja profissão é terapeuta, tenha partilhado com o leitor alguns dos seus casos com que trabalhava. Três jovens com diferentes problemas que nunca me saíram da retina. Sou fascinada pela área da psicologia pelo que a trama me deslumbrou em vários outros momentos como a referência de alguns episódios de infância para descortinar certos comportamentos na actualidade. Não deixa de ser curioso que esta minha atenção nestes pormenores conduziu à minha teoria que se revelou como a certa. Considerei previsível, portanto, o mistério relacionado com Sigurd, o marido de Sara, não obstante crer que terá sido uma percepção muito pessoal pelas razões que mencionei. Já a revelação final, foi, para mim, mais surpreendente. 

É importante salientar que toda a base de Psicologia presente na obra é verossímil, facto que dever-se-á à experiência da autora no ramo. Achei que esta componente estava bem doseada no mistério envolto na personagem do Sigurd. 

Se gostam de tramas alicerçadas em relações pejadas em segredos e intrigas, não deixem escapar este título. A meu ver, uma relação matrimonial é tão pessoal e íntima que pode ser explorada de várias formas, incluíndo perspectivas com maior grau de perversão e disfuncionalidade. Ainda que no caso em apreço, o casamento de Sara e Sigurd não assuma contornos tão chocantes como de outras narrativas que li, creio que há sempre alguma curiosidade em ler sobre relações mais conturbadas.

Em suma, estamos perante um thriller psicológico interessante e, apesar de ter considerado um aspecto algo previsível, o balanço final é muito positivo.