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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Especial MOTELx 2019: The Golden Glove de Fatih Akin


Sendo baseado num caso real, o do serial killer alemão Fritz Honka, era com grande entusiasmo que aguardava este filme. No entanto e lamentavalmente, as minhas expectativas não foram correspondidas.
Confesso que antes de ver esta película, li o artigo do wikipedia referente ao serial killer, temendo, assim, que o efeito surpresa fosse arruinado. Contudo tal não se verificou, motivo que atribuo ao desvio na trama e consequente distanciamento entre os factos reais e os mencionados no filme. Falo especificamente das vítimas.

Reconheço que estamos perante um trabalho fantástico em termos de actuação. Pelo que pude apurar no IMBd, o actor Jonas Dassler submeteu-se a um trabalho extenso de caracterização de forma a ficar fisicamente semelhante a Honka. Nos créditos finais deparamo-nos com fotos reais do cenário e apercebi-me do esmero atribuído a estes detalhes que bem contextualizam o ambiente da época em que decorreram os factos.

The Golden Glove é um filme que causa algum desconforto uma vez que é bastante explícito. A cena inicial é impactante pois mostra o modus operandi de Honka, sendo que, desde logo é levantado o véu sobre o modo de como este assassino tratava as suas vítimas. Não deixa de ser irónico que o seu modus operandi foi precisamente o que veio a denunciá-lo.
A estas se seguem várias passagens assentes sobre a violência, fazendo-nos questionar o índice da maldade humana, parafraseando o jornalista Hernâni Carvalho. Também me soou muito convincente que as respostas às atitudes de Honka fossem similares em todas as vítimas.
No entanto estas ditas cenas de cariz mais violento, a meu ver, são um pouco repetitivas e, em certos momentos, senti que a história não avançava, gravitando sempre na escolha da vítima e da forma como Honka a (mal)tratava.  

Desagradou-me também que o filme não tenha apresentado uma teoria sobre o desenvolvimento da personalidade de Honka, algo que foi adiantado no artigo do wikipedia supra referido. 

Estes motivos, seguramente, fizeram com que não apreciasse o filme como esperava. Aguardava uma história com mais rigor sobre os factos reais e, acima de tudo, que a acção não fosse tão repetitiva, fazendo-me crer, em certos momentos, que estava perante um ensaio cíclico sobre violência. 
Não deixa, no entanto, de ser um filme interessante alicerçado sobre essas personalidades tão complexas que são os dos serial killers.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Especial MOTELx 2019: Rasganço de Raquel Freire


Rasganço, termo que simboliza um dos rituais universitários de Coimbra na altura da graduação, será uma das películas nacionais a ser transmitidas no festival de terror MOTELx deste ano.
Desconheço se este ritual é, de facto, como o que nos é apresentado pois a minha vida académica (fui estudante no Instituto Superior Técnico) foi um pouco aborrecida - às páginas tantas queria lá eu saber das práticas sociais universitárias, à medida que os anos iam passando, eu apenas desejava terminar o curso!

Para mim, a magia deste filme provém do cenário e do ambiente. Embora já tenha terminado o meu curso há alguns anos, e, como tal, já não me identificar com o universo académico em concreto, não me senti de todo descontextualizada.
Talvez por não ter estudado em Coimbra e, consequentemente, não ter usufruído de uma vida académica tão rica, senti-me deslumbrada com o ambiente, as serenatas, as paisagens da cidade e com o vislumbre da fantástica biblioteca joanina da universidade. Decerto que o filme é convidativo a visitar a cidade. 

A história debruça-se sobre um jovem que chega a Coimbra que, não sendo estudante, nem tão pouco pertencendo àquele meio, rapidamente trata de se envolver com várias mulheres ligadas à Universidade até ao dia em que a situação escala e o pânico alastra por entre a comunidade académica.

Estamos, portanto, perante uma história de contornos lineares. Já sabemos à priori quem é o vilão pelo que, a meu ver, a trama carecia de uma reviravolta bombástica, possivelmente relacionada com o motivo pelo qual ele age daquela forma. Creio que este foi parcamente desenvolvido e a história tornar-se-ia mais rica caso estes motivos fossem mais aprofundados. Aliás, para mim, a subtrama principal, directamente alicerçada sobre Miguel, o forasteiro, poderia ser mais explorada. 
Os ataques às universitárias poderiam ser mais frequentes e brutais e a investigação policial poderia ter sido mais intensa. Considerei que o puzzle montado sobre as vítimas foi bastante interessante e, pessoalmente, teria gostado de ver essa componente mais aprofundada.

Mesmo que a história pendesse para o subgénero de giallo, esta nunca perderia o seu encanto devido ao ambiente único onde a trama tem lugar. Contudo compreendo que a) este filme é claramente uma produção com poucos recursos e b) não creio que a realizadora quisesse tecer uma trama policial, por isso, compreendo perfeitamente as escolhas de Raquel Freire.

Na apresentação do festival, o filme foi-me "vendido" como sendo um slasher, o que discordo pois grande parte das cenas mais violentas são bastante implícitas. Na realidade, a cena que foi mostrada na apresentação é a única passível de alguma susceptibilidade pois de facto, tem algum gore.

Com isto dito, criei algumas expectativas que foram defraudadas. Ainda assim reconheço que a produção nacional tem algo de mágico, percepção que atribuo ao universo académico único de Coimbra. 

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Especial MOTELx 2019: O Boneco Diabólico de Lars Klevberg


A sessão de apresentação da 13ª edição do Festival de Cinema de Terror de Lisboa, MOTELx, contou com a exibição do remake do filme homónimo de 1988. O mesmo estreará nos cinemas nacionais amanhã, dia 18 de Julho.

Apesar de não ser propriamente fã de filmes de terror protagonizados por bonecos, confesso que simpatizo com o Chucky, razão que dever-se-á ao facto de ser grande fã de cinema de terror dos anos 80. Além disso, recordo-me de ver este filme no início da década de 90, na altura sendo eu ainda uma criança, fiquei algo apreensiva com o boneco. Por estes motivos e para mim, Chucky tornou-se um símbolo icónico, daí estar extremamente expectante com este remake.

Este Child´s Play é um filme que segue as tendências actuais da sociedade, nomeadamente o novo paradigma de família, neste caso monoparental com uma situação cliché - a não aceitação do namorado da mãe pelo filho, Andy. Também Chucky já não é o convencional boneco de brinquedo, é um equipamento tecnológico, com aplicações fazendo-me inevitavelmente reflectir sobre a constante evolução da tecnologia, explorando, portanto, o lado mais perverso deste fenómeno.

Ao contrário do filme original em que sabíamos que o boneco estava possuído pela alma do serial killer, Charles Lee Ray, dando a sensação que Chucky era, de facto, muito perigoso, no remake, a origem do mal deve-se unicamente à incapacidade de discernir o bem e o mal. Por este motivo, o espectador dá por si a tentar desculpabilizar a conduta do vilão, uma percepção quase antagónica se fizer o exercício de comparar ambos os filmes.

Este é claramente um filme que não deve ser levado a sério. Foram mais os momentos em que soltei umas valentes e genuínas gargalhadas do que me assustei, e esse será sempre o grande propósito de um filme do género de terror. Tal dever-se-á maioritariamente às tiradas de Chucky, mostrando que, tal como Brad Douriff, actor que deu a voz ao boneco nos vários filmes do franchise, Mark Hamill mostra ter um igual talento. A título de curiosidade, devo mencionar que o slogan dos bonecos Buddi cantada pelo actor é simplesmente hilariante!

Ainda que o humor tenha um papel preponderante na película, não nos esqueçamos que este é um filme de terror e, como tal, tenho que tecer algumas considerações sobre os homicídios. Considerei que os mesmos foram violentos e bastante gore, ainda que não comprometam a leveza que o filme transmite.

Em suma, recomendo este filme aos que pretendem ver uma nova versão de Chucky. Apesar de ser um filme extremamente actual, tem uma vibe muito revivalista, o que muito me agradou. Divertida, esta abordagem ao Child´s Play garante 1h30 de entretenimento ao mais alto nível.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Especial MOTELx 2018: A Filha de Solveig Nordlund

Não conhecia este filme nem a realizadora de nacionalidade sueca que fez alguns trabalhos cinematográficos em Portugal por isso congratulo a equipa do MOTELx por revisitar as suas obras mais conhecidas. Não tive oportunidade de ver aquela que me parece ser a mais afamada, Aparelho Voador a Baixa Altitude que me ficou debaixo de olho. Fica também, em jeito de apelo, uma sugestão de filme para os nossos canais nacionais (seria ideal para ser transmitido pela RTP2).

Confesso que comecei a ver este filme sem grandes informações sobre o mesmo. Apenas sabia que a história se debruça sobre a relação entre um pai e a sua filha, como o título sugere. Ricardo Monteiro, uma personalidade bastante conhecida no meio televisivo, é pai de Leonor, uma jovem de 18 anos. A pressão profissional obriga a que Ricardo se dedique incondicionalmente ao trabalho ao ponto de descuidar a sua relação com a filha. No dia em que este está na Madeira, a receber um prémio, no dia do aniversário de Leonor, este recebe um estranho SMS da filha e, ao chegar a casa, repara que a adolescente, bem como todos os seus pertences, desapareceram.

Tive sentimentos algo contraditórios no que concerne a esta película: na primeira parte senti-me deveras curiosa sobre o desaparecimento de Leonor, à medida que me ia questionando sobre o relacionamento entre este pai e filha. O que não deixa de ser irónico pois actualmente observamos uma tendência dos pais em, naturalmente, se dedicarem em demasiado ao trabalho e secundarizar a família (note-se que este filme remota a 2003).

Sensivelmente a meio do filme há uma reviravolta que não me convenceu de todo embora tivesse feito um profundo exercício de introspecção, pensando nos mecanismos de Psicologia que pudessem justificar aquele twist. Sem grande sucesso, confesso, pois levei o resto do filme a matutar como é que tal situação seria possível. Hoje reconheço que este acontecimento deu um fôlego à história e um rumo inesperado, funcionando como um marco que faz uma transição da história, passando de um registo mais melodramático, para o género de terror propriamente dito.

Não é uma película que se caracterize pelas cenas de violência explícita não obstante ter sentido que esta estava lá, latente, sob a forma psicológica. A segunda parte é marcada por um crescendo de emoções que culminam num acontecimento que achei que seria expectável. Lamento, no entanto, que não tenha havido uma resposta concreta para a questão que, para mim, era a fulcral da trama. 
O filme, a meu ver, não é explícito e todas as ilações que possamos tirar são a partir do poder da sugestão. 

Confesso que nunca fui fã do falecido actor Nuno Melo (para mim, ele será o eterno filho do Camilo), embora este tenha uma actuação bastante convincente neste trabalho como o pai desesperado em busca da filha. No entanto, aponto o papel da Joana Bárcia como impressionante. Desconhecia esta actriz e fiquei abismada com o seu papel.

Ainda que não tenha apreciado a reviravolta da trama - o único caminho possível para direccionar o rumo da história e esse sim, agradou-me muito - creio que vale a pena dar uma oportunidade nem que seja para apreciar um filme português, com uma temática bastante actual.

Especial MOTELx 2018: The Cleaning Lady de Jon Knautz


Que surpresa este filme!
Catalogado no festival como terror extra forte, é consensual afirmar que é, de facto, um filme que não deixa ninguém indiferente. Não falo especificamente do gore (ainda que comece com uma estranha cena de ratos num liquidificador - isto há cá com cada smoothie...) pois nem achei excessivo, mas pela carga sentimental que a história acarreta. Pessoalmente não esperava que me tocasse tanto ainda que reconheça que The Cleaning Lady não é, de todo, uma trama original. A meu ver tem uns laivos de Mientras Duermes, The Resident e White Single Female por se debruçar sobre o tema da obsessão e relações tóxicas.

Diria que a protagonista, Alice, é uma mulher independente se não fosse um aspecto: apesar de trabalhar por conta própria e ser bem sucedida a nível profissional, ela tem um caso com um homem casado. A sua consciência diz-lhe que deve deixá-lo pelo que a personagem procura manter-se ocupada com as banalidades do dia-a-dia. É neste plano de maior carência afectiva que começa a relacionar-se com a empregada doméstica, Shelly, uma mulher com uma deformidade física e de parcas palavras.

Não deixo de salientar a deformidade física da vilã que, obviamente, nos remete para clássicos como O Fantasma da Ópera ou o Freddy Krueger da saga Nightmare on Elm Street. Há algum tempo que não tínhamos uma antagonista que se destacava por alguma particularidade física, deitando por terra, neste específico caso, que o mal pode residir perto de nós sem que o percebamos.

A extensiva caracterização de Shelly, através de flashbacks, ajudam a construir a complexa personalidade que ela se tornou e, inevitavelmente, o telespectador é convidado a reflectir sobre a correlação entre uma infância feliz e uma saúde mental normal. Este desenvolvimento complexo poderá, eventualmente, ter como função a desresponsabilização dos seus actos em resposta ao sentimento de compaixão que nos vai apoderando de nós. 

Só lamento o desfecho. Pareceu-me bastante abrupto e não fechou a situação da forma como pessoalmente teria esperado. O filme carecia de mais uns minutos para resolver devidamente a situação criada por Shelley e, a meu ver, desta forma, teria tornado a história ainda mais sólida.

Não esperem um filme original, não obstante considerá-lo extremamente poderoso e intenso. Curioso que um filme que tenha passado mais despercebido no festival do que o da sessão de abertura, The Nun, seja bastante superior e tenha uma maior solidez a nível de história.
A Shelly ficar-me-á na retina por muito tempo. 

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Especial MOTELx 2018: The Nun de Corin Hardy

Desde que fui ver a estreia de The Nun, no dia 4 de Setembro na sessão de abertura da 12ª edição do MOTELx, muitas pessoas me têm questionado sobre o filme. Uma vez que assinei uma declaração de confidencialidade em que consistia em omitir qualquer opinião sobre o filme até ao dia da sua estreia mundial, não pude expressar-me devidamente sobre a película. Ontem, após ler um artigo de opinião do NiT, achei que também eu devia tecer algumas considerações sobre o filme, uma vez que, confrontada com a pergunta se tinha gostado do filme, fui parca em palavras.

Assim, gostaria de aprofundar as razões pelas quais não considerei este filme tão espectacular como todo o marketing o sugeria. 

Primeiro, escrevo sob a perspectiva de uma amante do género de terror, não obstante preferir os filmes que alicerçam sobre serial killers e mentes psicopatas. Decerto que o sobrenatural impõe respeito: é algo que não conseguimos controlar e é aí que recai o factor medo. No entanto, creio que a ideia do psicopata é muito mais real e comum, daí recear as tramas com esta temática. Sublinho que esta percepção é muito pessoal e, portanto, para mim James Wan é a saga do Saw (embora tenha consciência que esta perca qualidade de filme para filme). 
Nos últimos dias, revi o primeiro The Conjuring e vi o segundo e os spin-off Annabelle, sem ter ficado realmente rendida com os filmes, talvez pela razão que mencionei.

The Nun - A Freira Maldita é considerada uma prequela do universo The Conjuring por ocorrer 20 anos antes dos eventos do filme de James Wan. A acção passa-se numa abadia situada num local recôndito da Roménia, onde ocorrem fenómenos bizarros. Agora que reflicto sobre o filme, creio que a cena com mais impacto foi precisamente a inicial, em que retrata o episódio responsável pela investigação levada a cabo por um padre do Vaticano - Father Burke - e por uma noviça oriunda de Londres - Sister Irene. Ambos serão auxiliados por um local, apelidado por Frenchie. No meu ver, esta personagem era perfeitamente dispensável (embora no final do filme se perceba uma correlação entre esta e o casal Warren protagonista do The Conjuring) uma vez que as suas intervenções têm quase sempre um carácter cómico, distraindo a tensão do filme. Dei por mim, assim como a restante plateia, rir a bandeiras despregadas, o que não é nada comum em filmes de terror.
Logo, The Nun não foi altamente assustador devido às tiradas de Frenchie. Os únicos momentos que eventualmente poderiam assustar levam-me a fazer uma crítica, desta feita transversal, aos filmes de terror actuais: o aumento de volume, abrupto, nas cenas designadas jumpscares. 

Terá sido uma percepção minha certamente, mas achei a freira mais tenebrosa no The Conjuring do que no presente filme. Creio que a imagem dela não terá sido devidamente trabalhada pois, às páginas tantas, já pensava para mim que a freira era chata e impertinente, adjectivos que não significam necessariamente que ela fosse assustadora. A sua imagem acabou, de certa forma, por me cansar no decorrer da película.

Sendo um filme dedicado à figura mítica da freira, seria expectável que houvesse um desenvolvimento plausível sobre esta origem do mal. Contudo, esta mostrou-se francamente subdesenvolvida o que me remete, à semelhança de Annabelle, para um segundo filme que se debruce sobre a origem da protagonista.

Por último, considerei que a fotografia do filme era muito escura. Tive dificuldades, em vários momentos, em distinguir os vultos das personagens. A escuridão não é obrigatoriamente um elemento assustador.

Sei que levantei aqui muitas críticas a este filme. Como poderão perceber, esperava muito mais do mesmo, não fosse este uma história do imaginário de James Wan. O filme vale pelo desempenho de Taissa Farmiga que já mostrara um talento na área do terror na primeira temporada de American Horror Story e pelo início intenso para, posteriormente, perder o fôlego. Considerei que a história foi demasiado linear e sem surpresas e pessoalmente, senti falta de um twist ou uma reviravolta que me arrebatasse.
Na minha modesta opinião, a selecção deste ano do festival MOTELx apresenta títulos bem mais estimulantes do que esta freira.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Tomas Alfredson - The Snowman [Opinião cinematográfica]


O Boneco de Neve é o mais recente trabalho de Tomas Alfredson, o realizador sueco responsável pela adaptação cinematográfica dos livros "Deixa-me Entrar" de John Ajvide Lindqvist e "A Toupeira" de John Le Carré. Confesso que, uma vez que não aprecio o subgénero de Espionagem, nem espreitei este último filme.

The Snowman era, provavelmente, o filme mais aguardado deste ano. À medida que ia sendo construindo um marketing em torno deste livro, multiplicando-se a partilha de teasers e posteriormente trailers, mais impaciente eu ficava em ver esta obra. Consegui um lugar na antestreia e cá estou eu para vos contar tudo.

Antes de mais, achei a adaptação cinematográfica muito mediana e vou fundamentá-la para que percebam porquê. Vou, claro, evitar fazer spoilers. Porém, vou ter que comentar uma cena ou outra. 

Para quem é fã desta estrondosa série protagonizada por Harry Hole, como eu, é fácil apercebermo-nos da complexidade do detective e da sua história pessoal que é o único aspecto que acaba por ter um desenvolvimento em todos os livros. E O Boneco de Neve é o 7º. Já aconteceu tanto ao Harry até então... 
Acontece que o meu acompanhante na antestreia pouco sabia do universo de Harry Hole, pelo que foi difícil interiorizar o contexto pessoal do detective. A título de exemplo: não se sabe, até ao final do filme, que a personagem feminina se chama Rakel. Menciono outro aspecto, este ainda mais flagrante, no livro há uma cena fortíssima protagonizada por esta e Hole que foi descurada no filme. E toda a acção referente a este par, reforça a ideia de que estas personagens são quase como dependentes uma da outra. E o último livro da série, Polícia, intensifica mais esta minha percepção. Tenho para mim que faltou alguma química ao casal no filme.

Falando deste aspecto que foi um pouco alterado, posso mencionar uns quantos outros e algumas cenas que não fazem qualquer sentido, de todo. Como a inicial em que Harry surpreende um homem que fazia a desinfestação do seu apartamento com um tiro. O diálogo que se seguiu foi, no mínimo, surreal. Já nem falo da (geral) amputação de dedos. Pelo que me lembro, exceptuando as vítimas de homicídio, outras personagens saíram fisicamente incólumes das situações. Ou o filho do casal Britte. Sim, era o Jonas no livro. Aqui, por alguma razão que não consigo explicar, é uma menina.
E aligeiraram em muito o drama daquele casal, em particular o do pai.

De facto, consigo aperceber-me da dificuldade em adaptar rigorosamente a história de O Boneco de Neve, tão rica em pormenores. Ainda assim, o filme revestiu-se de um ritmo algo moroso até culminar num desfecho que, para mim, foi francamente anti-climático e diferente, uma vez mais, do livro.
Também a caracterização de O Boneco de Neve está, a meu ver, subdesenvolvida. Mal cheguei a casa ontem, reli as últimas páginas do livro e, de facto, o vilão é dotado de uma maior frieza. Posso afiançar que a cena final é bem mais intensa do que no filme. 

Por último a minha maior crítica. Já que o filme foi totalmente filmado na Noruega, não consigo entender porque é que o elenco era, quase na íntegra, americano. A ideia seria tornar o filme mais comercial?
Não desgosto do trabalho de Michael Fassbender mas, para mim, não me convenceu como Harry Hole. Para quem 10 livros protagonizados por este detective, imaginou uma personagem fisicamente diferente. Contudo, a maior desilusão foi Val Kilmer. Aqui entre nós, eu tive um crush por ele há uns 20 anos. Mas isto fica só entre nós, ok? ;) Está irreconhecível!

O melhor do filme foi, para mim, as maravilhosas paisagens norueguesas. Os planos são, de facto, apaixonantes. Lembraram-me a razão deste meu fascínio pela Escandinávia.

Em suma, pelas razões que mencionei anteriormente, o livro que é espectacular (e ao qual atribuí 5 estrelas no Goodreads) originou uma adaptação cinematográfica medíocre. Esperava muito mais! 

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Especial MOTELx 2017: Better Watch Out de Chris Peckover


Sinopse: Luke é um rapaz como muitos outros, com uma família suburbana atenciosa. É a altura do Natal e os seus pais vão jantar fora, deixando o rapaz de 12 anos ao cargo da babysitter Ashley que, por acaso, também é a rapariga por quem tem uma grande paixão. Enquanto Luke a tenta impressionar, ambos apercebem-se rapidamente de que um estranho se está a meter com eles. Fechados em casa sem forma de comunicar com o mundo exterior, e forçados a jogar ao gato e ao rato, esta vai ser uma autêntica luta pela sobrevivência... ou será que é algo ainda mais sinistro? Com claras referências ao “Home Alone”, “Better Watch Out” pega no conceito do clássico dos anos 1990 e faz dele uma inteligente comédia negra, onde o Natal se transforma em plano de fundo para uma história sangrenta de home invasion.

Opinião: Um filme surpreendente que parece apostado em acabar com o espírito natalício que ainda resta.
A premissa desta comédia negra poderia perfeitamente ser: "E se Sozinho em Casa tivesse sido realizado por Wes Craven, por Tobe Hooper ou mesmo por Rob Zombie?"

Quando começamos a ver Better Watch Out vamos com a expectativa de ver algo relacionado com a subtrama "Home Invasion" e por alguns momentos, parece que a acção vai nesse sentido. Contudo, vemo-nos perante um "volte face" algo inesperado e a narrativa passa a seguir uma linha completamente diferente.

É óbvia a inspiração deste filme no franchise familiar "Sozinho em Casa" que imortalizou Macaulay Culkin no papel do engenhoso Kevin McCallister. Todavia Better Watch Out não é um filme que mereça, de forma alguma, a classificação de "Maiores de 6", nem tampouco "Maiores de 12".

De realçar a magistral interpretação do jovem actor australiano Levi Miller que tinha apenas 14 anos aquando do lançamento desta obra.

Uma vez mais é um filme surpreendente, provocador e que poderá até perturbar alguns espectadores mais sensíveis.


Especial MOTELx 2017: The Bad Batch de Ana Lily Amirpour


Sinopse: A jovem Arlen é abandonada numa zona árida do Texas separada da civilização por uma barreira. Enquanto se tenta orientar por entre a paisagem implacável, é capturada por um grupo de canibais selvagens liderados pelo misterioso Miami Man. Com a vida em risco, ela decide fugir ao encontro de um homem a quem chamam O Sonho. Enquanto se adapta à vida no seio da Má Fornada, Arlen descobre que ser-se bom ou mau depende essencialmente de quem se encontra ao nosso lado. Depois de ter chamado a atenção com o western spaghetti vampírico “A Girl Walks Home Alone at Night”, a realizadora Ana Lily Amirpur oferece-nos agora esta ‘odisseia pop pós-apocalíptica’ que conta com nomes de peso no elenco como Keanu Reeves, Jim Carrey, Jason Momoa ou Diego Luna.

Opinião: Passado algures na fronteira entre o México e o Texas, num futuro pós-apocalíptico, acompanhamos o percurso errático de Arlen, desde uma comunidade de canibais, até uma pequena vila-refúgio que, aparentemente, se apresenta como um pequeno paraíso no meio daquela paisagem inóspita e que é gerida pelo enigmático The Dream.

O filme começa bem com algumas cenas mais fortes a fazer lembrar títulos de culto como Hostel ou Guinea Pig. Contudo, com o passar do tempo, a trama começa a arrastar-se de forma penosa.

Um dos pontos negativos vai para a falta de empatia da protagonista que, claramente, não sabe o que quer, limitando-se a andar para trás e para a frente, entre o deserto e a vila-refúgio, oscilando entre a auto-comiseração e o desprezo por tudo o que a rodeia.

Penosas também as interpretações de Keanu Reeves e Jim Carrey, claramente já no ocaso das respectivas carreiras. Mais coerente e consistente acaba por ser a interpretação de Jason Momoa, em linha com outras actuações do mesmo actor.

Em suma, um filme que começa bem, mas que acaba por se arrastar durante quase duas horas para, no fim, ficarmos com a sensação de que o mesmo foi completamente "pointless".


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Especial MOTELx 2017: El Bar de Álex de la Iglesia [Opinião Cinematográfica]


Sinopse: Nove horas da manhã: algumas pessoas tomam o pequeno-almoço num café no centro de Madrid. Uma delas, um homem, está com pressa. Ao sair para a rua, um tiro atinge-o inesperadamente. Ninguém se atreve a ajudá-lo. Presos dentro do café, todos se apercebem rapidamente de que nem deles próprios estão a salvo... É o regresso do mestre Álex de la Iglesia à comédia de género e a um tema já antes explorado em filmes como “Common Wealth”, “800 Bullets” ou “Witching and Bitching”, ou seja, personagens enclausuradas num único espaço físico. Para explorar este tema, Iglesia conta com o seu parceiro desde “Mutant Action”, Jorge Guerricaechevarría. O filme foi estreado mundialmente na última edição do Festival de Berlim.

Opinião: Chega Setembro e eu começo a fazer o aquecimento para o evento mais aguardado do ano para fãs de terror, como eu! A minha vontade era ver os filmes todos do festival mas, com muita pena minha, é economicamente inviável.

Começo por dizer que sou grande fã do cinema de terror espanhol e Álex de La Iglesia é uma referência no género. Daí que, quando soube que este filme estaria em cartaz nesta edição do MOTELx, não hesitei em vê-lo.

El Bar é um filme que destaca o instinto de sobrevivência numa situação limite, recorrendo a uma das sensações mais tenebrosas: paranóia. 
Inicialmente pensei que o tiroteio fosse algum acto de terrorismo e que seria um rastilho para uma trama, embora ficcionada, alicerçada sobre os constantes ataques que se têm vislumbrado na Europa. Porém, rapidamente descartei essa hipótese. O rumo da história envereda por um outro caminho, cujas pistas são dadas logo no início. Basta atentar à abertura do filme, em que mostram ampliações de bactérias. 
Além desta aparente indução ao tema do terrorismo, a história faz uma breve referência ao poder da comunicação social e como este consegue adulterar informação e assim, manipular a população.

Creio que o aspecto mais bem conseguido é a sensação contínua de claustrofobia. A história passa-se, em primeiro plano, num bar em Madrid e, posteriormente, no sistema de saneamento por baixo. Devo dizer que este segundo cenário, ainda que igualmente claustrofóbico, consegue ainda ser mais repulsivo. Impressionou-me, confesso.

Penso que as personagens representavam, de certa forma, um estereótipo na sociedade. A título de exemplo, temos a mulher aparentemente fútil, o mendigo, a viciada no jogo... e sendo um filme cujo tema relaciona-se fortemente, como já afirmei, com o instinto de sobrevivência, os actos de altruísmo são apenas pontuais.

Não obstante estes pontos que me agradaram, houve um que achei menos positivo. Na minha opinião, a origem daquela situação carecia de uma explicação mais pormenorizada. No final, fiquei com a sensação de ambiguidade sobre a verdadeira génese daquela situação.

Tirem as vossas próprias conclusões. O filme será exibido no MOTELx nas seguintes sessões e horários:

Sessão 1 - Quarta-feira, 6 Setembro 2017 às 19h00
Cinema São Jorge
Sala Manoel de Oliveira

Sessão 2 - Sexta-feira, 8 Setembro 2017 às 14h30
Cinema São Jorge
Sala 3

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Os Olhos de Minha Mãe [Opinião Cinematográfica]


Não resisti a fazer uma review deste filme. Ultimamente tenho visto uns quantos que não saem da linha da medianidade e como tal, nem penso sequer em escrever sobre os mesmos. Contudo The Eyes of My Mother arrebatou-me e sinto que devo dedicar um post a este (magnífico) filme!

Apesar de ter visto este cartaz em estações de metro aquando a sua estreia, devo dizer que foi uma estratégia de marketing que faz sentido quando os filmes são comerciais. No meu entender, Os Olhos de Minha Mãe destina-se a um público alvo muito restrito, pelo que não faria muito sentido a proliferação de publicidade alusiva a este filme. Seria, certamente, um bom candidato a abertura de festivais de terror, como o MOTELx ou o Fantasporto.

São apenas 76 minutos de uma história que tem de perturbadora como de dilacerante. Não achei a trama completamente original, confesso, mas algo no filme que me absorveu ao ponto de, após dois dias, ainda pensar na Francisca, a protagonista da história.

Nem me interesso particularmente por filmes a preto e branco (como é o caso deste) mas reconheço que deu um outro ânimo à história, tornando-a mais sombria. Além disso, denotei que a fotografia está fantástica. Os planos do cenário estão bem conseguidos assim como uma outra particularidade técnica que, a meu ver, foi diferenciador dos demais filmes de terror. Falo da omissão dos afamados jump scares ou de uma banda sonora que apele ao medo. 
Por falar na banda sonora, tenho que mencionar o efeito poderoso dos fados da Amália. Embora não sendo uma fã do género musical, devo reconhecer que intensificou a história.
E porquê fados? Porque há uma ancestralidade de origem portuguesa naquela família. Apesar de se instalar a dúvida sobre a verdadeira ocupação da mãe de Francisca, é dito ao telespectador que esta terá sido cirurgiã oftalmologista em Portugal. Além disso, inúmeros diálogos são feitos na nossa língua, ainda que não tenha conseguido reconhecer o sotaque. Ou será apenas a actriz Kika Magalhães que está enferrujada a falar o nosso dialecto?

Uma breve pesquisa sobre o realizador Nicola Pesce permitiu-me saber dois factos: a) ele é mais novo do que eu; b) este é o seu primeiro filme. A avaliar por esta experiência, será, certamente, um realizador a ter sob mira. 

Sobre a história, nada mais posso adiantar que esta se alicerça sobre um acontecimento traumático a que Francisca assiste em miúda e as repercussões deste ao longo da sua vida. Fala do desespero em ter uma família ou amigos, explora uma mente claramente sociopata. Assim como Francisca não consegue discernir a fronteira entre o certo e o errado também nós não conseguimos desagregar o dramatismo da história do terror psicológico.

O climax é completamente lancinante e senti-me aturdida nos instantes após ter terminado o filme. Isto quererá dizer alguma coisa, certo? 
Para quem é fã do género e, tal como eu, se tem sentido defraudado com os últimos filmes de terror no mercado, este é uma aposta segura. Vale mesmo muito a pena! Recomendo!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

M. Night Shyamalan - Fragmentado [Opinião Cinematográfica]


OK, já há muito tempo que não escrevia nesta minha rubrica (muito amadora e parca em posts, convenha-se). A ver se em 2017 aposto mais nas minhas opiniões cinematográficas.
Desde o ano passado, em que vi o teaser de Split, o novo filme de M. Night Shyamalan, que tinha uma grande curiosidade em vê-lo. A semana passada participei em imensos passatempos na esperança de conseguir ir à antestreia- Mission unsucessfully - pelo que fui na quinta-feira, dia de estreia, ver o aguardado filme.

Antes de mais, gosto do trabalho do realizador indiano e tenho-o acompanhado desde O Sexto Sentido. Note-se que vejo apenas os thrillers dele, pelo que perdi O Último Airbender, e assim, a minha percepção restringe-se ao género que referi. O único filme que não gostei mesmo foi A Vila. Também o fora ver ao cinema e chorei o dinheiro dado pelo bilhete. Enfim, águas passadas...

Tenho visto ultimamente nas redes sociais a partilha do trailer do filme e creio que toda a gente sabe, mais ou menos, a premissa deste filme que tem a ver com um homem, que tem 23 personalidades, e rapta três raparigas. Uma delas é especial, a Casey. Durante a história, somos elucidados com flashbacks do seu passado e percebemos que ela é diferente das duas colegas que foram sequestradas. 

A história é muito interessante. Como sabeis, a área da Psicologia sempre exerceu um grande fascínio em mim, com ênfase nesta questão de múltiplas personalidades. Considero uma personalidade/ identidade, algo tão complexo que dificilmente concebo a ideia de várias no mesmo corpo. Não é tema que veja frequentemente retratado em filmes ou livros, pelo que a trama despertou-me um rápido interesse. Isto leva-nos ao aspecto que mais me impressionou no filme, sem sombra de dúvida: a actuação de James McAvoy. Desculpem a minha ignorância, eu nem sequer conhecia o autor mas, caramba, que papel! Embora a personagem tenha 23 personalidades vigentes e uma 24ª a emergir, as poucas identidades que surgem são tão diferentes entre si. Os trejeitos, a forma de falar e de vestir, tudo... parecem mesmo pessoas diferentes, embora interpretadas pelo mesmo autor. E senti medo. Medo de uma das identidades, a responsável pelo rapto das meninas. No outro extremo, senti uma adoração por Hedwig, o menino de 9 anos, que prima pela inocência. Uma característica que Dennis, claramente, não detém.
O actor não está nomeado para os Óscares ou qualquer outro prémio mas sinceramente acho que merecia ser valorizada esta estrondosa actuação que se destaca pela exímia individualização de cada personalidade.

Não sei se o realizador terá feito alguma pesquisa sobre a temática, mas achei deveras curioso que identidades diferentes que coabitem no mesmo corpo possam apresentar características tão diferentes quanto doenças específicas ou diferentes orientações sexuais.

O tempo passou sem que desse conta. A história engoliu-me. Ora fascinada com aquelas identidades que desfilavam perante o horror das três adolescentes, ora curiosa com a que seria a 24ª que brotava de McAvoy (já vos disse que fiquei impressionada com o autor? :) )

Nos filmes de Shyamalan, costuma haver uns laivos de sobrenatural. A fórmula manteve-se. Se gostei? Acho que teria sido mais interessante se a história se mantivesse no campo da lógica. Afinal de contas, o trato da Personalidade Múltipla acarretava já uma grande complexidade (e, embora sendo rara, é verosímil). Por isso, pessoalmente mudaria uns pequenitos pormenores e, por consequente, teria fechado a história de uma forma diferente não obstante ficar satisfeita com o desfecho. Até agrega uma interessante surpresa no final: a aparição flash de uma personagem conhecida da filmografia do realizador indiano. Fiquei, naturalmente, com uma vontade de revisitar as suas obras. 

Se recomendo? Sim, muito! Foi um filme que mexeu muito comigo e, apesar de o ter visto já há uns dias, teima em não sair do meu pensamento. Para mim, a par de O Sexto Sentido, Fragmentado é dos melhores feitos de Shyamalan.

Até ao próximo filme ;) 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A Rapariga no Comboio [Opinião Cinematográfica]


Ontem foi dia de antestreia. Eu e o meu marido fomos ver A Rapariga no Comboio, filme baseado no livro homónimo de Paula Hawkins. Eu já lera o livro aquando o seu lançamento (poderão ler a minha opinião da obra aqui), contudo o Ricardo ia em branco, resultando em duas opiniões contrastantes. Vou explicar, sobretudo, os meus pontos de vista. 

Quem leu a obra, sabe que a mesma é escrita sob três POV, nomeadamente Rachel, Anna e Megan e que a acção se desenrola em diferentes momentos cronológicos. A primeira parte do filme manteve esta estrutura, identificando devidamente os POV, aludindo aos diferentes flashbacks da história. Verifiquei que, posteriormente, esta metodologia é abandonada e a história é contada de forma mais fluída. Desconheço se o realizador manteve esta fórmula do livro, numa fase inicial, para identificar imediatamente as personagens ou se era para manter esta estrutura tão particular da obra. Se a intenção do realizador era esta última, então, na minha opinião, não faz sentido uma vez que os POV só surgem na parte inicial do filme ao passo que no livro, os aludidos POV estão presentes do início ao fim.

Considero que o filme é bastante fiel ao livro. Apenas não me recordava se a personagem Martha era fulcral para que Rachel juntasse as peças do puzzle. 
Não obstante, valorizo que tenham mantido a essência da história bem como das personagens. Creio que são estas o elemento diferenciador (e talvez perturbador) da obra.

Vi algures na internet, fãs que condenavam o papel de Emily Blunt como Rachel. Sou-vos sincera, não conheço bem a filmografia da actriz britânica, mas ela respondeu às minhas expectativas como a Rachel que eu idealizara: uma mulher triste e desesperada, consequências da sua relação com o álcool. Desconhecia as outras actrizes do elenco mas creio que tanto a intérprete de Megan como a de Anna, estiveram à altura do desafio.

As quase duas horas do filme passaram a voar.  No que concerne à primeira parte na qual houve uma metodologia diferente, confesso que estranhei um pouco a forma como o filme se iniciou. Posteriormente, creio que a história flui de uma forma muito mais natural. Congratulo as actuações, com especial ênfase a de Rachel que é uma personagem bastante disfuncional e requer uma dose esmagadora de dramatismo de forma a passar para o espectador aquela carga tão negativa que é atribuída à personagem no decorrer da trama do livro. 

Em suma, considerei o filme interessante, especialmente o último terço do mesmo, no qual se desenrolam os momentos finais de grande tensão até ao clímax. Faz jus ao livro. Gostei! 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Especial MOTELx 2016: Shelley [Opinião Cinematográfica]


Sinopse: Elena, uma jovem romena, chega à Dinamarca para trabalhar como governanta na casa de campo de um casal, Louise e Kasper. A rotina de Elena inclui cuidar da frágil Louise, que devido a um aborto espontâneo ficou impossibilitada de ter filhos. Desesperada por ser mãe, Louise oferece uma avultada soma de dinheiro para que Elena seja barriga de aluguer. A sua gravidez traz alegria à casa, mas o comportamento de Elena altera-se. Parece que a vida dentro dela está a tomar forma demasiado depressa...
“Shelley” foi rodado na Suécia, por um realizador iraniano, com produção dinamarquesa. Estreou no último Festival de Berlim, convoca clássicos como “Rosemary’s Baby” e “The Omen” mas num contexto socioeconómico europeu muito contemporâneo.

Opinião: A capa é sinistra e a história faz-lhe jus. Já para não falar no cenário: uma terreola dinamarquesa no meio de nenhures, reduzida a uma vida minimalista. Sem electricidade, a água potável é proveniente de um poço e, claro, a presença do isolamento como elemento chave. É nestas circunstâncias que Elena entra na vida do casal dinamarquês para, numa primeira abordagem, cuidar das tarefas rotineiras e, posteriormente, para carregar no ventre o filho de Kasper e Louise.

Creio que a sinopse é bastante explícita. Considero Shelley o elo perdido entre o filme de Polanski e o The Omen, recordando que ambos datam dos anos 70, e como tal, alguns aspectos poderiam estar ultrapassados nos dias de hoje. Não obstante e estranhamente, o modo de vida de auto subsistência dos dinamarqueses inviabiliza a vida moderna tal como a conhecemos, repleta de gadgets e tecnologia.

Não há muito que se possa contar sobre o filme que não os acontecimentos estranhos que decorrem durante a gravidez de Elena. Formulamos inúmeras hipóteses: será uma entidade demoníaca? Uma possessão? Ou será apenas uma mera incapacidade da barriga de aluguer em levar a gravidez até ao fim? Uma dúvida que se instala até ao último minuto da película, não sendo, no entanto, devidamente esclarecida a razão de todos os acontecimentos que acabara de ver. Se é mau? Não, apela a uma interpretação muito própria e que, certamente, deferirá de telespectador para telespectador.

Eu, pessoalmente, gosto de filmes europeus. Por norma têm um budget inferior às produções "hollywoodescas" e acaba ser um desafio superá-las. Acho que estamos perante um filme bem conseguido. É bastante inquietante e o terror é sobretudo psicológico. As representações são convincentes e devo confessar que me fascinou o ambiente. Confesso-me fã da Escandinava e gostei de ver um filme que não fosse inteiramente falado em inglês (as personagens recorriam a esta língua para se entenderem uma vez que Elena era romena e o casal dinamarquês).

Para já e note-se que ainda só vi um filme da sessão deste ano, achei Shelley um filme bem conseguido. A temática não é original mas as abordagens à mesma acabam por resultar em histórias interessantes.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ruggero Deodato - Holocausto Canibal [Opinião Cinematográfica]


Já há muito que não escrevia nada na rubrica das opiniões dos filmes que tenho visto (ultimamente, tirando a série Stranger Things, não vi nenhum que fosse impressionante) mas aproveitando que o realizador Ruggero Deodato será convidado no MoteLX deste ano, decidi escrever algumas considerações para o filme, em jeito de vos desafiar a ver esta obra prima do terror.

Estreou em Itália, país de onde é natural o realizador, em 1980, naquele que viria a ser o dia do meu aniversário. O filme, bastante inovador para a altura, mesclou o film footage à típica filmagem.
Portanto se achavam que o Blair Witch Project tinha sido o pioneiro no que concerne a uma filmagem amadora (como eu outrora achei, por exemplo), desengane-se. Holocausto Canibal tem uma parte que é em footage, para tornar mais realista a premissa do filme: um documentário na floresta amazónica que incidia num grupo de locais que tinham o canibalismo como meio de subsistência. 
Esta temática já tinha sido explorada na década de 70 e creio que o primeiro filme sobre canibais também foi italiano: Il paese del sesso selvaggio de Umberto Lenzi. Portanto, este seria mais um filme sobre canibais. Porque se tornou tão polémico?

Diria que será por causa da inovadora filmagem em footage. Sem dúvida que este tipo de filmagem amadora confere uma sensação de maior realismo. O telespectador é privilegiado em assistir em primeira mão às atrocidades cometidas naquela floresta com uma sensação de que não houve qualquer tratamento das imagens. A ideia que fica, portanto, é que os eventos aconteceram tal como os vimos no documentário. Hoje em dia, este tipo de realização é mais comum.

O realizador tentou fazer uma campanha de marketing que não correu nada bem e que acabou por resultar na sua prisão. Ele pediu ao elenco do filme que "desaparecesse" uns tempos (tarefa que me parece mais difícil nos dias de hoje com as redes sociais...) e houve quem pensasse que tudo o que está no filme fora real e que aqueles três jovens teriam sido mesmo comidos vivos.
Porém, para mim, a controvérsia do filme reside na violência infligida aos animais. E sim, as mortes dos animais são reais (creio que este facto hoje ainda se torna mais polémico devido à maior consciencialização sobre a vida animal). Além de que existem alguns actos de selvajaria e violação dos ocidentais aos aparentes pacíficos indígenas. Não deixa, a meu ver, de ser uma chamada de atenção ao confronto de culturas tão díspares e o desrespeito que muitas vezes se instala nestas circunstâncias. Mais não posso revelar, evidentemente.

Quanto à trama, creio que se torna previsível o destino dos jovens que filmaram o documentário a partir do momento em que uma nova equipa se desloca à Amazónia com o propósito de os resgatar. A primeira parte é talvez mais morosa, mostrando esta equipa no trato com os locais, mostrando os seus hábitos de vida até se depararem com as fitas. A segunda parte, já em formato de documentário, mostram as gravações dos jovens e é aqui que o terror começa.

Portanto, Holocausto Canibal é um filme que é chocante na actualidade, imagino as reacções aquando a sua estreia. E por essa mesma razão, considero-o uma obra prima em matéria de cinema de terror.  Atrevam-se a ver um filme diferente, sem recurso às modernas tecnologias de efeitos especiais que abundam nos dias de hoje. E porque não, posteriormente, trocar umas impressões com o realizador no evento mais aguardado pelos fãs do género.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Especial MOTELx 2015: Purgatorio [Opinião Cinematográfica]


Sinopse: Marta, uma jovem mulher nos seus trintas, muda-se para um apartamento com o namorado. Na primeira noite fica sozinha em casa. Tudo está tranquilo até baterem violentamente à porta. É uma das suas vizinhas, que precisa que alguém fique com o filho de 10 anos, Daniel, porque o marido teve um acidente e está no hospital. Marta aceita mas as horas passam e ninguém vem buscar Daniel, cujo comportamento está cada vez mais instável, perturbador e violento. Daniel insiste que há outra criança na casa. Uma que só ele consegue ver...
Da mesma equipa responsável por «The Impossible», esta é a estreia nas longas-metragens de Pau Teixidor depois da curta «Leyenda» (MOTELx 2012) e também a de Oona Chaplin (“Game of Thrones”) como protagonista.

Opinião: Antes de iniciar a minha opinião sobre Purgatorio, devo dizer que sou grande fã do terror espanhol. Lembro-me, assim de repente, de ter gostado muito dos [REC]s, Mientras Duermes, Los Ojos de Julia, El Orfanato e de um conjunto de filmes designados Peliculas Para No Dormir. Daí que estava bastante expectante com Purgatorio.

Contudo as minhas expectativas foram defraudadas. A sinopse, que deixava antever uma trama com uma criança psicopata, gradualmente remeteu para o assunto de assombrações (tema que normalmente excluo dentro do género de terror). Neste prisma, achei que a entidade em questão era bastante previsível bem como o ambiente criado para o efeito: os apagões repentinos, o lusco fusco criado por velas, as aparentes sombras, e por aí adiante.

Aliado a estes clichés, o realizador leva-nos numa direcção que simplesmente não consegui interpretar. Não percebi como se chegou ao final. Sim, eu sou bastante céptica com fenómenos paranormais mas regra geral, consigo absorver as respostas que me vão sendo dadas nos filmes sobre assombrações. Infelizmente isso não aconteceu em Purgatorio. A boa notícia para mim é que vi este filme com o Ricardo e nem ele conseguiu interiorizar o que Pau Teixidor pretendia.

Como ponto forte destaco o trabalho de Oona Chaplin. Só a conhecia de Game Of Thrones, confesso. Desconhecia que a actriz falava espanhol e agradou-me muito o seu desempenho. Em praticamente toda a trama temos apenas dois intervenientes, a Marta e o jovem Daniel que foi obrigado a passar a noite na casa da vizinha. Consegui absorver uma série de sensações de Marta, desde o incómodo inicial em abrigar Daniel, às suas frustrações e ao medo que vai generalizando dentro desta. Decididamente, fruto da interpretação talentosa de Oona Chaplin.

Como filme de assombrações, prima mais pelo suspense psicológico do que propriamente violência explícita, pelo que não existem cenas gore. Essas, para mim, são mais impressionáveis.

Na minha opinião, Purgatorio é um pouco confuso e desenvolve uma ideia que já foi recorrentemente usada em cinema. Não trouxe nada de novo ao género e como tal, infelizmente não me cativou como desejaria.

Sessões MOTELx
11/09 - 19h15

Especial MOTELx 2015: Cub [Opinião Cinematográfica]


Sinopse: Sam, um rapaz de 12 anos com tendência para o isolamento, parte para um acampamento de escuteiros. No caminho, os amigos contam-lhe que a floresta para onde vão acampar é assombrada por uma criatura meio-criança, meio-lobisomem chamada Kai. Quando chegam, Sam encontra uma casa numa árvore e um rapaz selvagem com uma máscara. Conta aos orientadores, mas estes não o levam a sério. O que terá Sam realmente visto na floresta?
«Cub», primeira longa do realizador, parcialmente financiado por crowdfunding, é uma homenagem bucólica ao giallo, enquadrado pela lente de Nicolas Karakatsanis, director de fotografia de «Bullhead», nomeado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e de «Linkeroever» (MOTELx 2009).

Opinião: Antes de começar a ver este filme, achei sinceramente que não iria gostar pelo facto de Kai, o meio termo entre criança e lobisomem, ser uma criatura do imaginário, uma particularidade do vulgar bicho papão que assusta as crianças.
Como me enganei. Esta história é uma desmistificação de um mito urbano, indo ao encontro das demais protagonizadas por serial killers. E sim, creio ser legítimo apelidar não só Kai como uma outra personagem de cariz secundário, de serial killers. Existem várias mortes, algumas delas bastante criativas recorrendo a alguns engenhos fatais habilmente construídos.

A trama é bastante criativa neste sentido, embora não inovadora de todo. Recordou-me um pouco das armadilhas em Saw (se bem que estas são mais sofisticadas).
Notei uma deficiente caracterização de Kai, justificada pelo orçamento restrito usado em Cub (relembre-se que o filme foi parcialmente financiado por crowdfunding). 

O elemento mais perturbador da história relaciona-se, na minha opinião, com o facto da maioria das personagens serem crianças e uma delas em particular, o pequeno Sam, ser vítima de bullying por ser diferente dos outros meninos. E o mais chocante é este bullying ser perpetrado por praticamente todas as personagens da história, inclusivé um dos monitores. Apesar de discernir a ficção da realidade, dado que trabalho com crianças, vejo a obrigação de proteger as que são diferentes e mais susceptíveis a violência quer física, quer psicológica.
Também os amantes de animais ficarão abismados com o filme devido a um episódio em particular.

Cub é um filme que prima por ser numa língua incomum, o flamengo. É interessante, para mim, ouvir outros dialectos que não estou habituada.

Como filme de terror, Cub cumpre os requisitos necessários. O ambiente é, praticamente desde o início, bastante tenso e inquietante e a segunda parte do filme torna-se bastante violenta com algumas cenas gore. Não creio, no entanto, que seja uma história com grandes reviravoltas. Achei o enredo bastante linear.
Até agora não destronou o meu preferido da parada, Turbo Kid.

Sessões MOTELx
11/09 - 17h15

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Especial MOTELx 2015: I am Here [Opinião Cinematográfica]


Sinopse: Maria é uma empresária de sucesso, a lutar para realizar o seu maior desejo de todos: trazer uma criança ao mundo. Depois de sofrer outro aborto espontâneo, o médico informa Maria que ela é demasiado velha para aguentar uma gravidez. Todo o seu mundo desaba. Devastada e incapaz de aceitar o seu destino, Maria lança-se numa desesperada e perigosa missão para concretizar o seu sonho. Nada nem ninguém a vai impedir de ser mãe.
Quarto filme do multifacetado Anders Morgenthaler, que a Twitch definiu como um “thriller biológico” aquando da sua estreia no Fantastic Fest. Destaque para a melhor interpretação de Kim Basinger desde «LA Confidential» que lhe valeu um Oscar em 1997.

Opinião: I am Here é, como a sinopse indica, uma história em torno da maternidade, um tema pouco inovador mas bastante sensível sobretudo ao público feminino. Qualquer interpretação que se faça sobre a obsessão em ser mãe acaba por, regra geral, ser bastante assustadora. Numa situação limite, creio que as pessoas são capazes de tudo. 

E é basicamente este o caso de Maria, uma mulher impossibilitada de ter filhos. Kim Basinger, detentora de papéis variados mostrando ser uma actriz versátil, encarna a pele desta personagem conturbada que tenta a todo o custo ser mãe.

Diria que este filme é pautado por um ritmo moroso devido essencialmente ao dramatismo que se instala na vida de Maria. Nenhuma das gravidezes vingou e a última colocou em risco a sua própria vida. Evidentemente que uma situação tão complicada como esta afecta não só a saúde mental da personagem bem como a relação entre esta e o marido, Peter.
Portanto, a protagonista é psicologicamente complexa e bastante determinada em atingir o seu principal objectivo, deixando antever que a sua missão será bastante perigosa.

No entanto, creio que as minhas expectativas foram deitadas por terra. Não que tenha achado o filme entediante mas acho que a trama apenas se tornou verdadeiramente emocionante a partir dos 50 minutos mais coisa menos coisa. Já nos momentos finais da película é que se sente com mais intensidade a dita componente de terror. Fiquei com a sensação que se esta parte fosse mais explorada, o filme teria proporcionado mais emoções fortes. 
Assim sendo, cabe a mim julgar este filme como um drama com uns laivos de thriller, género que se distancia do terror. Não é, portanto, um filme assustador, apelando sobretudo a uma reflexão devido à história perturbadora. 

Dado que a temática do filme é de cariz psicológico, I Am Here é praticamente isento de imagens gráficas e as (poucas) cenas de violência não foram explícitas. Ainda que a trama seja sobre uma ambição desmesurada pela maternidade (ultrapassando os limites éticos para a concretizar), o filme é uma chamada de atenção para o flagelo da prostituição infantil.

Em suma, é um filme interessante pela temática abordada que naturalmente causa alguma angústia no telespectador, mas em matéria de terror existem filmes mais tenebrosos.
Vale também pela fabulosa interpretação de Basinger.

Sessões MOTELx
13/09 - 19h

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Especial MOTELx 2015: Burying The Ex [Opinião Cinematográfica]


Sinopse: Max é um tipo simpático que trabalha numa loja de adereços de Halloween. A sua belíssima namorada, Evelyn, é uma eco-activista que lhe dá pouco espaço de manobra. Cometem o erro de irem viver juntos, o que torna Evelyn numa pessoa ainda mais manipuladora. Max apercebe-se que cometeu um erro, mas há um problema: ele tem pavor de acabar a relação com ela. O destino intromete-se e Evelyn morre num acidente, deixando Max solteiro e disponível. Entretanto conhece Olivia, que é muito parecida com ele e pode muito bem ser a sua alma-gémea. Só que Evelyn, mesmo morta, não vai desistir assim tão facilmente. Cinco anos depois de «The Hole», o Mestre do Terror Joe Dante regressa ao género que conhece como ninguém: a comédia romântica de terror.

Opinião: Joe Dante é, para mim, o pai dos Gremlins, um filme que vi inúmeras vezes nos anos 80. Portanto, e de acordo com as memórias que tenho do filme dos mogwais, esperava que Burying The Ex roçasse o terror, embora se mantivesse dentro do humor negro. E assim foi, de facto.

Não obstante ter sido um filme que me entreteve durante 89 minutos, creio que Burying The Ex não é muito inovador, relembrando-me muito os filmes A Morte Fica-vos Tão Bem e A Noiva Cadáver.
Creio que o único aspecto mais original foi o facto de mencionar uma série de clássicos de terror como The Night of The Living Dead de George Romero ou Gore Gore Girls de Herschell Gordon Lewis. Por falar neste último (e para quem não sabe, Herschell Gordon Lewis foi o pioneiro em filmes gore no cinema, iniciando-se no cinema nos anos 60), creio que as cenas mais gráficas do filme foram precisamente as do visionamento de Gore Gore Girls. Bem, talvez adicionando uma ou outra cena protagonizadas pela namorada zombie.

Pois... a cadáver. Estando Evelyn morta e regressa ao mundo dos vivos, devo acrescentar que, na minha opinião, se o telespectador ficar impressionado com algum aspecto do filme, será muito devido à decomposição gradual do cadáver.

Identifiquei-me com o protagonista nomeadamente o seu gosto pelo terror e achei curioso o seu emprego naquela espécie de loja de oddities. Adorei, neste prima, todo o merchandising referente à industria do terror.
Creio que este filme acaba por, de forma dissimulada, dissertar sobre o tema obsessão nas relações. A meu ver, a trama é linear e não trouxe nenhuma reviravolta final que me surpreendesse.
Na minha opinião, Burying The Ex distancia-se do género terror mas vale pelo sarcasmo e humor negro. Além disso, gostei das referências acima enumeradas bem como os breves clips de Vincent Price e Christopher Lee. Todavia, não creio ser dos mais fortes do cartaz do MOTELx.

Sessões MOTELx
10/09 - 19h15

Especial MOTELx 2015: Turbo Kid [Opinião Cinematográfica]


Sinopse: Nas ruínas de um futuro pós-apocalíptico imaginado de 1997, um adolescente órfão chamado “the kid” dedica o seu tempo à procura de relíquias nos escombros. Um dia encontra uma rapariga misteriosa. Mas enquanto se conhecem, ela é raptada pelo tirano Zeus, também responsável pela morte dos pais de “The Kid”. Destruir Zeus para vingar a morte dos seus pais e salvar a rapariga dos seus sonhos torna-se a sua missão. Produzido por Jason Eisener («Hobo with a Shotgun») e Ant Timpson, «Turbo Kid» – baseado num segmento concorrente a «ABCs of Death», produzido por Timpson –, estreou este ano em Sundance e a sua sensibilidade romântica gore fê-lo ganhar o prémio do público no SXSW Film Festival.

Opinião: O ano é 1997 mas o mundo é completamente diferente daquele que nós conhecemos. Uma distopia sob a forma de uma realidade alternativa é o cenário de Turbo Kid, um dos filmes do cartaz do MOTELx deste ano
Este filme chamou-me a atenção depois de ter visto que estava na ementa dos mais fortes. Mesmo assim, não considero que este filme se categorize como terror ainda que haja uma abundância de cenas gore. Portanto, um filme que agradará os mais destemidos que não se importem de ver alguns litros de sangue e umas tripas. Se tivesse que categorizar este filme, diria que era o meio termo entre o sci fi e o género de acção.

Turbo Kid é também um revivalismo dos anos 80 e foi para mim prazeroso ver de novo cassetes e walkmans, cubos de Rubik e view masters, objectos que me parecem obsoletos nos dias de hoje. No entanto, os telespectadores que viveram as suas infâncias nos 80s, como foi o meu caso, ficarão decerto rendidos. 
Até as brincadeiras entre os protagonistas do filme, o miúdo (cujo nome se desconhece em todo o filme) e Apple, uma estranha rapariga com quem trava amizade, me pareceram algo desactualizadas. Simplesmente, nos dias de hoje, as crianças não brincam às escondidas nem à apanhada.

Não posso deixar de reflectir que Turbo Kid é uma chamada de atenção para a consciência ambiental. A água é um bem racionado e extremamente raro, sendo extraída de processos pouco éticos. Terá havido uma catástrofe que condicionou não só a falta deste recurso, como terá mudado a paisagem (abundantemente baldia), o clima e, indirectamente, a relação entre as pessoas.

Sendo um filme canadiano, confesso que não conhecia nenhum actor, com excepção de Michael Ironside que veste a personagem do vilão. Devo também dizer que a reviravolta do filme relaciona-se precisamente esta personagem, Zeus.

Este filme oferece 93 minutos repletos de acção, sem momentos mortos. Por momentos, fez-me recordar dos filmes A Boneca Mecânica com Melanie Griffith e Mad Max com Mel Gibson. Ahhh, sem esquecer da série que vi em miúda, os Turbo Rangers.

Em suma, Turbo Kid é, indubitavelmente, um filme diferente dos que tenho visto nos últimos tempos devido à combinação vencedora entre uma realidade alternativa que parece ter ficado retida nos anos 80. Uma boa aposta para o festival que se aproxima a passos largos, portanto.

Sessões MOTELx
Dia 09/09 - 16h30
Dia 11/09 - 00h15