sábado, 6 de julho de 2013

Anne Perry - O Estrangulador de Cater Street [Opinião]


Sinopse:  Enquanto as irmãs Ellison - Charlotte, Sarah e Emily - visitam amigos e tomam chá nos melhores salões londrinos, uma das suas criadas é brutalmente assassinada. Para Thomas Pitt, o jovem e pacato inspetor destacado para o caso, ninguém está acima de suspeita.
A sua investigação na requintada casa da família Ellison vai provocar reações extremas: para uns, será de absoluto pânico; para outros, de deselegante curiosidade; para a jovem Charlotte será algo mais íntimo e empolgante. Algo capaz de levar Thomas a perder momentaneamente o seu instinto detetivesco e a andar com a cabeça nas nuvens. Mas sobre o casal pairam sombras impossíveis de ignorar: Charlotte é uma menina da sociedade e Thomas pertence à classe trabalhadora… e o assassino que atormenta as ruas da cidade continua à solta, implacável.

Opinião: Depois de ter lido o primeiro volume desta colecção Crime à Hora do Chá, Morte na Aldeia de Caroline Graham, depositei grandes expectativas neste O Estrangulador de Cater Street. A avaliar pelos dois primeiros volumes, Crime à Hora do Chá promete ser uma excelente colecção! No entanto, confesso que ao estabelecer uma comparação entre os dois livros, a minha preferência recai para o primeiro.

O Estrangulador de Cater Street é o primeiro da série protagonizada por Thomas Pitt e na minha opinião, combina dois géneros: o policial e o histórico. Por ter lugar na era vitoriana, estamos perante alguns casos de homicídio por estrangulamento, um método de homicídio muito clássico, adequando-se à época em questão. E histórico porque, acima dos crimes e da investigação, há um panorama bastante extenso das questões sociais do final do século XIX em Inglaterra. Os amantes do género histórico vão adorar este livro precisamente por este facto. Longas são as considerações sobre os estratos sociais e as distinções entre as mesmas são evidentes: a pequena/média burguesia que vive confortavelmente sem se preocupar com os mais encarecidos. Não obstante, o crime não olha a nuances sociais e ocorre em qualquer que seja o estrato social...

Um moroso arranque caracteriza este livro, debruçando-se essencialmente no início sobre o direito das mulheres, notando-se pouco interesse na instrução das mulheres mesmo em classes mais abastadas. E quando o eram, como o exemplo clássico de Charlotte, a omissão de assuntos com importância em jornais vespertinos, era banal. As mulheres deveriam ficar o mais isentas quanto possível de informações. Na era vitoriana, as mulheres, sem dúvida, eram secundarizadas.
Rapidamente nos familiarizamos com o núcleo Ellison: patriarca bancário, pertencente então à classe da pequena burguesia, casado com três filhas. Um dos aspectos que também me agradou particularmente na trama foi o desvendar de segredos que ocorriam no seio da família, mostrando que o dinheiro nem sempre garante felicidade.

Um subtil spoiler quando atentei no nome da saga: esta seria protagonizada por Pitt e Charlotte. Ora Charlotte é a filha mais nova dos abastados Ellison, facto que, iniciada a leitura, me sugeriu algum romance entre os dois. Como estava errada: a subtil química é de facto muito discreta como aliás sugerem os romances de época, com a agravante de Charlotte e Pitt pertencerem a classes sociais diferentes e como tal, um elemento contraditório a um possível casamento entre as personagens.
Particularmente gostei dos procedimentos utilizados por Pitt para resolver os crimes, numa época onde a ciência forense era desconhecida. Reunindo um grupo flutuante de suspeitos (e aponto flutuante pois as pistas permitiam retirar ou incluir mais um suspeito na lista), Pitt interessou-se pela psicologia do criminoso.

No entanto, a sensação com que fiquei, é que o crime ou a investigação do mesmo perde-se em tantas descrições (e atente-se que são bem conseguidas) da sociedade vitoriana. Já tive oportunidade de referir que esta sociedade de época fascina-me mas acaba por ofuscar as investigações criminais de Pitt que recaem sobre método de questionário como aliás, seria de esperar.

Fiquei de facto impressionada com o final e o desvendar deste estrangulador que atormenta as jovens. No entanto, esta revelação pareceu-me um pouco abrupta e gostaria de tê-la visto mais desenvolvida. 
No entanto, gostei e achei que a aleatoriedade destas mortes levadas a cabo pelo estrangulador, surpreende o leitor. Falo por mim, que fiquei deveras chocada com uma das vítimas.

Não que o livro me tenha desgostado, mas estava com expectativas de um livro do mesmo género que costumo ler. No entanto este descentraliza-se do crime e do estrangulador, enfatizando uma grande riqueza histórica. A componente policial, embora a meu ver. diminuta, é também bastante interessante.
Fui apanhada de surpresa por ter optado por uma leitura que acaba por ser diferente. Ficarei a aguardar uma nova trama de Anne Perry para satisfazer a dúvida: será que Charlotte, doravante, irá colaborar de uma forma mais activa com Thomas Pitt nas investigações dos casos? 
Mas acima de tudo, desejosa por um próximo volume desta colecção Crime à Hora do Chá, previsto para Novembro com o título Crime de Luxo de Ngaio Marsh.


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