domingo, 9 de novembro de 2014

Romain Puértolas - A Incrível Viagem do Faquir que Ficou Fechado num Armário Ikea [Opinião]


Sinopse: Ajatashatru Larash Patel, faquir de profissão, que vive de expedientes e truques de vão de escada, acorda certa manhã decidido a comprar uma nova cama de pregos. Abre o jornal e vê uma promoção aliciante: uma cama de pregos a €99,99 na loja Ikea mais próxima, em Paris. Veste-se para a ocasião - fato de seda brilhante, gravata e o seu melhor turbante - e parte da Índia com destino ao aeroporto Charles de Gaulle. Uma vez chegado ao enorme edifício azul e maravilhado com a sapiência expositiva da megastore sueca, decide passar aí a noite a explorar o espaço. No entanto, um batalhão de funcionários da loja a trabalhar fora de horas obriga-o a esconder-se dentro de um armário, prestes a ser despachado para Inglaterra. Para o faquir, é o começo de uma aventura feita de encontros surreais, perseguições, fugas e aventuras inimagináveis, que o levam numa viagem por toda a Europa e Norte de África.

Opinião: Para descomprimir das leituras criminais, gosto de enveredar por livros que são completamente diferentes. Há muito que A Incrível Viagem do Faquir que Ficou Fechado Num Armário Ikea estava na minha estante, a aguardar por uma altura de saturação dos homicídios tão típicos dos meus livros de eleição. Tardou mas chegou... li com muito prazer esta obra tão diferente das que usualmente leio.

Antes de mais, devo referir que adoro a capa! Nos tons da bandeira sueca, amarelo e azul, e com o protagonista indiano, creio que é mesmo sugestiva. Também não deixa indiferentes aqueles que, como eu, são fãs da cadeia de lojas da multinacional sueca Ikea. Aliás e para estes até digo mais: as páginas iniciais sobre o passeio do indiano na loja, despertam um sentimento de familiariedade. Mesmo sendo uma loja em Pais, é em tudo semelhante às lojas que eu conheço em Alfragide e Loures.

A presente obra proporcionou-me uma leitura leve e espirituosa. 
Como o título sugere, o indiano é submetido a muitas provações algumas das quais mirabolantes, na sua viagem à loja. Ainda assim, não deixa de tecer um subtil crítica à sociedade e ao fenómeno da globalização. A meu ver, esta aumenta o fosso entre os países industrializados do norte e os subdesenvolvidos do sul, acabando por ser um incentivo à emigração ilegal.
Não é só de flagelos os temas abordados na obra que apelam à reflexão. Puértolas faz uma alusão aos valores da amizade e do amor, sentimentos que são universais independentemente da cultura de cada um.

Embora com a ocupação de faquir, o indiano Ajatashatru Larash Patel costuma enganar as pessoas, dizendo que sabe por em prática alguns truques de magia. No entanto, é uma personagem que evolui ao longo da trama. Inicialmente charlatão, no final ele revela um outro lado mais honesto.
Note-se ainda o papel relevante do indiano, que atenta o leitor para as questões sociais, religiosas e políticas que vão surgindo na história.
Na realidade, e a meu ver, ele reforça o estereótipo da sociedade indiana como uma sociedade desigual. Muitas descrições do seu país natal relembraram-me o filme Quem Quer Ser Bilionário.

Não deixo de referir também uma personagem que, embora sendo secundária, desencadeou em mim uma série de sorrisos e até gargalhadas, um taxista de etnia cigana, residente em França de seu Gustave. A situação protagonizada por ele e por Patel é de rir a bandeiras despregadas.

Por ser haver uma multiplicidade de cenários, a história acaba por ser quase como um desfile das várias culturas. A obra leva-nos a viajar por países mediterrânicos, nomeadamente por França, Espanha e Itália, e mais a sul, na Líbia.

Em suma, esta obra é recomendada para os fãs dos livros espirituosos e de autores como Janet Evanovich e David Safier. Descontraído e leve, A Incrível Viagem do Faquir que Ficou Fechado num Armário Ikea não deixa de apelar à reflexão sobre os temas que aborda. Com cerca de 200 páginas, garante algumas horas bastante divertidas. Gostei! 

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