segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Haylen Beck - Desapareceram... [Opinião]

Sinopse: AQUI

Opinião: A minha primeira crítica a esta obra está logo à vista: a capa não corresponde, de todo, à história. Se a ideia era apresentar um brinquedo abandonado, poder-se-ia ter ilustrado a capa com um peluche cor-de-rosa (o Gogo da Louise) num deserto. Não vejo qualquer correlação entre esta capa e a história, apesar de reconhecer, de certa forma, um elemento aterrador nesta imagem. 

Além disso, aponto uma crítica à tradução que não é das melhores. Não me recordo de ter lido um livro da Editorial Presença com uma tradução tão pobre.
Para fundamentar esta minha percepção, gostaria de enumerar alguns exemplos. Não me convenceu que duas crianças americanas cantem músicas infantis como 'Fui ao Jardim da Celeste' e 'Atirei o Pau ao Gato', já para não mencionar o uso de termos da gíria portuguesa em situações que careciam de uma linguagem mais formal. Não fiz um levantamento minucioso mas outra expressão que cortou a tensão da trama foi "escangalho-te à porrada". Comecei a rir. Não sou licenciada em língua portuguesa mas fez-me alguma confusão o facto de aparecerem os pronomes interrogativos no final da frase ("Estás onde?") ou usar um verbo auxiliar (totalmente dispensável) em frases como "O que foi que aconteceu?". O uso do grau diminutivo dos nomes foi uma constante e não entendo a razão.
Outro exemplo, este deixou-me furiosa, na página 283 "... não devia ter deixado ela ir-se embora" e mais tarde, na 290 "Não deixe ele sair de lá...". Curiosamente é neste ponto que mais insisto com os meus alunos pois valorizo uma pronominalização correcta.
Em suma, a obra carecia, de facto, de uma tradução e revisão mais cuidadas. 

Mesmo com estas distracções decorrentes da tradução, esta é uma história muito séria, abordando dois temas aos quais sou sensível. Um deles é mencionado na sinopse, podendo, por isso, falar sobre o mesmo: a violência doméstica. Audra é apanhada nesta situação pois fugia de um marido abusivo. Não é explorado em demasia, mas os seus flashbacks relatam a evolução da relação do casal, nada saudável. Recordo-me logo de um outro título da editora, No Canto Mais Escuro, em que o desenvolvimento da história era muito mais dilacerante. Aqui não senti tanto esse efeito, até porque estamos a braços com uma outra situação complicada.

Omito o outro tema para que sejam apanhados de surpresa: o motivo pelo qual as crianças desaparecem. E a partir da identificação deste, a trama tornou-se linear e parca em reviravoltas. Portanto, o desfecho não me surpreendeu porque está em consonância com tudo o que lera até então.

É um livro com acção frenética, tornando-se, por isso, uma obra viciante. Atrevo-me a dizer que daria uma excelente adaptação cinematográfica.
Não demorei muito mais que 24 horas para a terminar, sempre com expectativa numa viragem na acção. Algo que nunca aconteceu e que nesse aspecto me decepcionou. 

O que mais gostei nesta trama foi o facto de se debruçar sobre o desaparecimento das duas crianças e haver uma parte da narrativa que transcorre sob o ponto de vista das mesmas.
Sendo vítimas de duas situações: repercussões da violência doméstica sobre a mãe e agora a nova situação, não deixamos de nutrir compaixão pelos pequenos Sean e Louise. Creio que é palpável o medo que o leitor chega a sentir por aqueles meninos. Igualmente convincente foi a atitude da mãe perante todo aquele horror.

Bem conseguida foi também a análise à complexidade moral das diversas personagens, denotando-se uma grande amplificação. Creio que a que se tornará mais memorável é, sem dúvida, a corrupção policial. Também considerei o trato da influência dos media como interessante e verosímil. 

Desapareceram... parecia, à primeira vista, um livro promissor. Estava perante a incerteza sobre o destino daqueles miúdos e devastada com a história de vida de Audra. Contudo, com o decorrer da trama, linear e previsível, senti que não apreciei tanto a obra como gostaria. E confesso que o desmazelo na tradução, já aqui explanado, intensificou esta minha percepção. 

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