terça-feira, 30 de maio de 2017

Daniel Silva - A Viúva Negra [Opinião]

Sinopse: AQUI

Opinião do Ricardo: A Viúva Negra é o novo romance do aclamado escritor norte-americano Daniel Silva e é o décimo sexto da série Gabriel Allon, contudo, para mim, foi a primeira leitura de uma obra deste autor.

Ainda antes do início da narrativa somos alertados, por uma nota do referido autor, para o facto de a obra em questão estar já em fase de conclusão aquando dos verídicos atentados de Paris na noite de 13 de Novembro de 2015. A razão dessa chamada de atenção por parte de Daniel Silva fica esclarecida logo nas primeiras páginas da narrativa, pois toda a trama emerge a partir de um grande atentado em Paris contra o edifício onde se encontrava instalado um centro judaico.

De seguida vamos assistir às movimentações de várias organizações governamentais europeias dedicadas a operações de espionagem e contra-terrorismo, vulgarmente designadas como “serviços secretos” e simultaneamente vamos travar conhecimento com Gabriel Allon, operacional de uma agência governamental israelita e o protagonista não apenas da presente obra, como de toda uma saga que, conforme referido, conta já com dezasseis títulos.

Sem querer desvendar muito das funções que Allon ocupa na hierarquia da Secreta israelita, esse personagem apresenta-se-nos como um homem experiente de cabelo já grisalho cuja idade nunca é revelada mas que poderá rondar os 50 anos de idade. O mesmo é também apresentado como alguém com um talento invulgar para a pintura, com particular destaque para o restauro de obras de grandes mestres da pintura como Caravaggio. Contudo fica a impressão de que este Gabriel Allon é um indivíduo que possui inúmeros atributos em variadas áreas, sendo igualmente dotado de um instinto que lhe permite vislumbrar os inimigos antes dos demais operacionais dos serviços secretos. Por isso uma pequena crítica tem que recair sobre este protagonista que, mau grado ser assombrado por alguns fantasmas do seu passado (algo que é cada vez mais comum nos protagonistas de romances policiais ou de espionagem), afigura-se-nos como uma figura quase demasiado perfeita para ser verdade, o que o afasta de alguma verosimilhança.

Numa primeira fase da trama Gabriel Allon une esforços a Paul Rosseau, alto quadro dos serviços secretos franceses, e a Farid Barakat, líder dos serviços secretos jordanos, procurando manter um certo equilíbrio nas frágeis relações entre agências governamentais europeias e as agências dos aliados do mundo árabe. Os seus esforços levam-nos a descobrir toda uma rede de recrutadores do auto-proclamado Estado Islâmico (em árabe: الدولة الإسلامية, ad-Dawlat al-Islāmiyah), rede essa que estende os seus tentáculos, desde os campos de treino localizados na região de fronteira entre a Síria e o Iraque, até aos subúrbios das grandes capitais europeias como Londres, Paris ou Bruxelas.

Neste capítulo acabamos por ser agradavelmente surpreendidos pelo grau de profundidade com que Daniel Silva aborda a complexa problemática do Estado Islâmico e das suas ramificações na Europa. Embora a informação possa, à primeira vista, parecer demasiado exaustiva, creio que é de aplaudir a aturada investigação a que Daniel Silva se dedicou e que, sem dúvida, vai muito além do que é veiculado pelos meios de comunicação social ocidentais.

Num segundo momento da narrativa, conhecemos então a doutora Natalie Mizrahi, uma médica judia de origem francesa que trabalha num hospital israelita e que vai ser contactada pelo Departamento de Gabriel Allon para ser um precioso auxiliar na luta contra o terror do Estado Islâmico. A partir daí a narrativa assume uma melopeia mais descritiva no que concerne aos métodos de treino e inserção de operacionais na complexa teia de terror criada pelo gigante do terrorismo internacional. Esta nova fase, que gira quase exclusivamente em torno de Natalie, acaba por secundarizar o próprio Gabriel Allon e corresponde simultaneamente a uma parte significativa da trama, pautando-se por um ritmo mais lento mas, por vezes, com momentos de alguma tensão.

É apenas na terceira e última fase da presente obra que a mesma vai adquirindo um ritmo cada vez mais elevado, desdobrando-se entre as movimentações de Gabriel e de Natalie até um clímax de verdadeira tensão e terror que certamente não desiludirá os fãs do género. Todavia estes momentos que nos fazem retesar todos os músculos do corpo são seguidos por um longo anti-clímax, corporizado nas últimas quarenta páginas da narrativa, que vão esclarecer algumas coisas do passado de Allon e que poderão revestir-se de algum interesse para quem acompanha a saga mas que se podem revelar algo penosos para aqueles que, como eu, escolheu A Viúva Negra como primeira leitura no cânone de Daniel Silva.

Sem dúvida uma leitura interessante e, nalguns momentos, bastante empolgante, que entusiasmará os fãs do subgénero espionagem e que, como referido anteriormente, é pontuada por várias descrições e informações sobre o auto-proclamado Estado Islâmico que sublinham a verosimilhança de um momento dramático actualmente vivido no Ocidente onde o modus vivendi tem sido frequente e abruptamente interrompido por acções de terror perpetradas pela aludida organização terrorista ou pelos seus simpatizantes que se encontram espalhados por vários países ocidentais.
Em suma, mais do que uma leitura, A Viúva Negra é um alerta para os novos e perigosos momentos que atravessamos.  


1 comentário:

  1. Boa Ricardo. Concordo contigo. Eu conheço todos os rommances da serie do Gabriel Allon e digo-te que este e o mais fraco no que diz respeito a construçao da personagem principal. Vou mesmo ao ponto de dizer que quem nao conhecer o Allon de outros romances anteriores nao vai ficar muito entusiasmado com ele. E e pena porque a serie e mesmo muito boa!
    Beijinhos aos dois
    Manela

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