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terça-feira, 28 de junho de 2022

Horror novellas em inglês

A minha busca incessante por literatura que seja, realmente, perturbadora e que me deixe estupefacta, conduziu-me a algumas obras e escolhi ler duas. São novellas, o que são mais curtas e merecem ser mencionadas por aqui: 

Things Have Gotten Worse Since We Last Spoke tem uma capa fascinante (foi o que captou a minha atenção de imediato). Soube também que este livro foi sensação na rede social TikTok e fiquei mesmo muito curiosa com o mesmo. Não querendo entregar muito sobre a história, esta é sobre duas mulheres que se encontram num chat e desenvolvem uma relação que vai assumindo contornos sombrios e obsessivos. Este tipo de tramas, alicerçadas sobre relacionamentos disfuncionais, interessam-me muito apesar de, regra geral, não ser a maior entusiasta do estilo epistolar, forma como a história se desenrola. Como foi um livro lido em inglês, estranhamente a narrativa em forma de entradas de um chat ou variados e-mails trocados pelas protagonistas, tornou-se mais dinâmica e, juntando ao reduzido número de páginas, fez com que tivesse lido esta obra em cerca de 24 horas. 
Considero que o autor conduziu esta trama de forma intrigante: nas páginas iniciais menciona que o leitor irá ler informações da polícia que está a investigar a morte de uma das personagens. OK, parece-me que estamos perante um spoiler logo no início, porém, este warning torna a narrativa muito viciante e quase como apanha o leitor para, ele próprio, participar nesta investigação policial. A relação entre as duas personagens tornou-se muito intensa em poucas páginas, parecendo-me a mim, que Eric LaRocca se quis precipitar para "aquecer" os acontecimentos - o que também compreendo se tiver em atenção que estamos perante uma novella. Muito honestamente há ali uma ou outra situação que considero tola como um contrato semelhante ao que Anastacia Steele assinou em firmar a relação com o afamado sr. Grey. À medida que a história se encaminha para o final, a situação começa a ser desconfortável. E sim, incomodou-me a última provação apesar do autor desvendar imediatamente qual seria o desfecho de uma personagem. Se é um bom conto de terror? Sem dúvida, mas indicado àqueles que apreciam um bom body horror. Contudo, esta história carecia de menor cadência. Creio que daria um melhor livro do que é em conto. Agora que penso nisto, não sei se gostei da obra mas o certo é que não me sai da retina.
 
Num registo completamente diferente, Comfort Me With Apples estava também em listas de novellas de terror. Contudo, para mim, não é uma obra que satisfaça em pleno os fãs do género. Atentei muito no título quando iniciei a leitura e as primeiras alusões ao local onde ocorre a narrativa, Arcadia, tiraram-me as dúvidas para o que aí viria. Portanto não tive qualquer factor surpresa: o afamado twist está já no título do conto. Não há qualquer dúvida que o estilo de escrita deste seja mais elaborada, parecendo que estamos perante um conto de fadas, porém, não me cativou. Não creio que estivesse perto de um thriller ou um terror. Temos a personagem principal, Sophia, que vive num sítio lindíssimo e paradisíaco. É casada e tem como mantra dizer a si mesma que foi feita para o seu marido e que é muito feliz. O local onde habita é muito à Stepford Wives e poderia mesmo ter potencial mas, lá está, creio que a autora quis, acima de tudo, recontar um episódio bíblico. A meu ver, acresce uma dificuldade em colocar elementos de terror que sejam convincentes e que seja sinónimo de algo verdadeiramente assustador. Apesar de ter gostado imenso da escrita da autora, esta história, lamentavelmente, não me cativou.
 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Zoje Stage - Baby Teeth [Opinião]


Terminei mais um audiobook e este é bastante peculiar. Começo por mencionar que a experiência de ouvir esta história em audiobook foi bastante positiva uma vez que a narradora consegue fazer os vários sotaques das personagens, cativando o ouvinte.

Afianço-vos que ficarão chocados com este livro embora vá beber a duas obras cinematográficas: The Bad Seed de 1956 e The Omen de 1976. O tema é, como poderão depreender pela citação destes filmes, crianças diabólicas.
Baby Teeth debruça-se sobre uma relação disfuncional entre mãe e filha e esta é, claramente, a vilã da história.

Hanna, filha de Suzette e Alex, tem apenas 7 anos. A criança não fala e, apesar de ter sido sujeita a observação de vários pediatras, nenhum consegue apresentar uma razão que justifique o mutismo da menina. Além disso, apresenta um comportamento bastante hóstil em relação à mãe.

Conforme referi acima, não há como dissociar Hanna, às personagens de Rhoda Penmark (The Bad Seed) ou de Damien (The Omen), diferindo, obviamente, no cenário, na própria interacção familiar e no contexto social.

Escrito sob as perspectivas de Suzette e Hanna, o leitor consegue perceber as duas versões das personagens e claramente toma o lado de Suzette. É consensual afirmar que esta personagem desperta empatia uma vez que, para além de se debater com este problema da instabilidade da filha, sofre de doença de Crohn. Nunca tinha visto retratada esta doença na literatura e, pelo que conheço sobre a mesma, considero que a abordagem foi bastante realista, conferindo um toque de vulnerabilidade à personagem que se vê naquela situação complexa e invulgar. Além disso, somos confrontados com alguns episódios da sua infância, pautados por alguma negligência da parte da mãe de Suzette, intensificando a sua percepção em relação à filha. Sente que a tem que proteger a todo o custo embora, simultaneamente, não consiga lidar com a aparente indisciplina que esta apresenta. 

O pai, Alex, desresponsabiliza a filha, relembrando inúmeras interacções entre pais e filhos em que um dos progenitores é o the good cop. Não acredita, na maioria das vezes, nas acções de Hanna pelo que há um desgaste na relação entre este e a esposa.

Contudo senti que, em alguns momentos, a Hanna tinha mais do que 7 anos de idade. Normalmente as crianças com estas idades têm raciocínios muito mais básicos do que as ideias articuladas e posteriores acções da personagem, escrupulosamente planeadas, com vista a denegrir e magoar a sua mãe. A meu ver, houve assim alguma falta de credibilidade associada à caracterização de Hanna.

Além disso, como consideração final, creio que a menina carecia de uma explicação concisa para aquela forma de ser tão instável. O leitor não consegue perceber, no final de contas, se Hanna estaria mentalmente doente, se é psicopata (uma hipótese que, na minha opinião, facilmente é descartada tendo em conta os seus sentimentos pelo pai) ou se, em última análise e esta pertencendo ao campo sobrenatural, está possuída pela entidade que ela admira, Maria-Anne Dufosset - a última mulher queimada por bruxaria em França.

Constatei que, já na parte final da história, uma situação foi, a meu ver, altamente inconsistente. Ora havendo uma criança desequilibrada, será de esperar que os pais sejam mais contidos nos planos com a família, certo? Há um episódio que não me soou convincente por essa razão.

Ainda uma crítica sobre o final. Sendo um desfecho que está em consonância com a história, senti falta de uma reviravolta que me surpreendesse. Teria gostado que Zoje Stage fosse mais audaz com o clímax da história.
Não compromete, no entanto, que considere que Baby Teeth, sendo uma obra de estreia da autora, esteja bem conseguida.

Em suma, este é um livro tenso e cativante que nos leva a questionar uma série de aspectos referentes à maternidade. Não é uma trama original não obstante ter-me rendido ao livro. As acções praticadas por Hanna, com vista a magoar a sua mãe, chocaram-me genuinamente. 
Seria, sem dúvida, uma excelente aposta caso fosse publicado em Portugal. Recomendo!

domingo, 17 de junho de 2018

Iain Reid - I´m Thinking of Ending Things [Opinião]


I´m Thinking of Ending Things foi um livro que me despertou a atenção por aliar o thriller psicológico ao terror e a alguns fundamentos filosóficos. Por isso nem hesitei ouvir este audiobook que tem sensivelmente 5 horas, correspondendo, portanto, a um livro pequeno. Nem vos confidenciei que ultimamente tenho-me dedicado a este formato aquando vou a caminho do meu trabalho.

A trama inicia-se quando a protagonista segue no carro com o namorado, a caminho da casa dos pais dele. Desconhecemos o nome dela, mas temos acesso aos seus pensamentos mais íntimos: ela pensa em terminar com tudo. A partir desta premissa, a personagem tece uma série de considerações, muitas delas convidativas à reflexão.
Confesso que, apesar do livro ser curto, o início não me cativou particularmente. Achei o ritmo algo moroso, percepção que atribuo aos vários pensamentos da personagem feminina. Esta disserta sobre a complexidade de uma relação, passando a relatar alguns episódios da sua infância bem como terá conhecido Jake. Ouvia estes trechos sem grande interesse quando ela descreve o conteúdo bizarro de chamadas anónimas que recebe no seu telemóvel. Confesso ter ficado bastante intrigada a partir desse momento.

Bizarro é, aliás, o adjectivo que eu utilizaria para exprimir esta história, em linhas gerais. 

A experiência de ter ouvido este audiobook foi excelente. A narradora do audiobook manteve-me na expectativa e conseguiu transmitir o ambiente tenso que se faz sentir, não só na viagem, como sobretudo na casa dos pais dele e nos acontecimentos seguintes. Diria que esse é o ponto forte da trama: no decorrer desta "leitura", sentia-me constantemente desconfortável sem saber porquê. Simplesmente não havia uma razão concreta para me sentir daquela forma. E como referi anteriormente, esta sensação acentuou-se a partir do momento em que as personagens chegam à casa dos pais dele. 

Fiquei sem palavras em vários momentos, de tão insólitos eram as passagens. Tudo se encaminhava para ser um livro inesquecível porém, tive um problema com o desfecho. Antes de discuti-lo, sem evidentemente, deixar spoilers, gostaria de mencionar que a experiência do audiobook havia contribuído para que viesse a sentir uma maior intensidade no final. A resolução desta narrativa inicia-se após um trecho extremamente bizarro e que funcionou muitíssimo bem na leitura. Dei uma olhada ao ebook e senti-me igualmente arrepiada.

Contudo, tive alguns problemas em digerir o que acontecera até então. Confesso que não percebi, assim que ouvi o clímax, tendo recuado instantes antes para tentar aperceber-me realmente do que se passou então. Senti-me frustrada e surpreendida.
Só quando pesquisei no Goodreads um fórum com uma discussão entre os vários leitores é que, como se costuma dizer, me caiu a ficha. O autor foi extremamente inteligente em fechar a história, de uma forma mais subjectiva e implícita, obrigando-me a reflectir sobre a mesma. Devo afiançar que, ainda que tenha terminado a obra há uns dias, esta tarda em sair da retina. Sendo um audiobook e em inglês, foi com a máxima atenção que ouvi a história e atentei nos detalhes que considerei mais inusitados. Só após este exercício de reflexão é que consegui perceber que o final não fora tão descabido como avaliei na altura.

Não descurando o desenvolvimento da narrativa que, sublinho, se caracteriza por um ambiente sufocante, esta obra marca, principalmente, uma incredulidade sobre o final. 

Em suma, um livro pequeno, diferente e bizarro que me deixou a matutar. Ainda hoje penso na história e na sua complexidade. Embora curto, é, sem dúvida, uma trama deveras intensa e que nos convida a questionar sobre múltiplos pontos. 

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Sarah Pinborough - Behind Her Eyes [Opinião]


OK, com tantos livros para ler escolhi um, em ebook, que tem feito algum burburinho na internet. Falo de Behind Her Eyes de Sarah Pinborough, aclamado como o thriller psicológico cujo desfecho é o mais surpreendente de sempre. Há até uma campanha de marketing que desafia os leitores a partilhar a hastag #WTFThatEnding. Tive que ler para crer.

Desconheço se será publicado por cá (este ano foi editado pela Bertrand o livro 13 Minutos da autora) mas consta que esta história era superior, razão pela qual optei por esta obra.
Debruçando-se sobre um casal disfuncional, David e Adele, a trama adensa-se quando surge Louise. Esta, sem saber, engata David num bar e no dia seguinte percebe que é o seu novo patrão. A partir deste acontecimento, a história ergue-se sobre um triângulo amoroso (se bem que a relação do casal já esfriou tanto que já nem romance havia entre as personagens).

Nem sei muito bem como me expressar relativamente a este livro. Gostei da história com algumas ressalvas. Portanto, não fiquei completamente rendida mas a história teima em não sair da minha cabeça. Tem-me acompanhado desde ontem de madrugada, altura em que terminei a leitura.

Aprecio tramas credíveis e claramente que Behind Her Eyes não corresponde, de todo, a esta componente. A narrativa é pautada por alguns laivos de sobrenatural, ingrediente que vai ganhando força à medida que a história se desenvolve. Para mim, e claro que é uma percepção muito pessoal, o maior terror advém precisamente do ser humano, na maldade que este exerce (e que acaba por ser explorado no género de thriller psicológico). Porém, a história, sendo claramente do domínio paranormal devia ter uma outra categorização.

Não senti grande empatia com as personagens. Adele é uma narradora que suscita constantemente a dúvida e David pareceu-me também não ser digno de confiança. Há, no entanto, um aspecto que gostei na caracterização de Adele, uma psicopatia assumida e ao longo da leitura tive sempre presente a Amy Dunne (Gone Girl). Quanto a Louise, achei que, por vezes, teve atitudes contraditórias, Tanto tinha alturas em que ia à luta como mostrava autocomiseração e dependência. Sinceramente, nenhuma das personagens me cativou.

No que concerne ao malfadado twist, sim é verdade, é impossível adivinhá-lo. Fiquei estupefacta pois confesso que nunca pensei que a história se resolveria assim. Tendo em conta o que lera até então, sim é um final coerente com aquela trama. Contudo, também tenho uma noção de que será um final detestado por muitos leitores. Tenho para mim que não há meio termo para esta história e, em particular, este desfecho. 

Porém, sendo eu uma cinéfila de filmes de terror, asseguro que já vi dois filmes com situação semelhante e, por esse prisma, o final não é completamente inovador. Abstenho-me, claro, de mencionar os filmes afim de evitar qualquer tipo de spoiler.

É um livro completamente bizarro. Nem sei que nota lhe hei de atribuir no Goodreads. Dividido em três partes, confesso que não fiquei entusiasmada nas primeiras duas. Achei que o ritmo foi muito lento e não saía muito da vida rotineira de Louise, dos dilemas éticos sobre ser amiga da mulher do amante e outras crises existenciais. 
Contudo a terceira parte já foi lida com mais interesse. O final foi bem intenso, à sua maneira.

É um livro que deve ser lido open minded pois é muito diferente dos thrillers psicológicos que proliferam por aí. Gostei de ler algo fora da minha zona de conforto e, sobretudo, de ser surpreendida no final. No entanto, confesso que o paranormal não é bem a minha praia... 

Terei aqui leitores que já tenha lido esta obra tão incomum? Digam-me o que acharam, sem spoilar nada para desafiarmos outros leitores a descobrir o que afinal escondem David, Adele e Louise.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Adam Croft - Her Last Tomorrow [Opinião]


Li a versão original, em ebook, do livro O Último Amanhã. Demorei cerca de um dia. O livro é pequeno, com 200 e algumas páginas e os capítulos são curtos. Sem dar conta, na primeira noite li logo 28%. Posso dizer que, tendo uma acção frenética, O Último Amanhã é um livro viciante, contudo e agora que findei a sua leitura, não posso crer que me tenha rendido completamente.

Passarei então a explicar. Talvez tenha uma percepção errada da minha parte até porque, como li O Casal do Lado e Aqueles Que Merecem Morrer há, relativamente, pouco tempo, apercebi-me de algumas similaridades entre estas obras e O Último Amanhã. A premissa do livro é, de facto, o desaparecimento de uma criança e, conforme a frase que consta da capa, o leitor apercebe-me imediatamente de que Ellie, a filha de Nick, terá sido raptada. O resgate é, no entanto, incomum pois em vez de dinheiro, está em jogo uma vida, a da mulher de Nick. É neste ponto que residia, a meu ver, uma aparente originalidade da história mas de repente lembro-me de O Marido de Dean Koontz em que o desenvolvimento da história se alicerçava sobre um caso semelhante.
Foi inevitável não pensar em Lily de Aqueles Que Merecem Morrer quando, a certa altura, Nick delega o assassinato da mulher a outrem.
Daí que, não tirando mérito ao autor (pois de facto, estamos perante uma história que agarra o leitor), identifiquei alguns pontos comuns com as obras que nomeei. Pessoalmente não encontrei nenhum elemento verdadeiramente inovador da trama que justifique o hype desta. Relembro que a primeira edição da obra foi numa publicação de autor e foi um sucesso de vendas. Não obstante ser um enredo bastante ágil que proporciona uma ávida leitura, reiterando que esta experiência de leitura foi muito rápida, num espaço de apenas um dia. Há que ter em conta também que, não lendo na minha língua materna, a leitura costuma ser, regra geral, mais morosa.

No decorrer da leitura, estava sempre expectante com o rumo da acção. O rapto de Ellie, pareceu-me, inicialmente, um acaso, percepção deitada abaixo com o aparecimento do estranho resgate. Notei que a trama é muito actual, pegando na modernização da tecnologia como uma ferramenta aparentemente eficaz na transmissão de informação sem que seja conhecida a identidade do remetente. As redes sociais ou os vídeos do Dailymotion vão além do canal de entretenimento como nós o conhecemos. 

Além disso, devo louvar o desfecho da história. Não equacionei, devo confessar, que a resolução do puzzle seria daquela forma e acabei por ser surpreendida.

Ainda que a obra seja um thriller acaba, inevitavelmente, por levar a reflectir sobre relações matrimoniais e as prioridades que são estabelecidas numa sociedade em que grande parte da população é workaholic e secundariza a família. Desta forma, pareceram-me pouco convincentes algumas atitudes de Tasha, mulher de Nick, perante o desaparecimento da filha. Normalmente a mulher tem um papel mais maternal.

Por último, não poderia deixar de apontar um aspecto curioso relativo ao autor: a sua generosidade em partilhar com os leitores a sua propriedade intelectual. Registei-me no site dele e recebi, gratuitamente, um ebook, denominado A Cry For Help. Parece-me que seja igualmente um thriller e independente de O Último Amanhã. Certamente que lhe darei uma oportunidade.

Em suma, um livro que entretém por um bom par de horas, contudo, a meu ver, não se evidencia (com excepção, talvez, do final) dos demais thrillers que assentam sobre a temática do rapto.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Colleen Hoover - It Ends With Us [Opinião]


Antes de começar a minha crítica sobre este livro, creio ser pertinente referir que a obra já foi publicada em português pela editora TopSeller e qualquer informação sobre a mesma, encontra-se neste link. Eu li em inglês, por impulso. Não tinha sequer equacionado esta leitura num Maio que, pensava eu, seria repleto, uma vez mais, de thrillers e policiais.

Parti para esta leitura completamente em branco. Apenas tinha presente as inúmeras recomendações nas redes sociais embora já conhecesse a autora pelas obras Um Caso Perdido, Uma Nova Esperança e Amor Cruel. Talvez por isso, pela minha completa ignorância sobre o tema principal abordado na obra, fiquei genuinamente surpreendida com a história. Vou, portanto, abster-me de tecer comentários que eventualmente possam desvendar demasiado sobre a trama.

A verdade é que gostei muito deste livro. Já vi o tema retratado e vou-me coibir em mencionar algumas obras que se debruçam nesta problemática ainda tão actual nos dias de hoje. Sempre que encontro esta temática retratada, emociono-me sempre por reconhecer esta situação em duas pessoas que conheci, uma delas muito recentemente. 
Talvez tenha sido por isso que a história me tenha absorvido tanto e li esta obra, em inglês, em cerca de dois dias. Porém, não é apenas de momentos tristes que vive esta história. A presença de um casal secundário, Alyssa e Marshall, com discurso pautado pela comicidade acaba por mitigar o dramatismo do enredo. Confesso que esperava ver mais desenvolvido o pequeno drama referente a este casal que foi efémero. Compreendo a abordagem muito ligeira, afinal de contas, esta história não pretende centrar-se na infertilidade.

As personagens principais são, de facto, carismáticas, especialmente Lily, a protagonista. 
Gostei muito dos seus diários para a Ellen DeGeneres em que falava sobre os seus 15 anos, altura em que conheceu uma pessoa muito especial. Além disso, é através destes diários que o leitor compreende a interacção familiar de Lily, um dos ingredientes que, a meu ver, tornam esta história memorável. 

Não posso deixar de mencionar o outro componente que intensifica esta minha percepção: o epílogo. Nunca um epílogo foi tão emocionante quando este. Também me vou abster de comentar o conteúdo do mesmo, onde Hoover confidencia alguns aspectos de cariz mais pessoal e eu senti-me sensibilizada, uma vez mais...

Agora que penso no enredo, creio que este é repleto de lições de vida que vão muito além dos lugares comuns e dos clichés que ouvimos quando se fala do tema central. 
Esta trama é simplesmente dilacerante e intensa. Confesso que me senti bastante comovida no decorrer da leitura e a história tocou-me como poucas o fazem. Desta vez ter saído da minha zona de conforto compensou. Seguramente este livro não me sairá da cabeça durante os próximos tempos.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Karin Slaughter - Fallen [Opinião]


Como muitos de vós puderam constatar, o mais recente livro publicado por cá da autora Karin Slaughter, A Mulher Oculta, corresponde ao 8º livro da série protagonizada por Will Trent. Será também pertinente lembrar que o último livro publicado, Broken, é o 4º, colocando-nos a nós, leitores, numa posição algo ingrata. Simplesmente ficámos com um hiato de três livros e um conto (#5 Fallen, #5.5 Snatched, #6 Criminal e #7 Busted). Muito sinceramente, não consigo compreender estas opções editoriais. 
Achei pertinente, antes de enveredar pela mais recente obra publicada, ler o quinto da série (e os outros que faltam). Assim, fui obrigada a optar pela leitura em inglês de Fallen. Começo a lidar com as leituras em inglês com um outro ânimo.

Na minha óptica, agora que terminei a obra, creio que esta história adianta alguns factos importantes para a série doravante. O mais evidente é a vida pessoal do Will Trent que tem uma mudança significativa nesta história. Depois dos acontecimentos referentes a Trent, sinto que nada será como antes, não obstante considerar que a personagem Angie Polaski ainda dará que falar. A relação entre esta e Trent continua a ser marcada por uma toxicidade incomum se tivermos em conta que são um casal e choca-me que haja/tenha havido paixão ou atracção sexual naquelas circunstâncias. Claro que o passado de Will terá sido abonatório. É novamente trazido à baila o assunto da infância de Will e Angie que é bastante angustiante, como se devem recordar, reforçando que aquele jogo de subjugação e manipulação que ela exerce sobre ele já vem desde tenra idade.

Além disso, esta história debruça-se sobre Evelyn Mitchell, a mãe de Faith, uma personagem que tem algum destaque na série por ser parceira de Will. Muito sinceramente não me recordo se esta personagem foi devidamente esmiuçada nos livros anteriores. Até então, a minha ideia sobre ela era muito redutora e foi consolidada com esta história. 

Ao contrário das outras obras de Slaughter em que os crimes são, predominantemente, de cariz sexual, em Fallen este debruça-se sobre o desaparecimento de Evelyn. 
O cenário inicial é aterrador. A história começa quando Faith se dirige à casa da mãe e apercebe-se de que algo está muito errado: a mãe não atende o telemóvel, há uma dedada de sangue na porta da entrada, a filha bebé, Emma, que estava aos cuidados da avó, foi encontrada sozinha no anexo da casa.
A acção do livro é frenética, nunca me aborreceu, quer pelo desenvolvimento do caso, quer pelos avanços nas tramas pessoais de Will/ Angie e Sara Linton e até núcleo familiar de Faith.

À medida que a história evoluía, pensei nas várias hipóteses: Evelyn terá sido assassinada? Ou a reformada capitã da polícia de Atlanta fora raptada? E se sim por que motivos? 
É uma trama que, à semelhança das outras da autora, nos deixa a remoer sobre a história. A violência é explícita e, novamente, fiquei rendida às histórias de Slaughter. O desfecho é surpreendente e nunca me passou pela cabeça a resolução do puzzle que a autora nos apresenta.

Em suma, parece-me bastante audaz passar do 4º livro da série, Broken, para o 8º de imediato. Creio que se perdem muitos pormenores sobre as personagens. 
Considero de facto que esta obra é uma mais valia a fazer a ponte entre as recentes obras publicadas por cá. Não achei que o inglês da obra fosse demasiado exigente e devo dizer que estou rendida à experiência de ouvir o audiobook enquanto leio neste idioma. Facilita a experiência de ler em inglês quando não se tem muita prática, como eu. Um livro que, por razões óbvias não fosse a Karin Slaughter uma das minhas autoras de eleição, recomendo vivamente.

sábado, 25 de março de 2017

Rena Olsen - The Girl Before [Opinião]


Mais um livro lido e ouvido em inglês, um thriller psicológico simplesmente dilacerante e perturbador. Esta obra merecia ser atentada pelas editoras portuguesas. Fica a sugestão. O meu mês de Março fica pautado, assim, por duas Raparigas de Antes: a de JP Delaney e esta, de Rena Olsen.

Sem querer desvendar nada do enredo, querendo espicaçar-vos para a leitura da obra, mesmo em inglês, a trama fala sobre Clara, uma rapariga na casa dos 20s que foi encontrada dentro de um armário, junto de uma menina. O primeiro capítulo é, desta forma, repleto de acção e levanta uma pertinente questão: em que circunstâncias vivia Clara? Considero, por isso, que este livro desperta um súbito interesse logo no primeiro capítulo, percepção que ganha maiores contornos à medida que nos envolvemos na história.

Narrado sobre a perspectiva de Clara, a trama oscila entre os momentos do passado e os do presente onde percebemos que a protagonista viveu enganada durante toda a sua vida. Actualmente assume-se casada com Glen e, retrocedendo ao passado, acompanhamos como ela cresceu sob as rígidas ordens dos pais do marido, Mama Mae e o Papa G. Algo me diz que, por muitos livros que leia, nunca me esquecerei destas personagens.

Os episódios que pautam a sua vida, no passado, são contados de forma aleatória. Pessoalmente discordei da opção da autora. Teria preferido ter-me alheado do passado de Clara na sua forma cronológica. Até porque, escrito desta forma, o leitor tem conhecimento de certas informações que teriam maior impacto se fossem reveladas mais tarde. A título de exemplo, uma das primeiras situações do passado que ela relata é a morte de uma personagem (e apercebemo-nos que esta terá ocorrido num passado mais próximo). Este volta a protagonizar outros episódios, relatados mais tarde, muito embora já se saiba qual fora o seu desfecho.

Apesar de considerar a história toda pouco verosímil (ainda que saiba que acontecimentos traumáticos são bloqueados na nossa mente devido a um mecanismo psicológico denominado por recalcamento), não consigo entender como é que este pode apagar memórias passadas. Até porque, no presente caso, falamos de alguém cuja vida mudou aos 6 anos de idade e eu, ainda que, felizmente, não tenha experienciado nenhum trauma, tenho recordações de episódios antes dessa idade. Portanto não consegui entender como é que antes dos seus 6 anos de vida, as recordações de Clara tenham sido simplesmente apagadas ou se houve uma inibição de continuar a existência que tivera até então.

Também não entendi como é que há tantas raparigas que se submetem a uma situação tão decadente como a que é retratada em The Girl Before. E Clara, em especial, como é que não se apercebeu de que tudo o que fazia era em prol da degradação das muitas meninas que moravam com ela. E aquela relação dela com Glen. Seria uma extensão do fenómeno conhecido por Síndrome de Estocolmo?

Esta história levanta, como deixei antever, algumas questões pertinentes. E adianto que há uma outra muito interessante que se reflecte numa dubiedade entre uma vítima e um perpetrador numa situação limite como a que Clara atravessa.

Apesar destas incongruências, não pude deixar de atribuir 5 estrelas no Goodreads a esta obra. Tantas vezes me senti enredada por toda aquela manipulação e toxicidade que me senti genuinamente indignada, arrasada e por vezes esperançada. O desfecho foi emocionante não obstante ser previsível desde o início. 

Um outro aspecto que gostaria de realçar foi o contexto da história. Este livro, salvo erro, foi escrito no ano passado mas a trama passa-se nos anos 90. Será mera especulação (ou uma constatação) de que os anos 80 havia mais facilidade em raptar uma criança, jogando com a morosidade em obter informação. Contrasta muito com a sociedade de hoje, em que a internet é a mais imediata mediadora de referências.

Não deixo de recomendar novamente este livro, salientando novamente o quão fiquei incrédula com o tema retratado, com o estilo degradante de vida de Clara e pela maldade incalculável daquela família.
Simplesmente arrebatador!

quinta-feira, 16 de março de 2017

B.A. Paris - Behind Closed Doors [Opinião]


Este livro, infelizmente, ainda não publicado em Portugal, foi/está a ser tão falado lá fora que tive que o ler. Conforme fui partilhando nas redes sociais, a experiência de ler esta obra foi diferente (e muito positiva). Confesso que, apesar de me considerar desenrascada na língua inglesa, não tenho vagar em ler neste idioma, no entanto, li Behind Closed Doors em dois dias. Aguardavam-me, de acordo com o audiobook, 8h30 de leitura pela frente.
Ouvir atentamente a história, à medida em que a lia, em ebook, fez-me atentar em todos os pormenores da trama. Não que seja uma leitora distraída mas ouvir a narradora, enquanto acompanhava a história, trouxe uma nova dimensão à experiência de leitura. Recomendo, claro! E hei de ler mais alguns livros nestes moldes. Já tenho alguns debaixo de mira.

A primeira impressão, logo nas primeiras páginas, onde tem lugar um jantar de convívio de amigos, é que Jack e Grace Angel são um casal perfeito e feliz. Começava a duvidar do que lera sobre este livro. Iria num rumo de um perturbador thriller psicológico como ouvira? Sim. Nada é como se julga. Agora que revejo mentalmente o primeiro capítulo, sinto que pequenas pistas foram deixadas por Grace, para nos preparar mentalmente para o terror que se seguiria. 

Já há muito que não estava tão entusiasmada com um livro. Que história espectacular! Não querendo desvendar muito sobre a trama, esperançosa de vos espicaçar (não se deixem, por favor, intimidar pela língua pois este livro vale mesmo a pena), devo dizer que se trata de um casal com uma relação bastante controversa. É uma história assaz perturbadora, tendo-me repugnado diversas vezes.

O curioso é que apenas os livros mais gráficos me deixam desta forma, não obstante Behind Closed Doors não explorar homicídios macabros, acompanhados de detalhes sórdidos. Não há litros de sangue ou mutilação de cadáveres, ingredientes que aprecio por me deixarem estupefacta perante o teor maquiavélico de uma personagem.
No entanto, se há algo tão intenso quanto a violência física é, seguramente, o sofrimento psicológico. O aspecto mais chocante desta obra é a personalidade psicótica do antagonista que não inflige tortura física, mas opta por demonstrar a sua malvadez numa linha mais psicológica. Mais não digo. É a surpresa que este livro me trouxe: quando achava que ele tinha ultrapassado os limites, eis que as suas acções pioram.
Por outro lado, a protagonista feminina, Grace, que é simultâneamente a narradora em dois momentos temporais distintos, surge como uma figura cheia de esperança. A sua bóia de salvação é a irmã, Millie, portadora de Síndrome de Down. Senti uma imediata empatia por Grace e a forma tão maternal como lida com a irmã, personagem por quem também nutri um certo carinho.

Li avidamente esta obra em dois dias, como avancei antes. Quando não lia, pensava nos próximos passos do antagonista e no quão sufocante era a posição da vítima naquela teia tão hábil e toxicamente construída. Fui engendrando inúmeras teorias, o clímax não esteve muito longe disso.
Embora reconheça alguma previsibilidade no desfecho da trama (e foi bastante satisfatório, torço veemente pelos finais felizes), este livro cativou-me tanto pelo desenvolvimento da história, em particular, pela atrocidade dos actos do protagonista/antagonista.

O único aspecto negativo que tenho a apontar e relativo à história é a não resolução de algumas situações. Uma em particular, que provavelmente teria um maior interesse caso fosse esmiuçada: as constantes viagens de Jack à Tailândia. Que propósito teriam?
Enfim, face à estrondosa história acaba por ser insignificante... 

Em suma, Behind Closed Doors seria, decididamente, uma excelente aposta por parte das editoras portuguesas. Já há muito tempo que não lia um livro tão angustiante como este. Adorei!

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Mark Edwards - Follow You Home [Opinião]


Podia copiar a sinopse (em inglês pois este livro não foi publicado em Portugal) mas vou falar da obra depois de vos mostrar o trailer:

 

Que vos pareceu?
Devo dizer-vos que foi a primeira experiência em ler em inglês e correu muito bem. Já tenho mais uns livros neste idioma debaixo da mira para ler! O ritmo de leitura foi, no entanto, mais lento. 
Optei por este título após ter visto a sua nomeação para a categoria de terror e por recomendação de uma livrólica no facebook. 

Daniel e Laura são um casal britânico na casa dos 30s que pretendem casar e ter filhos, pelo que vão fazer uma viagem de comboio pela Europa como despedida de solteiros, digamos assim. Na Roménia são assaltados e expulsos do comboio por não terem bilhete. Sem dinheiro ou passaportes, tentam encontrar uma cidade, e, até lá, caminham por uma floresta e entram numa casa onde uma experiência traumática vai mudar as suas vidas.

Primeiro, devo dizer que o leitor só sabe o que aconteceu na Roménia na terceira parte do livro, pelo que a trama foi bastante misteriosa até então. Acontecem algumas coisas sinistras já em Inglaterra que me deixavam antever uma situação bastante grave naquela casa romena e que teria que permanecer secreta. Quando David revela o que de facto aconteceu, devo confessar que esperava algo bastante mais profundo, no entanto não deixa de ser uma situação aterrorizante.

Esta era, provavelmente, a maior revelação da trama pelo que pensei que a doravante a história não traria surpresas. Como me enganei... a trama torna-se bastante intrigante por explorar melhor a questão da situação da Roménia e por abordar mais exaustivamente as personagens oriundas do país.
Há uma pequena reviravolta final que não tinha equacionado. Apanhou-me completamente desprevenida.

Uma trama que inclui alguns rasgos de violência explícita, não sendo adequada, portanto, aos leitores mais impressionáveis. 

Gostei bastante deste livro e creio que publicado em Portugal, seria uma excelente aposta para os fãs do thriller e terror.