Rendida é o primeiro volume da série erótica Crossfire de Sylvia Day, da chancela da Porto Editora, 5 Sentidos, exclusivamente dedicada ao tão actual romance sensual.
Após tanto ter ouvido falar neste livro, e depois de o ter lido, ávidamente num dia, a minha impressão final é a seguinte: achei que são várias as semelhanças com a famigerada trilogia Cinquenta Sombras de Grey, mais concretamente com o primeiro volume.
Ora vejamos: Anastasia e Christian conhecem-se no emprego, Eva Tramell e Gideon Cross também; Christian tem um tenebroso passado bem como Gideon. E mais... não é no primeiro livro que a autora (tanto James como Day) desvendam estes traumas que assolam a infância do(s) protagonista(s) masculino(s).
Christian é multimilionário, possuindo empresas das mais diversas naturezas. Que coincidência... é que Gideon também! Chistian não era dado a sentimentos e os casos que foi tendo, não foram mulheres com quem ele tivesse vontade de passar a noite. Ahhh que curioso, acontece o mesmo com Gideon!
A cereja em cima do bolo? Mr. Grey é dominador... e imaginem lá como é o Mr. Cross? Ora que surpresa, é dominador também (ainda que mais discreto). E sim, o termo é dominador e não dominante como é figurado no livro...
E a idade de ambos? 28 anos (personagens masculinas, dominadores, lindos de morrer, multimilionários) que nasceram no mesmo ano. Deveras impressionantes estas coincidências..
No meio de tantas (assombrosas) semelhanças, a autora não ia plagiar E.L. James, até porque nos agradecimentos, refere-se a esta como uma fonte de inspiração. Embora peque pelos contornos irremediavelmente parecidos, Rendida acaba por se destacar por ser uma história mais coesa, o que se estende para os personagens.
Sylvia Day opta por munir a personagem feminina Eva, de uma forte personalidade. Ela tem um melhor amigo, bissexual, Cary Taylor (aqui aponto para a redundância do nome, visto que Taylor era o segurança do 50 Sombras), amigo este comparável à Kate, com o papel de aconselhar a melhor amiga. Por ser um homem bissexual, também este (embora sem grande protagonismo na trama) consegue dar um toque diferente e de certa forma acaba por complementar a já complexidade auferida aos protagonistas.
Não quero de todo, fundamentar a minha opinião de Rendida com as comparações que fui colhendo ao longo da leitura do livro. Mas quer queiramos, quer não, até os nomes das personagens são familiares. Tramell é o apelido de Catherine, em Instinto Fatal, uma mulher enigmática e à vontade com a sua própria sexualidade que acaba por, de novo, ser uma quase faceta da protagonista Eva. Esta não tem qualquer pudor com o NAP (namorado a pilhas), embora pareça contraditório se se tivermos em conta o seu passado também ele tenebroso. Sim, aqui a personagem feminina também tem uns segredos do passado, e que são desvendados ainda antes de sabermos os de Gideon.
Este é dominador, embora muito dissimulado, mas é daquele tipo de homem que gosta de ter tudo sobre controlo, inclusivé as relações. É mais directo e chocou-me particularmente a forma como se dirige a Eva num dos primeiros contactos que as personagens têm.
Houve um aspecto que me irritou, não sei se pela minha filosofia de vida, mas a verdade é que não conheço ninguém que opte por terapia de casais após dias de namoro (mas será mesmo namoro ou uma relação de exclusividade sexual?)
De qualquer das formas, não quero de maneira nenhuma pôr o Grey num pedestral pois no meio de tantas comparações ou ameaças iminentes ao plágio, reconheço aqui uns
aspectos bastante positivos para Rendida. Esta história encontra-se
muito melhor escrita, não tendo que a autora recorrer à repetição (nem à
irritante deusa interior). A história, construída sobre alicerces mais
sólidos bem como as personagens que no presente caso, são dotadas de uma
maior complexidade, uma vez que há evidentes traumas infantis quer em
Eva Tramell quer em Gideon Cross, que condicionam os "estilhaços" nas suas próprias personalidades.
Gostei do magnifico cenário de Manhathan e o glamour que a cidade transmite. Um cenário extremamente propício para a luxúria que imediatamente se apropria entre o casal.
Como já era expectável, as cenas sexuais abundam e são verdadeiramente
explícitas sem cair no ordinário. A autora descreve os actos com uma
sensualidade muito própria, aliando a um uso da linguagem cuidada,
exceptuando o recorrente verbo em calão sinónimo de coito.
Em suma, talvez tivesse apreciado mais Rendida se não tivesse lido anteriormente a trilogia de Grey. No entanto, foi um livro que gostei, como confesso gostar destes recentes romances sensuais. Apenas gostaria que a história fosse um pouco mais original e saísse dos moldes já explanados pela E.L. James. No entanto, e volto a salientar, esta é uma trilogia que tem muito potencial devido à melhor caracterização das personagens bem como os alicerces que sustentam a história, e que para mim, são bastante sólidos.
Estou expectante com a publicação dos próximos volumes pois quero muito acompanhar o resto da história entre Eva e Gideon.