quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Top 10 de 2011

Chegando ao final do ano, é altura para balanços... Foi um ano bastante frutífero. Consegui (espero eu de que...) ler 76 livros. E à semelhança do ano passado, não posso deixar de escrever um post com os melhores livros que li neste ano, que finda já neste fim de semana. Então, aqui deixo a minha lista das dez melhores leituras, sem qualquer ordem específica:

1. Mo Hayder - Os Pássaros da Morte
2. Ken Follett - A Ameaça
3. Nicci French - Killing me Softly
4. Brian Freeman - Segredos Imorais e O Voyeur
5. Camilla Lackberg - Teia de Cinzas e Ave de Mau Agoiro
6. Yrsa Sigurdardóttir - O Ladrão de Almas
7. Chevy Stevens - Continua Desaparecida
8. Tess Gerritsen - O Cirurgião e o Aprendiz
9. Jo Nesbo - A Estrela do Diabo
10. Mons Kallentoft - Anjos Perdidos em Terra Queimada e Segredo Oculto em Águas Turvas

Foram estes os 10 autores que me marcaram, através dos seus livros que me proporcionaram momentos de leitura fantásticos. E vocês? Que livros elegem em 2011?

E para terminar este balanço anual de 2011, não quero deixar de mencionar os vários seguidores com quem vou trocando umas sugestões literárias. Agradeço os vossos posts, as sugestões, os comentários, a simpatia... enfim, um grande obrigado às amizades que aqui se vão criando com o objectivo comum da partilha literária. Também gostaria de agradecer às editoras pela dedicação e pelo apoio prestado à menina dos policiais, alimentando este meu ambicioso projecto.
A todos vós, o meu grande OBRIGADO!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal


Porque é Natal, época para celebrar a família e os amigos, a menina dos policiais deseja aos seus seguidores um Feliz Natal e um ano de 2012 próspero em sucessos, saúde, paz e claro... muitos livrinhos (e preferencialmente thrillers :))
E Natal é para mim também, Tim Burton, por isso homenageio-o através desta imagem, de um dos filmes que me marcou num Natal há alguns anos atrás!


P.D. James - A Paciente Misteriosa [Opinião]


A minha estreia com a autora P.D. James revelou-se extremamente frutífera! Este é daqueles livros que, a partir da primeira frase, directamente revela o desfecho da personagem principal, Rhoda Gradwyn, sem qualquer rodeios. Estragará a surpresa perguntam vocês. Bem, penso que além de estar explícito na sinopse, queremos sobretudo saber as razões que motivaram tal destino para esta personagem.

Assim, a trama inicia-se quando esta decide procurar o cirurgião George Chandler-Powell a fim de remover uma cicatriz que tem na cara. O estranho é que Rhoda Gradwyn tem esta cicatriz há mais de 30 anos e só agora é que decidiu tomar esta atitude.
De facto, o esforço da autora na descrição desta personagem, revendo a sua história de vida, faz com que nos sintamos próximos da mesma. É-nos revelado sobretudo as maiores tragédias da vida de Rhoda Gradwyn, tendo originado aquela cicatriz. Embora Gradwyn tenha uma profissão um tanto ou pouco ingrata, descrevendo segredos obscuros de outrem, o que se chama de jornalismo cor de rosa dá alento a que esta personagem, seja um pouco detestada, alargando assim o leque de personagens com intenções de a matar. A personagem não tem grande estrutura familiar mas conta fundamentalmente com o apoio do seu amigo Robin Boyton.

À medida que a jornalista se sente mais confortável no solar, antes da operação, são descritas as personagens intervenientes do livro, e surge uma sensação de que todas escondem algum segredo. A autora, apresenta assim uma série de personagens, com uma participação mais ou menos directa no cenário e que tiveram contacto com Rhoda Gradwyn. E surge então a dúvida: terão os fazendeiros e ajudantes do cirurgião algum contacto prévio com Rhoda? Ou o crime terá sido meramente aleatório?

Decididamente este não é um livro com um nível desmesurado de acção, antes pelo contrário, é um livro bem misterioso que vai relatando a trama com um ritmo bem mais lento. No entanto, apresenta uma história interessante que faz lembrar as famigeradas aventuras de Poirot, em que a resolução dos crimes assentava essencialmente, em pressupostos de lógica. Também os detectives Kate Miskin e Adam Dalgliesh usam o interrogatório, corroborado pelos relatórios de autópsia, para chegar a revelações arrebatadoras não só sobre a morte de Rhoda bem como um outro evento que, surpreendentemente, se interpõe na trama. Ora vejamos, o que pensam vocês seguidores, quando Dalgliesh se reúne com a restante força policial na biblioteca para discutir os progressos do caso? Claramente Poirot, não vos parece?

Embora haja uma descrição até algo morosa sobre as forças policiais que protagonizam A Paciente Misteriosa, não deixei de reparar que esta é já a décima quarta aventura de uma saga levada a cabo pelo Adam Dalgliesh. Enquanto decorria a leitura, perguntava-me constantemente se não teria feito melhor se tivesse começado pelo primeiro livro. Talvez sim...embora tenha sentido empatia com estas personagens, e a sua descrição me permitisse conhece-las relativamente bem.
Embora conhecemos o desfecho de Dalgliesh com Emma, a sua noiva, questiono-me se não teria acompanhado o seu romance ao longo dos treze livros precursores a este. E sim, acho que seria interessante conhecer este lado mais pessoal e íntimo do detective, pois gosto de ver realçada toda uma componente mais humana dos investigadores face aos desenvolvimentos respeitantes ao crime propriamente dito.

P.D. James descreve com mestria toda a arquitectura e pormenores dos chalets, fazendo-me sonhar em deslocar-me às terras de sua majestade e eu própria passear naqueles jardins e pomares. E depois, o que haverá de tão misterioso e empolgante num agregado de pedra, onde outrora servia quase como um local de inquisição, tal era a quantidade de bruxas queimadas nesse local quase pré-histórico.

Com uma estrutura que subdivide a trama em cinco livros, em que o culminar de intriga aumenta de livro para livro.
Em geral, esta obra de P.D. James lê-se muito bem. Um desfecho que explica, pelas palavras do próprio assassino, toda a motivação dos crimes, complementando com pormenores, o que o leitor sabia de antemão sobre a investigação. E como os anglo-saxónicos nos têm já habituado, trata-se de uma investigação policial, em que os crimes são descritos de uma forma muito "polite", muito subtil, recorrendo a uma linguagem clara, simples e desprovida de conteúdos explícitos de violência. Claramente um romance policial que se adequa a qualquer público alvo, satisfazendo os fãs de Agatha Christie e Stephen Booth. Recomendo vivamente! Irei certamente acompanhar esta autora!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

William Golding - O Deus das Moscas [Opinião]

Fugi um pouco dos policiais... é certo que a sinopse do livro deixa algum mistério no ar, mas decidi-me a lê-lo devido a uma recomendação e pelos supostos ensinamentos que o livro contém. Como certamente alguns de vós sabeis, eu trabalho com crianças e todos os dias aprendo um aspecto novo sobre as mesmas. Daí ter optado este livro, sabendo de antemão, que a obra de Golding não apresenta um retrato de todo abonatório sobre crianças.

A sinopse do livro fala de um grupo de meninos isoladas numa ilha. Sabemos que a criança mais velha tem cerca de 12 anos, havendo miúdos muito mais novos. Pouco se fala sobre o exterior, deixando antever que está em guerra. Sabe-se que, as crianças foram ali parar quando um avião se despenhou, deixando-as à mercê de si mesmas, sem qualquer supervisão de adultos.

Desde já, o primeiro aspecto a salientar é a capacidade de descrição do autor, tornando a ilha quase como paradisíaca. Ao ler sobre a mesma, pensava na ilha do célebre filme, A Lagoa Azul, ainda que o contexto não seja o mesmo. Nesta história temos crianças. Sem qualquer adulto por perto! E estas crianças. de origem britânica, viveram na civilização. São portanto crianças com valores morais e que se vêem encarceradas naquela ilha. E que, tal como Emmeline e Richard (os famigerados personagens da Lagoa Azul), também estes meninos querem sair da ilha, tendo noção de que até lá, precisam de conhecer novas ferramentas para a sobrevivência. E quando falo de sobreviver, falo de aspectos básicos da alimentação e abrigo mas também de não se deixar apanhar pelo Deus das Moscas...

O livro é muito interessante e julgo ser uma reflexão sobre a sociedade. Trata-se portanto de uma alegoria, em que cada elemento da ilha é representativo de um aspecto característico da sociedade. E nem o sítio mais paradisíaco está isento de uma força maligna. Neste caso existe o Deus das Moscas. Cada uma das crianças representa um estereótipo diferente. Apesar dos diferentes feitios dos vários rapazes, penso que no início da narrativa não existem nem heróis, nem vilões, apesar de haver personagens que mais se destacam. É-nos impossível não nos identificarmos com Piggy, o menino gorducho, com óculos, que mantém toda a sua calma ainda que nas situações mais complexas. Mas Piggy é alvo de troça por parte das restantes crianças.
A obra permite em que sejam repensados valores como a capacidade de liderança. Afinal, em todos os grupos há que ter uma pessoa capaz de gerir as inúmeras situações que poderão advir naturalmente de uma dinâmica de grupo. A gestão deste fica a cargo de dois rapazes, com temperamentos completamente diferentes. Ora vejamos, por um lado temos o calmo Ralph, por outro Jack, o líder impulsivo. Eles tentam a todo o custo, estabelecer regras para que o grupo continue coeso mas evidentemente, o caos instala-se e os seus objectivos acabam por colapsar.

Munido de características como aterrador ou perturbador, devo dizer que, não o achei assim tão impressionante... é certo que mexe com o leitor, afinal de contas, quais são os seres humanos num estado de pureza tal que não as crianças? E ver o mau que existe nelas é como um soco no estômago, um despertar para uma realidade não equacionada. Afinal, a ânsia pelo poder e o egoísmo não dizem respeito apenas a adultos, podendo tomar proporções catastróficas. No entanto, o nível de violência (e neste caso, esta encontra-se em proporções qb) está muito aquém do que espero nos livros e talvez não tenha sensibilidade para apreciar um livro deste calibre (sou e sempre serei a apaixonada por um bom policial com ou sem violência). Mas isto não significa que não tenha gostado do livro até porque achei-o bem interessante.
Como pontos negativos devo dizer que este foi dos livros que, tendo terminado, ficou uma sensação algo pesada. Deixou-me reflectir sobre a sociedade actual e penso que, as 231 páginas da versão de bolso do livro, me pareceram tão pouco... O autor poderia ter explorado mais exaustivamente a situação dos meninos, sem se tornar cansativo. Depois também achei o final um pouco abrupto. Num número tão reduzido de páginas assistimos ao clímax tão repentino da acção.

Ficou a curiosidade de ver a adaptação cinematográfica. Recomendo este livro como meio de reflexão sobre a sociedade actual. Penso que o facto de ter sido escrito nos anos 50 em nada influenciou os valores morais da nossa sociedade, e por mais anos que passem, esta será sempre uma temática bastante actual. Depois desta leitura, garanto-vos que não olharão para as crianças como olharam até ao momento. Um livro que depois de ser fechado e guardado na estante, irão certamente continuar a pensar no mesmo!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Divulgação Publicações Europa América - Lynn Sholes e Joe Moore: Os Apóstolos de Fénix


Um novo policial dos autores de A Conspiração do Graal

A jornalista Seneca Hunt está a assistir à abertura do túmulo de Montezuma na Cidade do México quando a equipa de escavação, chefiada pelo seu noivo, descobre que os restos mortais do imperador desapareceram. Poucos minutos depois, todos os que ali estão saem mortos — com excepção de Seneca, que escapa à carnificina por um triz.
Decidida a descobrir quem está por detrás das mortes, Seneca junta-se ao romancista Matt Everhart. Juntos, eles fazem a arrepiante descoberta de que alguém está a roubar restos mortais dos mais famosos assassinos em massa da história — enquanto seguem um trilho letal que vau recuar até à morte de Jesus Cristo.

Elogios a Os Apóstolos de Fénix:

«O que é que se obtém quando se cruza Indiana Jones com o Código Da Vinci?
Os Apóstolos da Fénix, uma viagem emocionante, com tantas reviravoltas que mal temos tempo para recuperar o fôlego» — Tess Gerritsen, autora do êxito Ice Cold.

«Sholes e Moore criaram um policial apocalíptico espectacular, uma história épica de ouro, arqueologia, assassinos em massa, profecias antigas e terrorismo.» — Douglas Preston, autor do êxito Impact.

«Um romance empolgante, fascinante.» Carla Neggers, autora do êxito Cold Dawn.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Asa Larsson - Sangue Derramado [Opinião]


Depois da estreia surpreendente em Aurora Boreal, Rebecka Martinsson, a protagonista das tramas de Asa Larsson regressa com Sangue Derramado. A acção do novo livro de Larsson ocorre dezoito meses após a trama passada e como tal, Rebecka ainda se sente fragilizada dados os acontecimentos e o desfecho do livro anterior.

Mildred Nilsson tem um papel bastante activo na igreja. Alguns populares adoram-na, outros nem por isso... Até que Mildred aparece morta e é a advogada Rebecka Martinsson a inteirar-se da investigação, juntamente com os polícias Anna-Maria Mella e Sven-Erik Stalnacke.
À medida que a investigação decorre, há inúmeros flashbacks que relatam acontecimentos protagonizados pela própria Mildred, que deixarão o leitor estrondosamente surpreendido. É através desta forma que começamos a perceber como são as personagens mas até ao final do livro, estaremos longe de imaginar o que realmente aconteceu a Nilsson. Inúmeros segredos sobre esta mulher são desvendados num timing quase mágico. À medida que nos aproximamos do clímax da trama, esta torna-se mais emocionante e imprevisível, prendendo-nos ao livro até que se torne impossível não o terminar de imediato.

Os mais cépticos poderão assumir que a autora não foi muito original. Afinal também no primeiro livro a investigação prendia-se num líder religioso encontrado morto, Viktor Strandgard. No entanto, a minha opinião é que a autora se envolve muito no tema da religião. O que será mais controverso do que líderes religiosos vítimas de homicídio?
Achei este livro um tanto ou pouco similar ao livro "A Raiz do Ódio" de Anne Holt. Ora vejamos, uma mulher ligada à religião que é morta: check; a controversa abordagem da temática da homossexualidade: check; a investigação do crime como fundo da história pessoal do investigador (se no caso anterior era o casal Stubo, aqui é Martinsson). Dado o curto intervalo que espaçou estas leituras, fez com que pensasse em ambos os livros, e estabelecesse por diversas vezes um paralelismo entre as autoras nórdicas. Afinal Mildred Nilsson e Eva Karin Lysgaard são personagens bastante similares, dado o seu estatuto social e até mesmo as suas caracterizações. Por isso não posso deixar de aconselhar aos fanáticos dos policiais nórdicos, que estendam o intervalo de leitura entre Larsson e Holt a ponto de garantir uma melhor apreciação (e distinção) entre estes livros.

Não deixo de sublinhar o quão interessante é ler um policial nórdico. Penso que os escandinavos têm uma perspectiva diferente sobre a criminologia face aos livros americanos mais vistos por aí. Além disso, querem melhor do que avaliar as diferenças culturais entre os nórdicos e os mediterrâneos? Curiosa a gastronomia sueca, que apresentam deliciosos pratos confeccionados com carne de rena, por exemplo. Mas a leitura de um livro com origem escandinava associa um senão: a complexa toponímia dos locais e personagens. Achei particularmente difícil assimilar os nomes dos locais suecos por onde decorria a acção, devo confessar, mas nada que um rascunho a lápis não facilite.

Um livro cujo arranque é lento relativamente a Aurora Boreal. Talvez explique o maior número de páginas que sustenta esta história. A autora perde-se em pormenores, relativos ao extenso elenco de personagens. Ainda assim, não recomendo a leitura deste livro sem previamente ler-se Aurora Boreal. São fantásticas as descrições das florestas e bosques suecos envoltos naquele frio gélido.
A trama, dotada de grande mistério e suspense, vê estas componentes suspendidas quando se interpõem passagens com episódios relativos a uma loba, de seu nome Patas Douradas. Estes relatos incidem sobretudo na vivência do animal e do seu clã nos bosques suecos, e o que implica para garantir a sua sobrevivência. Curioso é perceber que há todo um movimento dos populares para a conservação deste animal, tão semelhante quanto os mediterrânicos se assegurarem da não extinção de espécies semelhantes aqui na Península Ibérica.

De facto, a autora revela uma preocupação acima do comum dado o género do livro, com os animais. No entanto, esta apreensão perde o seu sentido quando no final, o leitor é confrontado com uma passagem terrorífica de violência relacionada com cães domésticos. O desfecho é tão impressionável como imprevisível. É no final, que são juntas as peças do puzzle e o leitor conhece assim, as relações familiares entre as demais personagens, que até ao momento, aparentemente nada as mantém ligadas. A autora vai assim, além de um simples policial, revolvendo emoções das personagens através não só das suas tragédias como das vitórias pessoais.

Em relação às personagens, já as conhecia, do livro anterior. Gosto de Rebecka Martinsson, que sendo advogada envolve-se em demasia nas investigações criminais. Uma mulher frágil mas que de certa forma mostra alguma destreza nesta função. Pelo menos mais do que os polícias, que numa situação de alta importância, se esquecem de um mandato para revistar uma casa. Anna-Maria Mella, que estava grávida na anterior narrativa, vê a sua vida pessoal um pouco diferente. No entanto não é dado grande ênfase nesta componente na história, a autora cingiu-se apenas ao fundamental.

Sangue derramado de título, mas o livro é um dos mais despercebidamente sangrentos que li até à data. Ainda assim não deixo de recomendar este grande policial aos fanáticos da literatura do género escandinava, que está mais que provada, ser uma das mais arrebatadoras de sempre. Muito mistério, alguma acção, twists não equacionados e uma passagem perturbadora garantem um excelente momento de leitura!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Patrick McGrath - Trauma [Opinião]


Patrick McGrath é um conhecido escritor de suspenses psicológicos, no entanto foi com este livro que me estreei nas suas obras.

Escrito sob o ponto de vista de Charlie Weir, um afamado psiquiatra de Nova Iorque, o leitor sente na pele os testemunhos envolventes do protagonista. Filho de uma mãe depressiva e de um pai com tendência a refugiar-se no álcool, Charlie tenta arduamente superar os traumas de infância causados pelas acções dos pais e da relação conturbada com o irmão, Walter.
Quando ele conhece a misteriosa Nora Chiara, apercebe-se dos seus fantasmas e tenta resolvê-los a todo o custo. Mas ironia das ironias: Charlie, psiquiatra, ajuda os outros a ultrapassar experiências traumáticas mas será que consegue resolver o trauma que existe no seu âmago?

O primeiro pormenor que reparei foi logo na escrita do autor, tendo a apontar a existência de poucos diálogos. Creio que será essencialmente devido ao facto do livro ser relatado na primeira pessoa, e como tal, o narrador relata os acontecimentos de uma forma bastante descritiva, estando grande parte das conversações em discurso indirecto.
O livro peca por este défice, especialmente porque considero que os diálogos interagem mais com o leitor e de certa forma, quebram a rotina da trama.

McGrath mostra uma grande mestria em relatar assuntos relacionados com a Psicologia. Não verifiquei qual seria a área de estudo do autor mas se McGrath não é formado em Psicologia, então enganou-me bem... Aliás, duas características que imediatamente atribuí ao livro foi a atrocidade e a complexidade das temáticas abordadas. É difícil ler sobre algo tão fascinante mas ao mesmo tempo tão intrincado que é a psicologia humana. E de facto é um tema introspectivo na medida em que nos inteiramos que uma simples acção fora da rotina pode deixar marcas e estas podem até ser irreversíveis. Embora apresente o seu mistério, à medida que decorre a trama o leitor vai descobrir inúmeros factos sobre Charlie. Desta forma, o autor recorre a constantes analepses para relatar episódios da infância do psiquiatra, bem como outros acontecimentos marcantes já em idade adulta. Assim o leitor entende o estranho relacionamento com a ex mulher Agnes.

As personagens são credíveis e extremamente complexas. Desde o psiquiatra até aos seus pacientes e membros do núcleo familiar, são munidos de um trauma, e que os moldaram na forma de estar como seres adultos. Ora vejamos: o cunhado Danny com marcas da guerra do Vietname, Agnes e Nora (as mulheres da vida de Charlie) tão diferentes mas com um episódio no passado que as deixarão com fantasmas tão semelhantes... são mulheres mentalmente fracas e voláteis. Até o próprio psiquiatra, em estado de inferioridade face ao irmão, lutando perante a mãe que é um bom filho... Há uma vulnerabilidade nas personalidades bastante vincada e extensível a todas as personagens.

Um aparte: sendo a acção passada em 1970, o livro relata aspectos que não deixam de ser curiosos como a construção das torres do World Trade Center (que como sabem, foi destruído em 2001)

Embora tenha um número bastante reduzido de páginas, Trauma não deixa de ser uma leitura, na minha opinião, morosa. Comparativamente aos livros da minha preferência, a acção é mais lenta. Na minha opinião este livro está longe de ser um verdadeiro thriller psicológico. Contém uma certa dose de suspense é certo, mas creio que a trama relaciona-se fortemente com uma introspecção a nível da mente humana. Aborda temas que são difíceis de digerir, como traumas de guerra, violações e outros abusos. Há alguns twists na trama mas penso que o desfecho não foi muito imprevisível. O leitor descobre a resolução do mistério pessoal de Charlie a sete páginas do fim, querendo a mim parecer que foi um final algo abrupto, podendo ter sido mais explorado.

Em suma, Trama é um livro que sendo catalogado de thriller psicológico, alcança um patamar de grau medíocre. É um livro que explora a psique, o ultrapassar de um trauma e as relações humanas, por isso não deixo de recomendar aos que apreciam esta temática. Irão certamente achá-lo fascinante!

domingo, 27 de novembro de 2011

Mons Kallentoft - Segredo Oculto em Águas Turvas [Opinião]


Este é o terceiro livro da tetralogia de Mons Kallentoft, tetralogia essa onde cada volume corresponde a uma estação do Ano. Acompanho desde o início, esta saga protagonizada por Malin Fors que teve como primeira investigação, Sangue Vermelho em Campo de Neve, correspondendo ao crime ocorrido na estação do Inverno.

Um dos aspectos que é importante destacar é a rapidez com que a editora D. Quixote publicou este livro. Após ter lido Anjos Perdidos em Terra Queimada, no passado Verão, foi com uma enorme surpresa e agrado que tive conhecimento da publicação do terceiro livro, pouquíssimos meses após a saída do segundo volume. A editora tenta acompanhar as estações do ano para lançar o livro alusivo aos mesmos, mas Mons Kallentoft não terá certamente equacionado este estranho fenómeno das alterações climáticas, tendo nós a sensação de ter passado do Verão imediatamente para o Inverno.

Esta é daquelas sagas onde não considero fundamental a leitura dos livros por ordem de publicação. É certo que os protagonistas são os mesmos, mas os casos descritos são completamente independentes. Neste livro, a personagem fulcral da trama é Jerry Petersson, um advogado ávido por dinheiro e que compra o castelo de Skogsa à estranhíssima família abastada Fagelsjo. Eis que este, misteriosamente aparece morto no fosso do castelo. Quando Malin Fors e a sua equipa investigam o caso irão descobrir que Petersson era mais do que um simples advogado. Tem segredos que poderão explicar o porquê deste destino...

As primeiras páginas do livro ditam um destino conturbado para Malin Fors. que se depara com um problema pessoal. Para os mais ansiosos, diria talvez que este início é um pouco lento, debruçando-se essencialmente na vida pessoal de Fors. Desta forma, é feito um enquadramento da situação familiar da inspectora que mudou radicalmente nas suas relações nomeadamente com a filha Tove e o ex-marido Janne. Conforme sabem os leitores da tetralogia de Mons Kallentoft, o último livro, Anjos Perdidos em Terra Queimada, teve um desfecho não muito positivo para Tove. De facto, as marcas na filha da inspectora tiveram tal proporção que catapultaram a mãe para um precipício de destruição. No entanto, este contexto pessoal da inspectora é importante, especialmente para quem pretende ler o Segredo Oculto em Águas Turvas, sem recorrer à leitura prévia dos livros anteriores.

O autor volta a usar aquela que foi a fórmula que o distingue dos restantes policiais: a introdução de relatos dos falecidos intercalados na narrativa. Inevitavelmente isto resulta... Se é maçudo ou repetitivo, perguntam vocês, eu diria que não. Com estes testemunhos, acabamos por conhecer um pouco da personagem que até aí funcionou quase como um mero figurante, mas que acaba por ter um papel vital na trama: o de vítima de homicídio. Kallentoft preocupa-se assim em dar um ponto de vista sobre a morte, e o que terá sido a existência dessa personagem para que o leitor sinta alguma proximidade e eventualmente empatia com a mesma. E em geral, estas vítimas que vão sendo comuns nos livros do autor, têm diferentes personalidades e todas carecem de um mau íntimo.
Afinal "dar vida" aos mortos é uma ideia controversa mas de certa forma inovadora na literatura policial e interage muito mais com o leitor do que as vítimas de homicídio com que nos costumamos deparar.
Também denotei uma evolução no autor, nomeadamente através do realismo de descrições espaço físico onde decorre a acção, falo sobretudo do castelo. Senti uma familiaridade com certos elementos portugueses e tentava constantemente estabelecer comparações com os nossos castelos e palácios. Agrada-me particularmente a escrita de Kallentoft, que abraça a vida pessoal das personagens com a investigação dos casos, mas sobretudo, acho aqueles monólogos dos mortos, algo de outro mundo. O leitor quase que sente na pele o clima de sobrenaturalidade que o autor realça nessas passagens, e que, brilhantemente, se adaptam no meio da narrativa do "mundo real".

Grande parte das personagens são comuns aos livros anteriores. Comecemos então por Malin Fors. Se a inspectora era alvo de admiração anteriormente, aqui esta personagem decai e no início, o leitor muito dificilmente sentirá algo além de pena e compaixão... As restantes personagens, já nossas conhecidas, debatem-se com os seus problemas pessoais, nem os considerados heróis da trama (toda a hierarquia da polícia) estão imunes a uma panóplia de problemas que se reflectem essencialmente nas suas vidas.
Em relação aos irmãos Katarina e Fredrik Fagelsjo, que família! Fiquei impressionada por duas personagens que nem se dão muito a conhecer, mas que conseguem fascinar sobremaneira o leitor. São de facto personagens complexas, mas muito reais, ao longo da narrativa, levanta-se a dúvida "Que terão eles a esconder em relação à sua fortuna e a necessidade de terem vendido o castelo?"
Só apontaria o facto do autor, a certo ponto, me ter confundido com nomes das personagens tão parecidos quanto Anders e Andreas e que desempenham papéis relacionados na trama... Por si a antroponímica sueca já é consideravelmente complexa.

Achei que o livro aborda temas bastante credíveis e até comuns na sociedade actual. Falo portanto do alcoolismo (e a facilidade que se cai num vício deste tipo) e as consequências de uma mentalidade deveras ambiciosa, explorando o trauma e a evolução deste quando o mesmo não fica bem resolvido.

Um livro cuja estrutura é deveras fascinante. O autor envolve a trama com dois pormenores: o primeiro, já comentado, os monólogos dos mortos, que conferem uma certa originalidade à narrativa. O outro, já visto outrora em policiais, é o recuo temporal. O autor, à semelhança da conterrânea Camilla Lackberg, incorpora acções passadas nos anos 70 e 80, para nos apresentar em primeira mão, factos que terão alguma importância na actualidade. Ao longo de todo o livro, há o desvendar de inúmeros pormenores tanto sobre Petersson como sobre a família que deixarão o leitor boquiaberto.

Se o livro acaba bem...? Terá que ser o próprio leitor a descobrir, embora me sinta impelida a chamar a atenção para o desfecho da narrativa relativamente à personagem Maria Murvall, desfecho esse que nos deixa com uma enorme curiosidade relativamente ao último volume da saga.

Um livro que não posso deixar de recomendar aos fãs do policial. E não escondo que, dos três livros, o segundo foi até à data o meu preferido. Ainda assim fico, ansiosamente, à espera do quarto e último volume desta saga que acredito, irá marcar os fãs deste género.